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the old soul girl

the old soul girl

16
Nov20

minha pequenina

girl

Já tentei escrever antes, mas não senti que os meus textos merecessem ver a luz da publicação e, assim, guardei-os na gaveta dos rascunhos, esse lugar espaçoso onde cabem todas as minhas ideias e emoções no seu estado mais bruto.
Hoje faz um mês que me despedi da minha amiga de quatro patinhas que, sem qualquer dúvida, significou mais para mim do que muita gente que por cá anda e alguma até do meu sangue. Faz um mês que tivemos de tomar a decisão de a deixar ir, de terminar com o seu sofrimento e lhe dar o descanso que ela tanto merecia. Mas, ainda que saibamos que foi a melhor decisão, isso não a tornou mais fácil. Pelo contrário, quando somos nós os autores das nossas escolhas, temos de enfrentar a realidade de que fomos nós que assim decidimos. Não foi o destino, a sorte ou o azar. Fomos nós e somente nós.
Foi um dia muito difícil, mas também era insuportável olhar para ela e ver como se arrastava, a dificuldade com que se erguia, a falta de apetite, a apatia, a perda de todas as funções e, no fim, a perda da sua personalidade enérgica. Só não se perdeu a sua mimalhice, porque era a cadela mais mimada e faminta de mimos que já conheci. Apesar de todas as dores, ainda era capaz de olhar para nós, tocar-nos com a sua patinha, como quem implora mais uma festinha pela cabeça, mais uma massagem pelo lombo.
Naquela sexta-feira, chorei até não conseguir mais. Doeu-me tudo e quando fechava os olhos, só conseguia ver aqueles dois olhinhos castanhos, ternurentos, cravados em mim. Sempre que pensava que aquela pequenina já cá não estava, que já só vivia na nossa memória, que se tinha esfumado num sopro, doía-me o coração e a alma.
Num rascunho escrito a 18/10, eu escrevia:

"Sempre que acontece alguma coisa que mexe comigo, penso "preciso de escrever sobre isto". Nem sempre o faço, mas sinto a vontade, não só para eternizar momentos, mas também para organizar o que vai dentro da minha cabeça. Nestes últimos tempos não tenho tido a maior disponibilidade do mundo para me sentar e dedicar-me a escrever, o que não significa que tenha pouca coisa em mente para organizar.
Este ano está a ser difícil para todos nós. É inegável. Estamos a viver uma situação digna de um guião de um filme de ficção científica ou terror, que jamais imaginamos ser possível. Ainda assim, e já após 7 meses de pandemia, nunca dei comigo a dizer "que ano horrível". Embora, como toda a gente, me sinta assustada, frustrada e cansada desta situação, nunca dei este ano como um ano perdido, que riscaria do meu calendário. Não só porque esta situação completamente atípica e nova me tem ensinado muito acerca da nossa forma de viver e estar, mas também porque este ano trouxe-me coisas positivas. No entanto, na semana passada vivi um acontecimento que me fará para sempre olhar para 2020 como um ano triste. 
Porque desde a semana passada, 2020 será sempre relembrado, entre outras memórias, como o ano em que me despedi da minha cadelinha, um dos seres mais puros que já conheci. Há pessoas que não compreendem os animais como algo mais que meros seres vivos, mas para mim, os animais valem tanto ou mais que algumas pessoas. Como a minha cadela, por exemplo, de quem gosto imensamente mais do que muitos seres humanos, alguns até da minha família. A minha cadela era da família, era do núcleo duro e forte, onde só entra quem é realmente especial e importante. 
Estava doente, muito e gravemente doente. Sei que a melhor decisão a tomar foi deixá-la partir e reencontrar o sossego e a paz que já não tinha há muito tempo. Eu sei disso tudo, acreditem. Mas por maior que seja a racionalidade e a lógica desse argumento, nada disso me consolou naquele dia em que me despedi dela para a deixar partir e nunca mais a tornar a ver. Foi um dos dias mais tristes da minha vida e uma das maiores perdas que já vivi. Gostava de conseguir escrever algo mais profundo, até mais bonito, acerca dela que, sem dúvida alguma, o merece, mas neste momento não me sinto capaz de o fazer. Porque quando me lembro que ela já não existe, que nunca mais a voltarei a ver, dói-me tudo. Toda e qualquer parte do meu corpo se contrai com a dor, quase sinto o meu coração a quebrar-se em mil estilhaços. Por isso, por mais que a escrita seja terapêutica para mim, ainda não consigo escrever tudo o que vai dentro de mim sobre este assunto. Porque tudo me faz confusão, a aceitação e a negação misturam-se, tenho flashes a todo o momento da última vez que a vi, a ferida ainda está aberta e cheia de sangue a jorrar por todo o lado."

Hoje, passado um mês, posso afirmar que aquele momento de despedida me trouxe uma paz e conforto que, no meio da tempestade, não consegui sentir, mas que, com o passar dos dias, encontrei. A oportunidade de nos despedirmos, de dizermos adeus, de olharmos, sentirmos, absorvermos uma pessoa, um animal, um lugar pela última vez é uma dádiva. Eu tive a oportunidade de me despedir da minha amiguinha, de a mimar até ser o momento final, de lhe dizer o quanto a amava e o quanto ela era incrível, espetacular e a melhor cadela que o mundo já teve oportunidade de conhecer. Hoje, quando penso nela, não sou invadida pelas imagens da despedida, mas antes por todos os momentos bons e maravilhosos que ela me proporcionou. Lembro-me da sua energia inesgotável, da forma como parecia que via Deus sempre que me via pegar na trela, porque sabia que ia passear, o modo como me perseguia pela casa, pois sabia que eu sou fácil e nunca era capaz de lhe negar miminhos. Lembro-me de como os almoços de domingo eram uma alegria para ela, com tanta gente à volta da mesa, sempre a dar-lhe comida. Até cheguei a descascar-lhe camarões! Lembro-me de como se empoleirava para comer os restos de gelado que já não conseguíamos comer e como os seus bigodes ficavam brancos, era um prazer indescritível. Lembro-me das suas orelhinhas levantadas quando nos ouvia chegar a casa e como corria ao nosso encontro. Ainda a procuro em todos os cantos da casa e do jardim, convencendo-me cada vez mais que a casa sempre foi mais dela do que nossa. Sinto saudades dela, nas mais pequenas coisas, mas o coração já não me dói com o desespero de a termos perdido. Ela faz parte de mim, sempre fará, e enquanto eu estiver viva, ela vive comigo e dentro de mim. 

28
Set20

Who looks outside, dreams; who looks inside, awakes.

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Na noite passada, tive um sonho em que tu aparecias. O sonho, em si, foi uma confusão. Literalmente uma confusão, que me envolvia a mim, dois pretendentes, uma escolha, um abandonado no altar. Hilariante, eu sei. Mas tu estavas lá, no momento em que tomei a minha decisão. Encostei a minha cabeça ao teu ombro, suspirei e tu disseste-me que estava tudo bem, que podia sempre contar contigo. Senti-me protegida e senti que estava tudo ali. A nossa amizade de anos, a nossa cumplicidade, a confiança. E, quando acordei, senti saudades tuas e nossas. Senti saudades da nossa infância e adolescência, em que não havia um dia em que não estivéssemos juntas ou que não falássemos. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que mudaste de casa e passaste a ser minha vizinha. Parecia algo demasiado bom para ser verdade. Iamos sempre juntas para a escola, ainda somos do tempo em que usávamos o telefone fixo, de casa, para nos perdermos em conversas de horas. A minha mãe questionava o que tanto tínhamos para dizer uma à outra quando passávamos o dia juntas. Mas a verdade é que tínhamos sempre assunto. Crescemos juntas, demos os primeiros passos em conjunto, contigo sempre mais à frente, mas nunca deixaste de esperar por mim e celebrar as minhas conquistas, por mais que fossem tardias. Naquela noite invernosa, quando comecei a namorar com o meu amor, foste tu quem acalmou a minha ansiedade. Fizemos uma pijama party, vimos (pela centésima vez) o Into the Wild e, quando amanheceu, bastou-me atravessar a rua e estava em casa.
Sinto que com a ida para a faculdade, nos afastamos. Seguimos caminhos diferentes, a vida intrometeu-se, mas admito que não nos priorizei, porque sempre soube que eras algo garantido. Serias sempre a minha melhor amiga e eu a tua. Conhecemos pessoas, fizemos amizades, vivemos experiências sem a presença uma da outra, mas aquele sentimento de total conforto e confiança que sinto contigo nunca se ofuscou.
Hoje, a pensar no sonho que tive, lá estavas tu. Gostei daquela proteção e da forma como me confortaste. Lembrei-me de como ouvias sempre os meus dramas e medos, éramos totais confidentes. Nunca tive medo nem vergonha de te dizer nada, até hoje. Gostava de te dizer o que se passa cá em casa e acho que mereces sabê-lo. Afinal, estas pessoas não te são estranhas e também cresceste com elas. Gostava de te dizer tudo, porque mereces que o faça e eu preciso do teu conforto. Aquele que nego, que digo não precisar, que se esconde atrás de um "está tudo bem".
Sempre nos chamamos de "maninha", porque é isso que sempre sentimos que éramos: irmãs. E, precisamente por isso, gostava de ter a coragem de te contar o que se passa deste lado da família. Eu creio que já sabes alguns detalhes, mas quero que saibas por mim. Quero ser eu a explicar-te tudo. Não sei quando nem como o vou fazer, mas sinto que é algo que está pendente entre nós. E se há coisa que este sonho mirabolante me mostrou é que sinto saudades tuas e que te quero na minha vida, como sempre tiveste. 

24
Set20

#16 Self-care journal: 5 most beautiful moments you've ever witnessed

girl

Surpreendentemente, não foi difícil pegar num punho de momentos bonitos que já tive oportunidade de testemunhar. Claro que existem muitos, alguns até nem tão felizes, mas incrivelmente belos, no entanto, estes foram os cincos que surgiram mais rapidamente na minha cabeça. Neste desafio específico, gostava de vos ler e conhecer momentos bonitos que tenham experienciado. Quais foram? O que fez deles especiais? O que sentiram? O que é que isso diz acerca de vocês? Partilhem comigo enquanto eu vos deixo cinco dos meus.

1. Basílica de São Pedro

Foi o primeiro momento que me veio à mente quando li este desafio. Regressei de imediato às férias de maio de 2015, aquela longa semana, em que muitos estavam a viver a queima das fitas enquanto eu e o meu amor partimos para Roma, para viver e sentir na pele o verdadeiro significado de dolce far niente. No dia em que fomos ao Vaticano, estava um calor abrasador e eu, que lido mal com temperaturas acima dos 25º/27º, sentia-me sem grande paciência de ficar horas na fila, debaixo de sol, para entrar na basílica de S. Pedro. Mas o meu namorado fincou o pé e disse que valeria a pena. Não gosto de admitir, mas o rapaz tem (quase) sempre razão e quando entrei na basílica, senti-me esmagada pela beleza daquele lugar e pela fé que ali se sentia. Eu, que não me considero crente, não consigo não me emocionar quando me vejo rodeada pela fé e esperança dos outros, é algo que me comove e me faz sentir que, independentemente do que cada um de nós acredita, estamos todos juntos nesta aventura e, por vezes angústia, que é a vida. Ora, na basílica existe uma espécie de sala à parte, que é uma parte da igreja dedicada à oração. Está separada por umas cortinas e se queremos entrar nesse espaço, devemos manter-nos em silêncio como sinal de respeito por quem está ali a orar. Assim que ultrapassei as cortinas e entrei naquele espaço, fui invadida por um silêncio aconchegante, oposto ao som, barulho e burburinho que se ouvia fora, na basílica. Sentei-me num dos bancos e olhei em meu redor, quando o vi e não fui capaz de desviar o olhar. Num outro banco, ajoelhado, estava um senhor, com as mãos coladas uma à outra, em posição de reza, a olhar fixamente o altar. Enquanto orava, compenetrado na figura sagrada, chorava e sorria em simultâneo. Senti-o em paz. Como se encontrasse ali um conforto e uma tranquilidade perdidas algures. Nunca mais me esqueci daquele rosto, daquele momento e daquela sensação. Tanta gente que ali estava, focada em se fotografar a si e ao espaço, e aquele senhor parecia alheio a tudo e ali estava ele, a orar, quem sabe a agradecer, quem sabe a falar com quem já cá não está, como se estivesse envolvido numa bolha impenetrável.

 

2. Concerto de Jazz

Muito escrevi sobre este momento aqui. E foi tão incrível, tão maravilhoso, tão intenso, tão inesquecível, que aquela hora e meia de concerto será sempre um dos momentos mais bonitos que vivi e testemunhei. Porque não me consigo esquecer daqueles músicos entregues a si mesmos, alheios ao público, focados apenas no seu instrumento e na melodia, a transpirar música e a entregarem-se como se a vida coubesse toda ali, naquele momento, naquele palco. Ouvir música é uma das experiências pela qual vale a pena viver, mas ter a oportunidade de ver a conceção da música é sublime. 

 

3. Concerto de gospel 

Mais um concerto, é verdade, e deixo já o disclaimer que não ficarei por aqui. Uma atmosfera completamente diferente da que vivi no concerto de Jazz, mas igualmente incrível. Escrevi também sobre este momento e torno a fazê-lo porque aquelas duas horas de concerto foram das mais alegres e divertidas que já vivi. Quando olhei para a sala onde estava só via todas as pessoas, de uma ponta da sala à outra, de pé, a dançar, a cantar bem alto, despidas de vergonhas e entregues à música. O grupo de gospel rendido ao público e o público rendido a eles. Foi um momento de união, como se cada alminha ali presente estivesse alinhada e unida pela alegria que é viver e que é celebrar a vida. No nosso quotidiano, creio que agimos todos em modo automático, porque as exigências são tantas que não há tempo para parar, respirar e apreciar onde estamos, com quem estamos ou até quem somos. Naquele momento, senti que estávamos todos presentes, a viver apenas aquele momento e, por isso, senti-me tão viva. 

 

4. Consolo de um coração partido

Sei que escrevo muitas vezes sobre a minha família e nem sempre são as palavras mais felizes e apaixonantes que lhes dedico. E também sei que, embora não sejamos mais aquela família de quatro, unida e pronta para o que der e vier, teremos sempre essas memórias de quando éramos felizes. Serão sempre nossas e uma das mais especiais, que me comoveu muitíssimo, foi quando vi o meu pai consolar a minha irmã, após esta sofrer o seu grande primeiro desgosto de amor. A nossa união era de tal forma que naquele dia não se partiu um só coração, mas sim quatro. E foi ternurento ver o meu pai abraçá-la, conforta-la com as palavras mais doces, ternas e sinceras, a assegurar-lhe de que era linda, especial, perfeita e que alguém iria dar-lhe todo o valor que ela possui. É que o meu pai, embora tenha falhado redondamente como marido, foi, é e será sempre um super pai. E aquela imagem deles os dois juntos será sempre comovente. 

 

5. Concerto de orquestra de música clássica

De cinco momentos, três deles são relativos a música, eu sei, é pouca variedade, mas não posso evitar que sejam estes os momentos mais felizes que já presenciei. Este último é o mais recente e foi uma autêntica catarse emocional para mim. Chorei desde a primeira nota tocada até à última. Encharquei a minha máscara, lavei a minha alma naquela hora e meia e tudo pela beleza e pela gratidão daquele momento. Observar uma orquestra a tocar é magistral e digno do adjetivo "perfeito". A sincronia, as melodias e harmonias, a forma como o todo abraça e se estende para além da soma das partes, a coordenação sentida e rigorosa do maestro, que vibra com cada corda, cada sopro e percussão. Olhava e escutava os músicos e sentia que era como estar a vislumbrar uma obra de arte em movimento e composição. As emoções não couberam dentro de mim, acabando por transbordar. Novamente, a sensação de estar viva, de me sentir maravilhada e grata, de estar sintonizada com aquele momento. 

31
Ago20

o teu dia

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Avó, hoje farias anos. Onde quer que estejas e passe o tempo que passar, hoje é e sempre será o teu dia.

Tenho saudades tuas. Já aceitei a tua perda, já a chorei e já a encaixei no meu coração. No entanto, nunca deixarei de ter saudades tuas. Far-me-ás sempre falta e o tempo vai passando e vou pensando em ti, em tudo aquilo que já vivemos desde que partiste, tudo aquilo que já se passou. É uma das coisas que mais me faz confusão na perda. Continuamos a viver, o mundo continua a girar, o tempo não para, mas tu já cá não estás. É estranho tudo prosseguir e avançar e tu não fazeres parte.
Hoje é o teu aniversário e gosto de te recordar por tudo o que foste em vida. E que grande vida, avó! Podia passar horas a ouvir-te falar dos teus tempos de miúda, de como era a vida nesses dias, dos momentos de adversidade e prova que atravessaste. Contavas-me essas histórias e eu, ouvindo-te, sentia que as tinha vivido. Imaginava como teriam sido os teus pais, que nunca conheci; que menina e jovem foste; como te apaixonaste; como deste à luz um mão de filhos; como sempre foste uma mulher de garra e coragem. Penso não existir nada que não fosses capaz de alcançar, avó. Pelo menos, sempre foi assim que olhei para ti. Como uma força inquebrável, uma lutadora que não se verga nem desiste face a nenhuma batalha até a guerra se dar por terminada.
Eras sempre mais dos outros do que de ti mesma. É uma característica que corre na nossa família, metade de nós nascemos para ser cuidadores e direcionar as nossas forças e empenhos para os outros. Tu eras assim. Passarias fome se isso assegurasse que os teus teriam comida na mesa. Abdicarias de todo e qualquer conforto por nós todos. E assim o fizeste, muitas vezes, repetidamente.
Sabes, avó, sinto uma pena imensa de te ter perdido tão cedo. Não deveria ter sido assim. Há conquistas, momentos bons e maus, em que eu precisava de ti, aqui, ao meu lado. Em que, acima de tudo, lamento tanto que não estejas cá para ver, sentir, experienciar. É como se faltasse sempre algo e falta. Faltas tu.
Hoje farias anos, avó. Eu telefonar-te-ia e até iria ao teu encontro para te dar um beijo e um abraço apertado. Lembraste daqueles abraços em que me apertavas com força e sentias como o meu corpo se transformava? Nos teus braços eu passei de menina a mulher e tu fazias questão de me dizer. Eu ria-me e dizia-te que tinha mais de ti do que poderias imaginar. Ficaríamos assim, num abraço, contigo a agradecer todo o amor e eu sem jeito e sem forma de te explicar que tu mereces o mundo. Porque mereces, avó. Sempre o mereceste. Deste-me sempre tudo. Se fui uma criança feliz, a ti também te devo. Se hoje sou quem sou, tu também és responsável.
Avó, avó ... quando partiste, as minhas palavras foram contigo. Não me lembro do que te escrevi, mas sei que o fiz com urgência, sei que precisava que levasses contigo tudo aquilo que não tive tempo de te dizer. Avó, conforta-me saber que quando partiste, não estavas só. Estavas rodeada de amor. Nesse dia, ainda antes de saber que tinhas partido, falei de ti. Quando me preparava para entrar em casa, soube, antes de saber, que já não estavas cá. Não encontro lógica para explicar esta sensação, nem me faz falta. Chama-lhe intuição, ligação, o que preferires. Eu soube, antes de saber, que já não estavas connosco. E, mesmo preparada para esse desfecho, doeu como se não existisse preparação alguma no mundo capaz de nos fortalecer para um momento assim.
Parece que foi ontem, parece que foi há muito tempo. As saudades, essas malditas, conserva-as o tempo. E comigo vive a promessa de que enquanto viveres dentro de mim, e sempre viverás, és eterna. Por isso, parabéns avó. 

27
Ago20

#13 Self-care Journal: Write a list of your top 10 most exciting moments in your life.

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Ando a procrastinar esta resposta, porque acho muito difícil escrever sobre os dez momentos mais entusiasmantes da minha vida. Por um lado, parece-me que não existe nada digno de entrar neste top 10, o que me faz sentir mesmo desinteressante. Por outro, acho que existem tantos momentos que já vivi com euforia e excitação que não sei como escolher apenas 10. Ando a arrastar esta lista, todos os dias tento acrescentar mais um momento que me marcou pela forma entusiástica como o vivi, mas confesso-vos que é um exercício exigente. Tentem fazer apenas este desafio dos 100 que são propostos e depois digam-me o que acharam. 

Ora bem, vamos lá falar dos dez momentos mais entusiasmantes da minha vidinha, que já conta com um quarto de século:

1. Quando me apaixonei pelo meu amor
Não foi um momento, é certo, foram vários. Apaixonei-me sem me aperceber, deixei-me levar e nunca esquecerei o dia em tomei consciência da dimensão dos meus sentimentos. Foi como se a terra estremecesse, mas apenas no metro quadrado que eu ocupava; somente eu senti os efeitos avassaladores daquela queda na realidade. Passou-se uma década e ainda sorrio quando ouço a For Once in My Life do Stevie Wonder. Naquele dia, com um sorriso do tamanho do mundo, foi isso mesmo que senti: for once in my life I have someone who needs me, (...) for once unafraid I can go where life leads me.

2. Sempre que viajamos juntos
Pensei referir a primeira vez que viajamos juntos, mas não seria justo, porque a verdade é que todas as viagens que fazemos, por muito curtas e singelas que sejam, têm entrada direta para o meu álbum de recordações favoritas de todo o sempre. Adoro quando nos perdemos num lugar novo, à descoberta, a absorver e partilhar tudo um com o outro. Quando éramos mais novos, sempre que embarcávamos numa viagem, eu sentia que te roubava do mundo e te tinha só para mim o tempo todo. Adoro descobrir tudo contigo, és e sempre serás o melhor companheiro de viagem. Mesmo nas viagens quotidianas para o trabalho e do trabalho para casa. Contigo, tudo é uma aventura. 

3. 10 de Julho de 2016 
Será sempre um dos momentos mais felizes que já vivi. Estava com os meus amigos, foi a euforia das euforias: Portugal sagra-se campeão europeu! Começamos todos aos saltos, aos abraços, saímos disparados para a rua festejar, a alegria não cabia dentro de nós. Foi daqueles momentos em que olhei em meu redor e senti que seria uma daquelas memórias épicas que irei contar aos meus (futuros) filhos. 

4. A faculdade
Eu sei que estou a ser a maior batoteira neste desafio, mas não consigo selecionar apenas um momento entusiasmante. Sobretudo no que diz respeito à minha experiência universitária. Não fiz parte da praxe, não fui a festas académicas, não tive a experiência que é habitualmente associada à faculdade. Mas fui imensamente feliz nos anos em que lá andei. Foi a oportunidade de viver sozinha pela primeira vez, a responsabilidade de estar por minha conta e ter, pela primeira vez, a liberdade de fazer as coisas à minha maneira; foi ter escolhido a área certa, mesmo tendo sido uma escolha completamente às cegas; foram os amigos que lá fiz, a família que construí e que trago comigo para toda a vida; foi, acima de tudo, a sensação de estar no sítio certo, no lugar onde pertencia. Foram anos de desafios, de aprendizagens, de sentir que o esforço e empenho, a somar à paixão, se refletiam nos resultados obtidos. Cresci muito naqueles cinco anos, conheci pessoas incríveis que me inspiraram a ser não só uma boa profissional, mas uma melhor pessoa. 

5. O dia em que passei no exame de condução
Eu fui para o exame de condução com a certeza de que iria chumbar. Era um dado adquirido. Apenas tinha um objetivo: não chumbar de imediato no centro de exames, ao deixar o carro ir abaixo três vezes seguidas. Eu estava tão certa que ia falhar, que acabei por passar. Lembro-me de que a certeza do falhanço me libertou do medo de realmente falhar. Então, como estava sem esse peso, aproveitei o momento e desfrutei, conduzi com prazer e gosto. Nesse dia percebi como o medo de falhar pode paralisar uma pessoa e a falta dele permite que o verdadeiro potencial se evidencie. Porque eu fui convicta de que era um chumbo imediato, o meu colega foi convencido que ia ensinar o engenheiro a conduzir. Ele estava nervoso porque sabia que tinha de fazer boa figura, tinha de fazer uma figura que correspondesse ao que realmente ele sabia conduzir. Já eu, que sabia que era péssima (ou achava que era), convenci-me de que já estava derrotada e vencida, não tinha nada a provar. Quando percebi que tinha passado, sem erros graves e perigosos, fiquei em êxtase. E acreditei, pela primeira vez, na sorte. Porque ainda demorei muito tempo a acreditar que não fora apenas sorte, mas também alguma competência da minha parte.

6. Concerto de Jazz com a minha mãe

Este aconteceu no ano passado, em pleno inverno, numa das salas de teatro mais bonitas do nosso país. Como companhia levei a minha mãe, que ia cheia de medo de achar o concerto entediante e ter de o suportar até ao fim. Eu ia com a certeza de que seria incrível e saí de lá dececionada, porque o concerto conseguiu ser ainda mais magnífico do que eu já suspeitava que seria. Quando me lembro daquele momento, arrepio-me pela forma como a minha memória se mantém intacta, preservando todas as emoções e sensações que experienciei. Foi um daqueles momentos na vida em que nos sentimos tão vivos e, simultaneamente, tão gratos por cá estarmos e podermos usufruir de algo tão belo como é a música. Além disso, foi um momento que partilhei com a minha mãe e fez-me tão feliz vê-la a desfrutar e a maravilhar-se. Foi uma felicidade multiplicada, que tornou tudo ainda mais perfeito.

7. A última grande viagem em família

Sim, fiquei doente, arrestei-me durante dias para acompanhar os meus pais e a minha irmã, mas foi a nossa última grande viagem enquanto família de quatro. Foi aquela viagem em que usufruímos sem olhar a nada, em que fomos só nós numa cidade completamente desconhecida e fomos nós mesmos, com tudo que isso inclui. Rimo-nos, vimos um dos espetáculos mais incríveis de sempre, passeamos, mimamo-nos. Na altura já me tinha parecido bom, mas agora ao olhar para trás ainda consigo dar mais valor àqueles dias que passamos os quatro. Depois dessas férias fizemos outras, mas nenhuma foi tão especial como essa. 

8. As noites passadas na casa da minha avó

Por mais lugares que descubra, concertos que assista e experiências que viva, vai sempre existir um cantinho especial, ao estilo catedrático, para as noites em que dormia na casa da minha avó. Eu sentia um entusiasmo tão grande sempre que me era permitido ir dormir com a minha avó, que cada vez que ia me sabia à primeira, mesmo já tendo ido centenas de vezes. Sentia-me sempre tão feliz de saber que ia dormir naquela cama gigante, quentinha, com a minha avó a abraçar-me; que ia comer a melhor das melhores das refeições, aquele bife tenrinho, cheio de batatas fritas e ovo estrelado por cima; que ia ver desenhos animados uns atrás dos outros, apenas sendo interrompida para lanchar aquelas torradinhas barradas a manteiga e o leite achocolatado, que era mais chocolate que leite; que ia tomar longos banhos de espuma; que ia acordar naquele quarto tão acolhedor e familiar, o da minha avó. Não, não há experiência que apague este entusiasmo inocente e infantil que eu sentia sempre que estava na casa da minha avó.  

9. Os passeios de canoa com a minha irmã e o meu pai

Era tão divertido enfiar-me numa canoa com o meu pai e a minha irmã, determinados a desbravar o rio e chegar o mais longe possível. A natureza, as gargalhadas, o cansaço do meu pai que, a dado momento, já remava pelos três, o encostar da canoa em terra para descansar e usufruir das praias desertas, o sol a queimar a pele com o contraste da água fresca e fria. Com o tempo fomos deixando de fazer coisas em conjunto e de passarmos tempo juntos. Apareceram os namorados e amigos, a escola, a falta de tempo e a distância acabou por se impor. Mas tenho saudades destes planos aventureiros que fazíamos. 

10. O Natal

Para fechar em grande, só poderia escrever acerca do Natal. Não de um em específico, mas de todos, os passados e aqueles que o futuro me reservar. O Natal é a minha época favorita do ano, é sinónimo de casa cheia, de partilha, de amor, de convívio, de contrastar o frio das rua com o calor da casa quente e acolhedora. Mesmo com a família desmembrada, o Natal não perde a sua magia e eu pareço sempre uma criança pequena, maravilhada com tudo. 

19
Ago20

vulnerabilidade

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“Vulnerability is the birthplace of love, belonging, joy, courage, empathy, and creativity. It is the source of hope, empathy, accountability, and authenticity. If we want greater clarity in our purpose or deeper and more meaningful spiritual lives, vulnerability is the path.” - Brené Brown

A meditação de hoje foi sobre vulnerabilidade como forma de autocuidado. Ser vulnerável é uma das missões impossíveis na minha vida. Sabem aquele conjunto de crenças parvas que carregam convosco, mesmo tendo a perfeita noção de que não vos servem de forma alguma, apenas vos pesam? É como eu me sinto em relação a ser vulnerável. Não me permito sê-lo, embora conviva com conforto e tranquilidade com a vulnerabilidade dos outros. Faz algum sentido? Eu sei: nenhum

Com esta meditação, fui levada a refletir acerca do significado que atribuo a ser vulnerável e o que me impede de o ser. O que procuro evitar quando escondo dos outros as minhas angústias, ansiedades e medos? O que diz isso acerca de mim?

Para mim, ser vulnerável é sermos capazes de dizer, sem medos, o que vai dentro de nós, sobretudo quando são coisas menos boas ou difíceis. É uma nudez emocional, é sermos quem somos por inteiro, sem recear o que os outros vão pensar ou se vão gostar de nós. É abrir as portas da nossa alma e convidar os outros a conhecer os nossos recônditos, sobretudo os mais obscuros. É ser visto e estar confortável debaixo da luz dessa atenção. É assumir que não somos perfeitos e inquebráveis. Um assumir que não é lógico, porque cognitivamente todos sabemos que não somos perfeitos; mas emocionalmente, nem sempre compreendemos que essa perfeição é impossível. Digo, muitas vezes, que o meu coração e a minha cabeça tem de andar a ritmos semelhantes para as coisas me fazerem sentido. O que entendo com a mente, nem sempre aceito no coração. 

Então, porque me custa tanto deixar-me ser vista pelos outros? Acho que não me sinto confortável com a atenção. Não gosto de ser notada, nunca gostei. Sempre me senti muito envergonhada quando, de repente, os olhos se voltam para mim e todos esperam algo de mim. Mas acho que também receio mostrar-me ao mundo, tal como sou, e a reação ser negativa. Tenho medo de não ser aceite pelo que sou, embora saiba que ser aceite por algo que não sou não tem qualquer valor. É como se o meu núcleo central fosse tão precioso para mim, tão frágil, que tenho receio do que possa acontecer se o trouxer à luz para todos verem. 

Ser vulnerável implica ser capaz de pedir ajuda quando precisamos. Não é uma questão de "se precisarmos", é mesmo "quando", porque todos precisamos uns dos outros, nem que seja num momento da nossa vida. Nem sempre tive dificuldade em desabafar, até era algo que quando era mais nova fazia sem esforço. Mas à medida que fui crescendo, as defesas e resistências foram crescendo, comecei a sentir que não valia a pena estar a partilhar as minhas coisas com o mundo. Para quê? Vou chatear alguém e vou chatear-me a mim mesma, por ter de estar a repetir o que já sei. Mas depois, quando, esporadicamente, o faço com alguém próximo, parece que não sei falar, porque não falo, despejo informação. Começando a falar, não consigo parar a torrente de emoções e pensamentos e ideias que tenho. Nesses momentos, apercebo-me que tenho mais necessidade de me abrir com os outros do que quero assumir. Acima de tudo, tomo consciência do bem e da falta que tal me faz.

Olho para a minha situação familiar. Estamos a viver este drama há dois anos. Sabem a quantas pessoas fui capaz de contar o que se passa na minha vida? Apenas a uma. O meu namorado não conta, porque não precisei de lhe dizer nada, ele esteve sempre lá, desde o começo, assistiu a tudo sem precisar que eu o pusesse a par de alguma coisa. Apenas fui capaz de contar a minha história a uma pessoa. Não tenho mais pessoas na minha vida confiáveis, com quem poderia partilhar? Tenho. Lembro-me, de imediato, de mais três ou quatro pessoas a quem gostaria de contar. Mas não o consigo fazer. Não consigo correr o risco. Como é que começaria? E porquê agora? Passados dois anos? Como é que lidaria com a sua abordagem ao meu problema? Sinto vergonha. Uma vergonha que me paraliza, que me faz querer esconder e não ser vista. Para mim, a dificuldade de ser vulnerável é mesmo essa: ser vista. 

Mas o que temo que os outros vejam? Porque é que é tão fácil para mim ajudar alguém, mas tão difícil pedir ajuda quando sou eu que estou a necessitar? Porque é que eu sei que ser vulnerável não tem nada a ver com ser fraco mas, quando penso sê-lo, sinto-o como fraqueza? Porque é que tenho tanto receio de me mostrar ao mundo, mas gosto tanto quando vejo outras pessoas fazê-lo, sem amarras? 

Sei que perco muito quando me fecho na minha prisão interior. A vulnerabilidade é o caminho. É a irmã gémea da autenticidade e da verdade. Lembro-me muitas vezes de um episódio sobre o qual já escrevi, em que desabei num choro incontrolável, num grupo que esperava ouvir a minha resposta. Aquele dia, em que nenhuma defesa estava activa, foi o dia chave para fechar o luto da minha avó. Só foi possível concluir esse capítulo e integrar essa experiência quando libertei com a carga emocional que trazia comigo. Porque os significados, as reformulações, os pensamentos já estavam todos alinhados, mas faltava-me a expressão emocional. Em palavras simples: faltava-me chorar e sentir aquela dor toda. Aquele momento de vulnerabilidade, ainda hoje quando penso nele, me arrepia. Não era eu ali e, ao mesmo tempo, estava ali tudo que sou. Só ganhei com aquela experiência e, mesmo assim, não consegui ainda ser capaz de tornar a repetir. 

É por isso que esta é a minha missão impossível. Não é impossível, na verdade, mas é a minha missão. É o meu desafio. E mexe com muitas outras variáveis que só começo agora a conhecer e combinar. Mas o caminho é por aqui. 

19
Ago20

Apesar de tudo ...

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Ontem, quando já tinha desligado a luz e me preparava para adormecer, recebi uma mensagem do meu pai a desejar-me boa noite. Todas as noites, desde que saiu oficialmente de casa, me envia uma mensagem de boas noites, com direito a coração. E todas as noites eu olho para aquela mensagem e penso "apesar de tudo ...". 

Apesar de não sermos mais a família que eu tanto adorava e que desejaria que para sempre fossemos, continuo a ter o amor incondicional e presente dos meus pais. Cada um deles, à sua maneira, continua a ser uma fonte de amor, segurança e conforto. Perdi uma família, mas não perdi os meus pais. Eles, sobretudo a minha mãe, perderam muito mais do que eu. Eu perdi uma estrutura e uma configuração, mas permaneceram os laços, o amor continua ali, disponível para mim. 

Apesar de não vivermos juntos, continuo a ver o meu pai todos os dias. Ele faz questão de me ligar de manhã a desejar um bom dia e todas as noites me embala com uma mensagem. Talvez até o sinta mais presente agora do que quando morávamos debaixo do mesmo tecto e praticávamos horários e rotinas tão diferentes que, muitas vezes, só o ouvia chegar e isso era tudo que sabia dele. 

Apesar de tudo o que nos aconteceu, sobrevivemos e estamos a começar a aprender a viver. Percebemos que nos momentos difíceis, as pessoas fogem-nos. Se há coisa que esta experiência me ensinou foi que as pessoas têm muita dificuldade em lidar com as dores alheias. Talvez por não saberem o que dizer e como agir, optam por se afastar, acreditando que as coisas, com o seu tempo, encontrarão o seu rumo. É verdade, o tempo ajuda a sarar algumas feridas, mas há muito trabalho que temos de ser nós mesmos a fazer. Por vezes, fraquejámos e precisamos que alguém nos incentive a regressar ao caminho. Ainda não entenderam que, muitas vezes, não queremos respostas para as questões que levantamos. Apenas queremos que nos ouçam e entendam a inquietação que se esconde nas entrelinhas das nossas perguntas retóricas. É nestes momentos que conhecemos as pessoas com quem podemos contar. Percebi que estávamos muito sozinhos, mas que, na verdade, não são precisos muitos, desde que os poucos sejam bons. 

Apesar de tudo, e de esta situação nunca ser desejada, podemos ser felizes. Apesar de tudo que nos foi roubado, há tanto que ainda temos. 

18
Ago20

#9 Self-care Journal: If you could act in any movie, what character would you like to play and why?

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Celine do Before Sunrise (e também Before Sunset e Before Midnight)

When you talked earlier about after a few years how a couple would begin to hate each other by anticipating their reactions or getting tired of their mannerisms-I think it would be the opposite for me. I think I can really fall in love when I know everything about someone-the way he's going to part his hair, which shirt he's going to wear that day, knowing the exact story he'd tell in a given situation. I'm sure that's when I know I'm really in love.

Esta trilogia - Before Sunrise, Before Sunset e Before Midnight - está no meu pedestal de melhores filmes de sempre, ocupando um lugar generoso no meu coração. Assim que li a pergunta, soube de imediato que gostaria de estar no papel de Celine. Não no sentido de representar este papel, mas de o experienciar verdadeiramente. Adoraria viver uma aventura como Celine e Jesse que, sendo perfeitos desconhecidos, decidem ir explorar Viena juntos até o próximo comboio do dia seguinte os levar a destinos diferentes. Adoraria perder-me pelas ruas de Viena e perder-me, de igual modo, na viagem que é conhecer alguém do qual não sabemos rigorosamente nada e, ainda assim, ficar a conhece-lo melhor do que tanta gente que faz parte da sua vida há tanto tempo. Adoraria correr riscos e aventurar-me mais vezes, dar mais saltos de fé no vazio, sem pensar tanto nas consequências. Adoraria perder-me em conversas como Celine e Jesse, acerca da vida, do amor, da morte, dos sonhos e das desilusões. Adoraria ter tempo para poder fazer tudo isto, sem pressas. Adoraria parar mais vezes e olhar com mais atenção para tudo que me rodeia. 

If there's any kind of magic in this world... it must be in the attempt of understanding someone, sharing something. I know it's almost impossible to succeed... but who cares, really? The answer must be in the attempt.

14
Ago20

#5 Self-care Journal: 10 beauty self-care ideas to try

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As minhas ideias de beleza e autocuidado são muito básicas e assentam numa premissa simples: cuidar do interior é também uma forma de cuidar do exterior. Por isso, seguem as dicas que pratico no meu quotidiano, alternando entre a camada externa e interna:

1. Beber água

É um desafio para pessoas que, como eu, podem passar um dia inteiro sem sentir sede. O truque (que funciona comigo) é ter sempre uma garrafa de água e ir bebendo ao longo do dia, em quantidades menores, mesmo que o corpo não manifeste grande vontade. O foco é estabelecer um objetivo de x litros por dia e orientar forças para a concretização desse mesmo objetivo. O meu são os 2L diários e tenho-me superado!

2. Hidratação

Além da hidratação via ingestão aquosa (ver dica 1), é importante cuidar da pele (e também cabelo). Para mim, que sou uma preguiçosa no que diz respeito a estas coisas, aplicar creme hidratante todos os dias é um feito. O meu mindset passou a ser o seguinte: uma ação só se torna um hábito depois de ser praticada n vezes. Por isso, comecei a aplicar creme diariamente, a aproveitar esse momento para descontrair, e o que era um frete passou a ser um hábito que faço com todo o gosto. Além disso, tem o plus de que a pele fica super fofinha e a cheirar maravilhosamente bem!

3. Exercitar o corpo

Movimento, o nosso corpo precisa de movimento! Nós fomos feitos para nos movermos! Mas quando se tem um emprego em que as oito horas são passadas sentadas em frente a um computador, pode tornar-se um bocado difícil nos movermos a toda a hora. Para algumas pessoas, o gosto pelo desporto é inato e sentem-se verdadeiramente felizes quando estão a sofrer entre pranchas e halteres. Para outras, o exercício físico é um tormento. No entanto, tenho a minha teoria: todos nós gostamos de exercício, só temos de descobrir qual é o ideal para nós. Depois de descobrirmos o que nos faz sentir ativos e vivos, rapidamente se torna em algo prazeroso! Até porque, vamos lá admitir, não há muitas sensações que saibam tão bem como chegar ao final de um treino, com a sensação de dever cumprido certo? Eu adoro caminhadas, cardio, dança, localizada. Gosto, acima de tudo, de estabelecer objetivos e de me superar. Ter um corpo tonificado e saudável são os bónus! 

4. Dormir

O sono é a melhor meditação de todas as meditações, já dizia Dalai Lama, e é a mais pura das verdades. Dormir bem é reparador, não só para o corpo como para a mente. O nosso cérebro precisa do sono para fazer a triagem da informação recebida durante o dia, selecionando a que fica guardada daquela que vai direta para a reciclagem. Sei que no nosso quotidiano o tempo é algo que nos foge das mãos e, por isso, tentamos aproveitar todos os segundos e consideramos que parar é morrer, que dormir é um desperdício de tempo. Mas não é verdade, dormir é uma condição essencial para estarmos a 100% para aproveitar a vida. Poucas coisas sabem tão bem como dormir uma noite inteira, sem despertares, profundamente!

5. Alimentação saudável

Eu não vos disse que as minhas dicas eram do mais básico que poderia existir? Isto são apenas verdades de La Palice! No entanto, nunca é demais reforçar que o nosso corpo é a nossa casa, é o nosso templo sagrado e, como tal, temos de cuidar dele da melhor forma possível. É preciso nutrir o nosso corpo com alimentos do bem, ricos em nutrientes, que nos permitam ter energia e vitalidade para usufruir da nossa estadia nesta vida maravilhosa. Claro que há espaço para o chocolatinho maroto, para a francesinha mensal, há espaço para tudo, desde que a palavra-chave seja equilíbrio! 

6. Respirar conscientemente

Aprender a respirar bem é uma ferramenta importantíssima, que todos devíamos ter na nossa caixa de pronto socorro da vida. Respirar profundamente, sem pressas, permitindo ao corpo absorver o ar puro e libertar o tóxico liberta-nos a mente e tranquiliza-nos o corpo. Parar ao longo do dia para verificar como está a nossa respiração e perder uns segundos a fazer três a cinco respirações conscientes é das melhores formas que temos para expressar ao nosso corpo e à nossa mente de que está tudo bem, está tudo tranquilo. Muitas vezes, no trabalho, quando vou à casa de banho, fico um bocadinho a respirar fundo. Inspiro lentamente, sentindo o ar chegar a cada ponto do meu corpo e depois expiro, de forma controlada e longa, de forma a que o ar vá saindo aos poucos, como se o meu corpo estivesse a esvaziar. Aparentemente nada se altera, mas por dentro sinto-me plena e confortada.

7. Expressão emocional

Rir, chorar, soltar um suspiro, um grito se for necessário. Expressem-se pela vossa saúde. As emoções existem para nos guiar, são indicadores do nosso estado mental e precisam de ser ouvidas e libertadas. Aceitar o que estamos a sentir, neste instante, é o truque para que a emoção, seja ela qual for, seja experienciada e passe. Sim, as emoções são transitórias quando as aceitamos e lhes damos espaço para se libertarem. Afinal, qual é a pior coisa que pode acontecer? O pior advém, acreditem, quando não o fazemos. 

8. Sorrir :)

Faço parte do grupo de gente que acredita que a sorrir tudo se torna melhor. Sorrir ilumina-nos e ilumina os que estão ao nosso redor. Mesmo nos dias difíceis, um sorriso tem a capacidade de apaziguar a dor e, biologicamente falando, quando sorrimos transmitimos ao nosso cérebro a mensagem de que está tudo bem. Por isso, sorriam sempre e sorriam muito :)

9. Desfrutar da vida

Não se levem a sério, aproveitem a vida ao máximo, mesmo nas coisas mais simples e singelas. Estejam abertos à experiência e não tenham medo de correr riscos. Eu escrevo-vos isto e escrevo-o para mim também, que vivo sempre com o modo medo ativado. Cantem a caminho do trabalho, dancem no quarto, façam coisas que elevem o vosso espírito para cima, que vos preencham o coração. Para mim, ler um bom livro, ver aqueles filmes clássicos que já vi mil vezes mas que mesmo assim me encantam sempre (sim Dirty Dancing, estou-me a referir a ti!), jogar uno com a minha família, ouvir música bem alto e dançar sem vergonhas, escrever,  beber uma boa chávena de chá, são tudo coisas que me fazem sentir bem. Descubram o que vos faz bem e façam-no! 

10. Agradecer

Por último, mas não menos importante, agradeçam. Agradeçam o simples facto de estarem vivos, de respirarem, de cá estarem. Agradeçam, mesmo pelas adversidades que a vida trouxer, porque não há crescimento nem transformação sem dor, a vida é mesmo assim, uma constante e incessante procura pelo equilíbrio. Pensem no milagre que é o funcionamento do nosso planeta, do nosso corpo, na riqueza que existe neste mundo e sintam-se gratos por terem a oportunidade, ainda que vã, de poderem usufruir desta magia. Quando agradecemos pelo que temos, mesmo que não pareça ser muito, o pouco transforma-se em riqueza. 

13
Ago20

#4 Self-care Journal: Imagine you're on a relaxing walk on a perfect warm day and describe every detail.

girl

Era o aniversário da minha mãe e o universo decidiu oferecer-lhe como prenda um dia solarengo maravilhoso. Soube que seria um dia bom assim que os raios de sol me despertaram, entrando pelas frinchas teimosas das velhas persianas. Estava decidido: aquele sol não seria desperdiçado. 

Chegamos à praia mais rápido do que a velocidade da luz. Mas não iríamos fazer praia. Não, os nossos planos eram outros. Percorreríamos um dos trilhos mais bonitos que alguma vez conheci, onde o oceano e a terra se abraçam e nunca mais se largam. Naquele dia, éramos um trio de exploradores: eu, a minha mãe e o mar. 

Iniciamos o nosso percurso e foram as flores que captaram a minha atenção. Numa subida particularmente exigente, a minha atenção era toda dirigida às flores que nos cercavam. Amarelas, laranjas, violetas. Acabadinhas de acordar, não fosse primavera! Para onde quer que os meus olhos se dirigissem, apenas via rasgos de cor. A minha mãe olhava para o mesmo cenário e sentia o mesmo encanto. Quando nos apercebemos, já estávamos no topo da colina e o caminho até lá chegar fora passado a admirar o arco-irís em terra. 

Seguimos a direito, numa zona alta, onde se situam diversos moinhos e, mais adiante, um farol. Ao nosso lado, sempre o mar, tranquilo e apaziguante. Os cristais brilhantes provocados pelo reflexo do sol na água será sempre uma das coisas maravilhosas da vida. Continuamos a caminhar, entre conversas de mãe e filha, conversas que aproximam e aquecem, quando chegamos a um desfiladeiro. Descendo, a sentir o sol queimar a pele e a brisa marítima a empurrar o corpo, fomos ter a uma praia. 

A minha mãe, apaixonada pelo areal, quis continuar a caminhada com os pés bem assentes na areia. Fiz-lhe a vontade (afinal, o dia era seu!) e caminhamos, sem destino, pela praia, à descoberta. Não sei quanto a vocês, mas sempre que piso a areia e ouço o mar, sinto uma paz que me domina. É um local sagrado. Os meus olhos percorrem atentamente o areal em busca de conchas e búzios, completamente maravilhados com a arte da natureza. 

De repente, abre-se um caminho diante de nós. Parece-nos convidativo e optamos por abandonar a praia e seguir aquele trilho. O som das ondas torna-se cada vez mais distante à medida que entramos na floresta. As árvores, altas e esguias, protegem-nos do calor do sol. A sua elegância e porte fascina-me. Afinal, as árvores morrem de pé. Não haverá, creio, nada mais digno. A sombra por elas provocada permite-nos refrescar. Naquele paraíso verde, ouvimos os pássaros em melodias entre-cruzadas. Respiro fundo e o ar parece mais puro e fresco. Torno a sentir-me em paz. Uma tranquilidade que só a natureza é capaz de proporcionar. Um conforto que cheira e sabe a casa. Um lugar de pertença. 

No meio da floresta, ouve-se um riacho a correr. Parece uma cena mística e mágica, retirada de um livro de contos. Olho para a minha mãe e sorrio. Ela está tão maravilhada quanto eu. Está feliz. Estamos em sintonia. Sei e sinto que aquela caminhada foi o melhor presente que lhe poderia ter oferecido. Um pedaço de natureza e paz podem saber pela vida quando tudo nos parece poluído e tóxico. 

O sol torna a romper, entre as copas das árvores, e começo a avistar o fim do nosso trilho. Não sou a mesma que era no seu começo. Algures entre o mar e a terra, entre as flores e as árvores, deixei angústias, dores e anseios. Sinto-me viva, renascida, plena. E, ao ver o sorriso da minha mãe, sinto-me feliz e grata.