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the old soul girl

the old soul girl

04
Nov19

um medo forte

girl

Existiam duas pessoas, distintas, antes e depois do medo. A primeira era luz, a segunda escuridão. A primeira era liberdade, a segunda controlo. A primeira vivia, a segunda pensava em viver, mas tinha demasiado medo para arriscar e sair da sua zona de conforto. A primeira dizia sim, a segunda não. A primeira era o copo meio cheio, a segunda era o copo vazio. 

Como é que ela se tinha transformado naquela pessoa? Onde é que estavam todas as características que ela tanto apreciava e, julgava, a definiam? Para onde tinha ido a sua energia e confiança no mundo? E como as poderia recuperar?

Era este ciclo repetitivo de questões e dúvidas que ocupava o seu pensamento a maior parte do tempo. Cada tarefa era alvo de uma intensa análise, medindo prós e contras, avaliando se era ou não capaz. Eram sobretudo as dúvidas acerca de si mesma que a aborreciam. Aquele constante diálogo interno que teimava em não cessar acerca de ela ser ou não ser capaz. Quase sempre terminava com ela a acreditar que não era. E, novamente, confinada no seu mundo interior, abafado e cinzento.

Não se reconhecia. Ela era apenas uma sombra disforme da pessoa que costumava ser. Não tinha sido esta pessoa com quem ela tinha sonhado ser. Não era esta versão. Não, esta estava toda errada. Tinha tudo que ela mais temia: medo, insegurança, dependência, ansiedade. Ela não queria ser esta pessoa.

E, neste momento, já nem precisava de ser a sua versão idealizada. Bastava-lhe recuar no tempo e ser quem ela era antes do medo se apoderar de cada célula do seu corpo. Medo do que pode acontecer, mas acima de tudo, medo de não ser capaz de lidar com tudo o que pode acontecer. Era aí que residia a fonte de todo o seu sofrimento. Ela tinha medo do medo. Medo de não ser capaz de o enfrentar. Medo de ficar bloqueada, medo de ser vulnerável, medo de errar, medo de não ser corajosa. 

Nos piores cenários que idealizava, a cena podia mudar de ambiente, de personagens, mas uma coisa nunca mudava: consistia sempre em sentir-se perdida, sem qualquer controlo sobre a situação e a desaparecer dentro de si mesma, sendo completamente absorvida pelo medo. Nesses cenários tenebrosos, procurava sempre um ponto de fuga. Uma saída de emergência.

Era por isso que, para si, era sempre tão importante identificar todas as saídas possíveis. Antes de começar alguma coisa, tinha de se certificar de que existia forma de se escapulir caso sentisse necessidade. Precisava de saber que existiam portas, janelas, frestas por onde ar fresco poderia entrar e ela poderia sair. Porque quando o medo a atacava, o modo fuga ativava-se imediatamente e ela só queria correr o mais rápido possível para um lugar escondido, encolher-se entre as suas pernas, fechando os olhos e retomando o ritmo da sua respiração. 

O medo condicionava-a e ela sabia. Isso só a fazia sentir-se ainda mais cobarde e odiar um pouco mais a sua fraqueza. Passara a invejar os aventureiros e corajosos desta vida, que partem com uma mala às costas e seguem caminho, sem sequer pensar nas mil e quinhentas coisas que lhes podem acontecer. Como ela invejava os confiantes, que caminham seguros de si, da sua verdade e não receiam mostrar-se ao mundo como são. Ah e os serenos? Esses ocupavam o topo máximo da sua pirâmide de inveja. Essas eram as pessoas verdadeiramente felizes: as que conseguem reunir sempre calma e paz dentro de si mesmos para lidar com o caos que vai fora de si.

O seu problema é que o caos, infelizmente, estava instalado dentro dela. Ela sabia que cá fora estava tudo bem, por dentro é que estava tudo caótico. Era esse desassossego, essa inquietação que a perseguiam. E se, de início, ela tentara ignorar e suprimir os seus efeitos, agora já tinha compreendido que de nada lhe valia. Porque quanto mais tentava ignorar, mais crescia a sensação de fracasso e terror dentro de si. Era como se todas as tentativas de resistência fossem água e adubo para as sementes do medo. 

Agora restava-lhe o quê? Sabia que dificilmente tornaria a ser pessoa que era, antes do mundo se ter tornado num lugar assustador e pouco confiável. Tinha visto e sentido demasiadas coisas para as conseguir ignorar e regressar à sua vida passada. Bastava-lhe acreditar que se iria tornar numa pessoa melhor. Naquele tipo de pessoas que passam pelas grandes adversidades da vida, sentindo o terror de perto e, no meio da escuridão, são capazes de traçar o caminho até à luz. Aquele tipo de pessoas que, por conhecer o medo de perto, deixam de o temer. Pois percebem que o medo é uma emoção como outra qualquer e se não temos medo da felicidade, não temos de temer de o medo. Pessoas que fazem do medo companheiro de viagem, mas não o deixam ser o guia da mesma. 

Sim, era nessa pessoa que ela queria transformar-se. Antes ela não sentia medo e sentia-se corajosa. Mas, na verdade, talvez ela não fosse assim tão corajosa, pois nunca tinha enfrentado nenhum medo. Agora, pela primeira vez na vida, estava a ter a oportunidade de o ser, porque tinha um medo para superar. E ser corajoso é isso, não é? Ir com medo, mas ir. Não é ausência do medo, mas a capacidade de agir mesmo estando cheia dele. Sim, ela queria ser uma dessas pessoas. As corajosas.