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the old soul girl

the old soul girl

19
Ago20

Apesar de tudo ...

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Ontem, quando já tinha desligado a luz e me preparava para adormecer, recebi uma mensagem do meu pai a desejar-me boa noite. Todas as noites, desde que saiu oficialmente de casa, me envia uma mensagem de boas noites, com direito a coração. E todas as noites eu olho para aquela mensagem e penso "apesar de tudo ...". 

Apesar de não sermos mais a família que eu tanto adorava e que desejaria que para sempre fossemos, continuo a ter o amor incondicional e presente dos meus pais. Cada um deles, à sua maneira, continua a ser uma fonte de amor, segurança e conforto. Perdi uma família, mas não perdi os meus pais. Eles, sobretudo a minha mãe, perderam muito mais do que eu. Eu perdi uma estrutura e uma configuração, mas permaneceram os laços, o amor continua ali, disponível para mim. 

Apesar de não vivermos juntos, continuo a ver o meu pai todos os dias. Ele faz questão de me ligar de manhã a desejar um bom dia e todas as noites me embala com uma mensagem. Talvez até o sinta mais presente agora do que quando morávamos debaixo do mesmo tecto e praticávamos horários e rotinas tão diferentes que, muitas vezes, só o ouvia chegar e isso era tudo que sabia dele. 

Apesar de tudo o que nos aconteceu, sobrevivemos e estamos a começar a aprender a viver. Percebemos que nos momentos difíceis, as pessoas fogem-nos. Se há coisa que esta experiência me ensinou foi que as pessoas têm muita dificuldade em lidar com as dores alheias. Talvez por não saberem o que dizer e como agir, optam por se afastar, acreditando que as coisas, com o seu tempo, encontrarão o seu rumo. É verdade, o tempo ajuda a sarar algumas feridas, mas há muito trabalho que temos de ser nós mesmos a fazer. Por vezes, fraquejámos e precisamos que alguém nos incentive a regressar ao caminho. Ainda não entenderam que, muitas vezes, não queremos respostas para as questões que levantamos. Apenas queremos que nos ouçam e entendam a inquietação que se esconde nas entrelinhas das nossas perguntas retóricas. É nestes momentos que conhecemos as pessoas com quem podemos contar. Percebi que estávamos muito sozinhos, mas que, na verdade, não são precisos muitos, desde que os poucos sejam bons. 

Apesar de tudo, e de esta situação nunca ser desejada, podemos ser felizes. Apesar de tudo que nos foi roubado, há tanto que ainda temos. 

18
Ago20

#9 Self-care Journal: If you could act in any movie, what character would you like to play and why?

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Celine do Before Sunrise (e também Before Sunset e Before Midnight)

When you talked earlier about after a few years how a couple would begin to hate each other by anticipating their reactions or getting tired of their mannerisms-I think it would be the opposite for me. I think I can really fall in love when I know everything about someone-the way he's going to part his hair, which shirt he's going to wear that day, knowing the exact story he'd tell in a given situation. I'm sure that's when I know I'm really in love.

Esta trilogia - Before Sunrise, Before Sunset e Before Midnight - está no meu pedestal de melhores filmes de sempre, ocupando um lugar generoso no meu coração. Assim que li a pergunta, soube de imediato que gostaria de estar no papel de Celine. Não no sentido de representar este papel, mas de o experienciar verdadeiramente. Adoraria viver uma aventura como Celine e Jesse que, sendo perfeitos desconhecidos, decidem ir explorar Viena juntos até o próximo comboio do dia seguinte os levar a destinos diferentes. Adoraria perder-me pelas ruas de Viena e perder-me, de igual modo, na viagem que é conhecer alguém do qual não sabemos rigorosamente nada e, ainda assim, ficar a conhece-lo melhor do que tanta gente que faz parte da sua vida há tanto tempo. Adoraria correr riscos e aventurar-me mais vezes, dar mais saltos de fé no vazio, sem pensar tanto nas consequências. Adoraria perder-me em conversas como Celine e Jesse, acerca da vida, do amor, da morte, dos sonhos e das desilusões. Adoraria ter tempo para poder fazer tudo isto, sem pressas. Adoraria parar mais vezes e olhar com mais atenção para tudo que me rodeia. 

If there's any kind of magic in this world... it must be in the attempt of understanding someone, sharing something. I know it's almost impossible to succeed... but who cares, really? The answer must be in the attempt.

29
Jul20

surrender

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No dia em que me ligaram a confirmar a minha disponibilidade para o novo desafio que me tinha sido proposto, eu tinha acabado de fazer uma meditação guiada da Sarah Blondin, chamada Learning to Surrender.

Antes de avançar, quero apenas dizer-vos que a Sarah é, provavelmente, das melhores "professoras" de meditação que poderão encontrar. Todas as meditações dela são mágicas, a Sarah tem uma presença que emana tranquilidade e paz. Por isso, fica aqui o meu conselho para a irem pesquisar no Insight Timer, estou certa de que não se arrependerão. 

Retomando. Learning to Surrender. Surrender pode ser traduzido como rendição, entrega. Para mim, como tenho vindo a escrever, a capacidade de entrega, de deixar fluir, é uma aprendizagem contínua, porque toca na minha maior necessidade, que é a de controlo. Controlo e entrega não são compatíveis. Do mesmo modo que controlo e vida também não o são. Na verdade, há pouquíssimas, raras coisas que podemos controlar nesta nossa existência. Podemos controlar os nossos pensamentos (ou, pelo menos, a influência que estes têm sobre nós), os nossos comportamentos e emoções. Podemos controlar a forma como reagimos ao que nos acontece, mas nunca seremos capaz de controlar o que nos acontece. As alegrias e infelicidades da vida não são, muitas vezes, selecionadas por nós. Apenas nos resta ser capazes de lidar com elas da melhor forma possível, do modo que temos disponível naquele momento para enfrentar aquela situação. 

Hoje é o segundo aniversário da morte da minha família como sempre a conheci. Da família onde cresci, onde fui e fomos imensamente felizes. Não escolhi este desfecho, simplesmente aconteceu. Veio bater-me à porta, com uma força e urgência de quem não pede permissão para entrar. Gosto de pensar que tudo o que nos acontece tem o poder de nos transformar. Que tudo pode ser um presente. Mesmo que não venha embrulhado num papel colorido e seja apetecível. Na verdade, há oportunidades únicas de mudança que nunca olharemos como positivas, mas saberemos sempre que foram necessárias para o nosso crescimento. Esta é uma delas. Dificilmente olharei para este acontecimento como positivo, mas consigo extrair dele valiosas aprendizagens. Uma delas é precisamente sobre ser capaz de me render à vida. Aceitar tudo - o bom e o mau - resistindo cada vez menos à mudança. 

Quando me telefonaram, tinha acabado de ouvir a Sarah a dizer que entrega não é o mesmo que desistência. Não é algo passivo. Entrega é sermos capazes de fluir com a vida, de a seguirmos como a água segue o curso natural do rio, que segue o seu caminho ao oceano, fundindo-se num só. É sobre desconstruir resistências, porque tudo aquilo ao qual resistimos, apenas persistirá, como Jung nos ensinou. É sobre compreender, com a mente e o coração, de que o controlo é uma ilusão, de que quando deixamos de ter essa necessidade, podemos estar abertos, curiosos e disponíveis para todas as oportunidades que a vida tem para nós. A meditação acabou, eu ainda estava enfeitiçada por estas palavras mágicas, quando o telefone tocou e me fizeram a proposta oficial. Eu sei que ultimamente tenho falado muito acerca de sinais, mas naquele momento, não fui capaz de ignorar a mensagem. Quando nos propomos a abraçar a vida, com tudo que esta tem para nos oferecer, as coisas simplesmente acontecem. No meu caso, tive esta prenda, mas não me enganei, este é um presente que traz consigo uma dose enorme de desafio e crescimento, como vos tenho contado. Deixou-me muito feliz, mas rapidamente percebi que ia estremecer com todas as minhas inseguranças e defesas. A vida não tira sem nos dar nada em retorno, do mesmo modo que não nos dá, sem nos tirar algo também. É um fluxo contínuo, que não podemos contrariar. 

Por isso, escolho olhar para o dia de hoje como uma oportunidade de recomeço. De renovar pensamentos, de me desfazer de crenças e medos que não me acrescentam, apenas consomem. Somos responsáveis pela nossa vida e, como tal, pela nossa felicidade. Que nos esqueçamos de que somos detentores desse poder e, como tal, dessa responsabilidade. 

28
Jul20

trust

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Os sinais existem e estão presentes, basta estarmos atentos e, talvez o mais importante, estarmos recetivos. Hoje entro no meu computador de trabalho, iniciando sessão e abrindo o google chrome, que me recebe sempre com uma frase inspiradora para começar o dia em pleno. A frase que me abraçou hoje foi a seguinte:

Unless you try to do something beyond what you have already mastered you will never grow. - Ralph Waldo Emerson 

Esta citação resume na perfeição a fase que estou a viver. Estou perante um processo de aprendizagem enorme, que me está a desafiar a todos os níveis. Está a mexer com todos os meus medos e receios, com todas as minhas forças e fragilidades. Tenho momentos de confiança e, a seguir, começo a sentir o medo a espreitar, a aproximar-se e a sussurar-me ao ouvido "será que és mesmo capaz?". Sinto o entusiasmo, a adrenalina de me dedicar a algo que me enche tanto o coração e me faz sentir tão viva, mas, ao mesmo tempo, os velhos receios e os pensamentos negativos explodem diante de mim. Quero focar-me apenas no lado positivo, mas não existe luz sem sombra; esta experiência é um todo e, como tal, é também constituída por momentos de angústia no meio de tantos momentos de alegria e euforia. 

Olho para dentro de mim e vejo dois caminhos. Vejo o velho e conhecido caminho, aquele que me faz sentir segura, mas frustrada; que é reto, plano e não requer grande energia da minha parte para ser percorrido (porque, de tão velho que é, conheço-lhe cada milímetro e percorro-o de olhos fechados). E depois vejo um outro, que não está sequer finalizado, que brilha com muita intensidade, com tanta luz, que me ofusca e faz sentir tonta e desnorteada. É tentador, mas deixa-me apreensiva, o meu estômago enrola-se em si mesmo e sinto a minha garganta contorcer-se num nó cego. Por um lado, quero sentir-me segura e estável; por outro, quero a aventura, o desafio. Quero ambos os caminhos, quero se cruzem e formem um só. 

No fundo, o que eu quero é sentir-me segura nesta nova fase. Quero adquirir a experiência que me faz sentir tranquila e plena, embora, para tal, necessite de percorrer o caminho desconhecido vezes e vezes sem conta até este se tornar familiar. Quero ser grande sem precisar de crescer. Faz algum sentido? Ser sábia sem ter de passar pelas adversidades e lições da vida? 

Sei que esta ânsia é a minha necessidade de controlo a falar. É a minha necessidade de ser bem sucedida, não aos olhos dos outros, mas aos meus. Porque os meus olhos são os mais exigentes de todos. Eu sou a única que não me permito falhar, que não aceito a incerteza, que não normalizo o que é natural. Tenho tanto medo de fracassar, de fazer e dizer a coisa errada, de descobrir que sou uma farsa, uma impostora. No fundo, é como se todo o meu valor dependesse do que sou capaz de alcançar. 

Preciso de abraçar a incerteza com curiosidade; de me permitir errar; de desfrutar mais do processo e desligar-me do resultado final; de viver mais no agora do que nos meus medos imaginários, que apenas pertencem a um futuro longínquo e, muito provavelmente, nunca tornado realidade. 

Estou a crescer e a ser desafiada. Já me tinha esquecido de como é assustador e entusiasmante ao mesmo tempo. Preciso de respirar fundo e aceitar que este processo é mesmo assim. Que estes momentos de incerteza e vontade de desistir fazem parte. É a necessidade de conforto e controlo a gritar, são as resistências a fazer força e pressão. Respiro fundo e sei que, apesar de tudo, nunca conseguirei desistir. Pelo menos não agora. Porque se o fizesse não seria pelos motivos corretos. Não seria por perceber que afinal não é isto que me preenche e não é isto que quero para mim. Seria apenas pelo medo. 

Quando aceitei este desafio, foi com as palavras do meu amor em mente e com o bichinho de felicidade que se instalou no meu coração. Ele disse-me "aceita, nem que seja para perceberes se gostas!". E quando ele me disse estas palavras, tudo fez sentido e percebi que queria muito isto. Queria muito tentar. Mesmo que, para isso, me sinta tão perdida e desorientada tantas vezes. Mas se há característica que faz parte de mim é a persistência. Para ser grande, sê inteiro! Põe quanto és, no mínimo que fazes! Este é o meu lema, é a minha forma de estar na vida e é o modo com que encaro todos os desafios que me são lançados. Talvez seja até desta dedicação que nascem as ramificações do meu medo de fracassar, pois dou tudo de mim, pelo que é inevitável surgir o pensamento "e se, mesmo assim, não for suficiente?". O meu medo é proporcional à quantidade de esforço, energia e dedicação que emprego. Quanto maior é o meu medo, maior é a minha vontade de o ultrapassar. Mas quanto maior é o meu esforço e entrega, maior é a possibilidade de o fracasso ser recebido com angústia e dor. 

Independentemente de tudo, estou consciente de tudo o que estou a sentir e a pensar. Estou consciente de que este é um processo. E comecei este texto a falar de sinais. Comecei a escrever este texto ontem e hoje, quando regressei ao meu rascunho, sabem qual era a frase que me esperava?

Trust the process.

Acho que me resta confiar, certo? Em mim e em que tudo vai dar certo. Seja lá o que for esse certo!

13
Mai20

"Decide what to be and go be it"

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Desde que me lembro que existem palavras e que aprendi a conjuga-las, escrever sempre foi tão natural para mim como respirar. Ainda guardo as dezenas de diários que escrevi durante a minha infância e adolescência, não pelos tesouros literários que representam, mas por serem provas e evidências da pessoa que fui, outrora.

Quando tive, pela primeira vez, o meu próprio computador e descobri que podia criar um blog e escrever nele, deixei os diários e lancei-me na aventura. Ao longo dos anos já criei e abandonei inúmeros blogs, mas nunca os apaguei, apenas deixei de escrever neles e, de quando a quando, vou revisita-los. Este abandono não se relaciona com o maior ou menor sucesso dos diversos blogs, porque, honestamente, nunca criei um único blog com a expectativa de fazer dele um negócio. Primeiro, não acredito ter o talento suficiente para tal e, segundo, escrevo para mim e não a pensar em que me estará a ler. Na maior parte dos textos, até me posso dirigir a um público invisível, através das minhas palavras, mas não o faço acreditando que do outro lado estão realmente pessoas a ler. Faço-o como um exercício de escrita, uma forma de me expressar mais facilmente.
Na semana passada, revisitei um blog que escrevi enquanto ainda era estudante universitária e a minha vida era totalmente diferente. Diverti-me a ler-me, porque aquela rapariga era tão leve, tão solta e tinha tanta energia. Escrevia sobre as coisas boas da vida, não havia espaço para amarguras, embora, claro, também existissem. Senti tantas saudades de mim, daquele eu que já fui e se perdeu pelo caminho. Aquela rapariga romântica, que acreditava nos finais felizes, que não tinha medo. Acima de tudo, sinto saudades disso: de ser destemida.
Claro que hoje compreendo que a minha ausência de medo advinha, em grande parte, por ainda não ter vivido nada verdadeiramente assustador e que faz com que a vida estremeça e tudo se quebre. No fundo, era uma rapariga inocente. Lírica, como a minha mãe gostava de me chamar. Não se passaram assim tantos anos desde que escrevia naquele blog, mas a mudança foi tão grande, que não me consigo reencontrar naquela rapariga de vinte e poucos anos, que escrevia sobre os dramas da faculdade e acordava todos os dias com um sorriso no rosto pela vida que tinha.
Tive a mesma sensação há dias, enquanto olhava para uma parede do meu quarto, que está repleta de fotografias. Algumas são mais atuais, da minha "nova" vida, mas a maioria delas são anteriores a tudo o que aconteceu. Sentei-me na cama a olhar para cada uma daquelas fotografias, a olhar para mim eternizada naquele momento e é uma experiência muito estranha, quase como uma dissociação. Onde está aquela pessoa? Lá vem novamente esta pergunta e eu não sei responder. Não sei o que me aconteceu, mas sinto saudades de mim. Neste processo de perda e luto, nunca parei para fazer o luto de mim mesma. Tenho feito o luto da família que se desmoronou, mas não tenho deixado espaço para chorar a minha própria perda. Tenho percebido que gostava muito mais de mim do que imaginava, naquela altura. Não que tenha deixado de gostar, mas ainda estou a conhecer a nova pessoa que nasceu no lugar da que se perdeu. É como o início de uma relação. Pode ser que se transforme num amor para a vida toda. Ou não.
Talvez tenha de seguir o conselho de Sócrates e investir mais energia em construir o novo, em vez de lutar contra o passado. Mas não consigo deixar de sentir que é importante revisitar o meu passado, quem fui, para saber quem quero ser. Porque há erros que não pretendo repetir, há caminhos que não seguirei, mas, acima de tudo, há coisas que quero manter e preservar. Quero manter intacta a minha leveza, a minha luz, a minha energia romântica e positiva. Quero, agora sim, depois de algo assustador me ter acontecido, ser destemida. Porque, desta vez, não serei destemida por não ter medo, mas sim por ter ganho coragem.

23
Mar20

one way or another

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Mais do que nunca preciso de manter este emprego, mais do que nunca apetece-me desistir e entregar a minha carta de demissão. Estou numa encruzilhada, onde sei qual é o caminho a seguir, embora não seja o caminho certo. Porque o caminho a seguir é o da responsabilidade e bom senso, de me manter sossegada e focar-me no objetivo mais importante, que é ter dinheiro para pagar todas as contas que vão cair no final deste mês. O caminho a seguir é assegurar que o dinheiro não falta, porque ter um emprego, neste momento, é uma segurança, uma tábua de salvação no meio do oceano e todos sabemos que os próximos tempos serão de tempestade. Mas o caminho certo não é este. O caminho certo é aquele que é percorrido com dignidade, com os valores que me foram transmitidos e com a certeza de que a minha saúde está em primeiro lugar. Porque, neste momento em que me encontro, não posso afirmar estar doente, mas também não estou sana e conheço bem a velocidade com que se entra em espirais de tristeza, cansaço e desespero. Conheço-me bem e sei quando estou à beira daquele que é o meu limite.
Mas também sei que estou numa situação em que não o posso fazer. Uma situação na qual o limite tem de se expandir, tem de ir mais além. Porque preciso, mais do que alguma vez precisei, do dinheiro e da segurança que este emprego do demo me traz. Sinto-me uma hipócrita, sinto que me estou a apunhalar nas próprias costas. E questiono-me até quando vou aguentar. Se serei eu a parar ou o meu corpo a parar por mim. O copo encheu, transbordou e não cabe nem mais uma gotícula. Se até aqui já me sentia desmotivada e num ambiente hostil, os últimos dias mostraram-me que ainda não tinha visto nada. Que o pior ainda estava para vir. E tanto estava para vir, que chegou, instalou-se e eu não sou mais a mesma dentro destas quatro paredes. A diferença é notória, visível, palpável. O meu rosto cansado, a minha falta de energia, o meu sorriso caído.
Gostaria de pensar que estou num dilema, mas na verdade, não estou. O caminho a seguir é muito óbvio e claro. Só espero que, ao percorrê-lo, não me perca.

27
Fev20

"apenas depende de ti"

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Faltar-me-ão sempre estudos para compreender as pessoas (em específico os patrões e entidades patronais) que consideram as questões motivacionais dos seus colaboradores um não assunto. Ou, como já ouvi, um capricho. Divido-me sempre entre pensar que é ignorância ou estupidez ou até um pouco de ambos. Uma coisa sei: inteligência não é certamente.
Sei que não se pode agradar a gregos e a troianos e também sei que existem muitos queixosos crónicos. São aquele grupo de pessoas que se queixa sempre de tudo, tem sempre um problema para cada solução e que parece sentir um genuíno prazer em protestar. Estas pessoas não são apenas assim no trabalho, são assim na vida em geral e os que os aturam têm um lugar reservado no céu. Mas mesmos estes queixosos crónicos ressentem quando a motivação é tratada como um capricho e uma questão que apenas depende do colaborador (como também já ouvi).
A verdade é que a motivação nunca será uma questão exclusiva do trabalhador ou do empregador. É um filho cuja guarda é partilhada e, como tal, cada um tem de fazer a sua parte para que o filho cresça e chegue a bom porto. No entanto, a realidade a que assisto diariamente é que as empresas se descartam da sua responsabilidade e exigem aos colaboradores que a sua automotivação se multiplique e que substitua o papel que só diz respeito ao empregadores. Por muito que um colaborador goste do seu trabalho e chegue todos os dias à empresa com vontade de se exceder e alcançar o seu potencial, não depende apenas de si. Este mesmo colaborador precisa de ter feedback quanto ao seu trabalho, precisa de ver as suas competências valorizadas e não apenas monetariamente, embora também seja muito importante. Mas creio que um "bom trabalho!" enche mais os reservatórios da vontade e dedicação do que alguns euros a mais que, por vezes, com tantos descontos e acertos, se diluem rapidamente. É extremamente importante orientar os colaboradores, dar-lhes oportunidades de crescimento e melhoria contínua, investindo na sua formação não só profissional, mas também pessoal. Proporcionar um bom ambiente de trabalho, no qual sintam que errar não é sinónimo de ter a cabeça a prémio, pelo contrário, utilizar os erros para fomentar aprendizagens e potenciar o seu desenvolvimento. Muitas das pessoas que erram são aquelas que estão sobrecarregadas, divididas entre tantas tarefas que, mais tarde ou mais cedo, alguma vai resvalar e falhar. Ninguém é imenso e o tempo é democrático, todos temos direito às mesmas 24h. Motivar os colaboradores passa também por respeitar a vida destes, sabendo que a esfera profissional é apenas isso, uma esfera no meio de outras igualmente importantes, como a família, os amigos, os tempos livres. Atualmente, as empresas exigem uma disponibilidade quase total aos seus colaboradores, indo além das fronteiras físicas das suas instalações através de chamadas e emails fora de horas. As pessoas não descansam, nunca desligam, entram num ritmo frenético do qual não conseguem encontrar a saída.
Envolvidos num stress constante e crónico, começam a surgir os primeiros sintomas - falta de concentração, de energia, de criatividade para pensar em soluções face aos problemas - e são apenas a pontinha do iceberg. A questão mais fascinante (e ridícula) é que as empresas perdem dinheiro com estes fenómenos, porque depois surgem as baixas, as demissões ou o famoso presentismo, em que temos as pessoas presentes fisicamente no trabalho, mas estarem ou não estarem é quase o mesmo. Está o corpo, mas não está a cabeça.

Será que os patrões desta vida não conseguem mesmo compreender a simplicidade da equação colaboradores motivados = sucesso da empresa? Como é que alguém pode exigir aos seus colaboradores para que estes vistam a camisola, se entreguem de alma e coração às balas, se não há qualquer retorno nem apreço? Por caridade? Por misericórdia?
Trabalho numa empresa onde todos os dias assisto a espetáculos deploráveis de extermínio motivacional. E o que me impressiona mais, ao fim de tanto tempo, nem é a forma como a empresa trata os colaboradores, mas a forma como estes toleram e, mesmo assim, se esforçam. A realidade é que as pessoas precisam de trabalhar, as contas no final do mês são certas e há um medo constante do incerto, porque apesar de isto ser mau, ao menos sabemos como é, a empresa do lado pode ser ainda pior. Só que esta tolerância desgasta-se e as pessoas acabam mesmo por adoecer e perdem tanta qualidade de vida. Tenho tantos colegas à beira do esgotamento, outros tantos que mal conseguem falar e passar tempo de qualidade com as suas famílias. Inevitavelmente, questiono-me se isto vale a pena? Dar tanto a quem nos dá tão pouco?
Não posso deixar de me rir quando me dizem que a motivação apenas depende de mim. Não posso aceitar isso, não posso aceitar que sejam exigidos resultados em tempos recordes, perfeitos, quando neste jogo de dar e receber se dá tanto e se recebe tão pouco. E hoje estas questões pesam-me mais porque olho em meu redor e cada vez conto mais os desmotivados. Vejo rostos cansados, olheirentos, corpos que se alimentam de shots diários de cafeína e refeições pouco saudáveis, telemóveis que não param de tocar e vibrar, emails seguidos a entrar, algumas vozes altas em exaltação por pequenas coisas, mas as pessoas perderam a capacidade de distinção entre o que é pequeno e grande, entre o que é grave e leve. É um cenário triste e degradante, mas mais comum e frequente do que se desejaria. 

Por isso, nunca conseguirei compreender como é que a motivação é entendida como um capricho. Ainda falta a muitos administradores e empresários desta vida a capacidade de compreensão de que as pessoas serão sempre o melhor recurso de qualquer negócio. Serão sempre elas o motor, a força motriz, a chave do sucesso. Hoje investe-se muito em tecnologia de ponta, máquinas novas e XPTO, mas cada vez cai mais no esquecimento a valorização dos recursos humanos. Estes são aqueles que são mais difíceis de substituir e que podem ser o elemento chave no sucesso ou deterioração de uma empresa. Mas o que sei eu de gestão? Sou apenas uma colaboradora caprichosa, cuja subida dos níveis baixos de motivação apenas depende de si mesma. 

26
Fev20

Querida amiga,

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Antes de te dizer o que pretendo realmente dizer, sinto-me na obrigação de esclarecer algumas questões iniciais. A primeira é de que te estou a dizer isto por escrito e não numa conversa, olhos nos olhos, porque ainda não consegui reunir forças e competências para o fazer. As palavras escritas, como sabes, sempre me permitiram expressar melhor o que vá dentro de mim e temo que se as dissesse em voz alta, não conseguiria sequer chegar a meio do que te pretendo dizer, porque a emoção falaria mais alto que a minha voz. E eu quero mesmo que saibas de tudo, com todos os detalhes, até os mais sórdidos, sádicos e tristes. Ao mesmo tempo, não o consigo dizer-te oralmente, numa conversa real, porque me sinto, de algum modo, envergonhada com esta situação. Num plano lógico e racional, sei que não fui eu a autora desta confusão, que não tenho a culpa do que se passou, mas sinto uma vergonha enorme de tudo o que se passou e, por vezes, também me sinto culpada. Não pelo que se passou, mas pela forma como lidei e lido com isso. Vergonha e culpa são emoções que, desde há dois anos, convivo de perto e sei como nos conseguem debilitar e paralizar. A segunda questão, que para ti será a primeira que vai surgir na mente, é o porquê de não o ter dito mais cedo. E a esta questão acho que te posso dar várias respostas, mas a que congrega todos os motivos, de forma mais simples e clara, é esta: porque ao não o dizer, não tenho de lidar com isto. Ou melhor, ter de lidar com isto, tenho de lidar todos os dias da minha vida, mas não tenho de lidar com as preocupações e questões de outros. Porque já é tão difícil lidar com as questões dos envolvidos, que não sei se aguentaria ter de lidar também com mensagens e dúvidas constantes sobre isto vindo de outros, de fora. Ainda que fossem de preocupação, de cuidado, de amizade, não me senti (e acho que ainda não me sinto) preparada para ver a minha vida exposta desta forma. Logo eu que, como sabes, sofro de exposiofobia. Gosto tanto do meu cantinho às escuras. Portanto, não interpretes esta atitude como um sinal de falta de confiança em ti, porque se for falta de confiança não será em ti, certamente, mas em mim e na minha capacidade de ser vulnerável.
Acho que depois de leres o que tenho para te dizer, todas as peças do puzzle se irão encaixar e tudo te fará muito mais sentido. A minha distância, a minha ausência, o meu silêncio. Os nossos amigos até brincam se eu estou viva ou já estou enterrada, tal é o meu desaparecimento. Acho que conseguirás compreender a minha fuga de qualquer contacto social e o meu isolamento, porque me conheces. E sabes que eu curo as feridas sozinha, no meu espaço, ao meu tempo. Mas a questão é que se passaram dois anos desde que tudo isto aconteceu e as minhas feridas continuam abertas e, se possível, talvez mais ardentes e profundas do que inicialmente estavam. O meu processo de cura não tem sido linear e por cada passo dado em frente, sinto que recuo outros tantos. Acho que faz tudo parte, mas, por vezes, sinto-me perdida e confusa. E nunca deixo de me sentir quebrada. Irremediavelmente quebrada. Se tivesse de escolher uma palavra para me descrever neste momento, essa seria a ideal: quebrada. Estou a fazer tantos lutos em simultâneo: luto da minha família, luto da ideia que tinha dos meus pais, luto de mim mesma, da minha vida antes de tudo isto. Porque em muitos momentos é isso que sinto: que morri. Deixei de ser a pessoa que era. Roubaram-me a leveza, a simplicidade, a tontice. Tornei-me numa pessoa séria e tão zangada. Às vezes a minha raiva faz o meu coração acelerar como se passasse da primeira à quinta mudança em segundos. Não sabia que uma pessoa de 1,65 cm conseguia conter tanta raiva dentro de si, mas ficarias surpreendida com as toneladas que consigo armazenar neste corpo de fada. Também me tornei numa daquelas pessoas que tem um sorriso triste, sabes? Nunca perdi o meu sorriso, mas para os mais atentos, é detetável a diferença de intensidade com que sorrio. Hoje o meu sorriso é um sorriso de nostalgia, de perda. O meu olhar confirma o mesmo. Estou triste, estou imensamente cansada, aliás, estou exausta e estou muito zangada. E tu nunca desconfiaste de nada, não só porque eu tenho fugido de todos os convívios como, quando estou presente, uso a minha melhor máscara. Todos esses momentos sociais são carnaval para mim. Coloco a minha melhor máscara e lá vou eu. Ao mesmo tempo, tenho de te confessar: nunca sabemos como vamos reagir às coisas até estas nos acontecerem. E também só conhecemos a nossa força e resiliência quando as coisas más nos batem à porta. Ainda hoje não te sei explicar como é que, naquela segunda-feira, consegui vir trabalhar e me apresentar ao mundo, quando só me apetecia ter ficado enfiada debaixo dos cobertores, de olhos fechados, a fingir que nada disto era real. Somos mais fortes do que julgamos e isso é uma descoberta positiva no meio de tanta coisa negativa. Mas também sei que esta força tem um custo, um preço.
No meu caso, foi a minha felicidade e, sem dúvida alguma, a minha liberdade. Cortaram-me as asas ao mesmo tempo que me tiraram o chão dos pés. Sei que hoje sou uma pessoa muito mais reativa a qualquer estímulo, salta-me logo tudo. Ando sempre com o coração nas mãos. Sabes, algumas das piores notícias da minha vida foram-me transmitidas via telefone, por isso, criei uma fobia a telefonemas inesperados. Se a minha mãe me liga ou manda mensagem a meio do dia, sem razão aparente, transformo-me numa pilha de nervos em segundos. Até gozam comigo por isso, mas não consigo evitar. Estou sempre em modo alerta e em modo de perigo. Como se me quisesse preparar para o mal que aí vem, porque espero sempre isso: mal. Viver neste constante estado de sobressalto é nocivo e sabes que ninguém melhor do que eu para o saber.
Já te disse tanto e ainda não te disse o mais importante, que foi o que provocou tudo isto. Mas agora que reflito, talvez a causa não seja o mais importante, talvez tudo o que disse até agora seja o mais urgente e pungente.
Amiga, uma lição que aprendi foi que nunca sabemos as lutas que cada pessoa que passa por nós trava no seu interior. Eu tornei-me numa dessas pessoas, que por fora parece intacta e intocável, mas por dentro está estilhaçada em fragmentos de todos os tamanhos e formas. Andamos todos tão cegos, focados em nós mesmos, que nunca esquecemos de olhar para fora de nós e ver o mundo que nos rodeia. Eu sou uma dessas pessoas, vivo aprisionada nos meus dramas e problemas. Com isto, quero dizer-te que tenho falhado como amiga. Não tenho manifestado qualquer interesse na tua vida, se estás bem, se estás a gostar do novo trabalho, se está tudo bem em casa. Não tenho feito nenhum esforço nem investimento em manter a nossa amizade. Mas também tenho de te dizer que esta falta de esforço não provém apenas da minha parca energia e disponibilidade emocional, mas também vem da certeza que a nossa amizade é daquelas de aço, que a água e fogo não conseguem quebrar nem corroer. Que o tempo de ausência se esfuma em segundos de contacto. Sei que estás sempre à distância de um click, a poucos metros de mim, caso seja necessário. Só não consegui ainda quebrar o vidro do alarme para acionar em caso de emergência. Não sei do que estou à espera, mas sei que se o fizer, tu não me faltarás e serás a chefe da fila do meu socorro. Tal e qual como eras sempre a chefe de fila nos simulacros da escola. Uns diriam que era por seres a mais alta da turma, eu acho que sempre foste tu por conseguires reunir a calma e tranquilidade necessárias quando todos os outros se entregavam ao stress e ao pânico.
Talvez eu consiga fazê-lo, talvez nunca o faça. Só espero é que, tanto num caso como noutro, não me falhes nunca.

19
Fev20

All your perfects

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Este blog começa mesmo a transformar-se, aos poucos, num clube de adoração a Colleen Hoover. Mas não consigo evitar tornar a falar de um livro dela, porque foi o último que li (terminei ontem) e foi, talvez, dos mais intensos que já li, se não me atraiçoa a memória. É imperativo escrever sobre este livro, porque, como já disse e torno a repetir, há livros que nos abalam, que nos viram do avesso e que nos transformam. Há livros que são arte, são magia e quando abertos, nos levam não só para outros mundos, mas também para mundos dentro de nós mesmos nunca antes conhecidos e explorados. All your perfects é um exemplo exímio desse tipo de livros. 

A primeira vez que ouvi falar deste livro foi no blog da Mariana Alvim, que faz parte da equipa das manhãs da RFM. A Mariana é uma leitora compulsiva e adora romances, já me "aconselhou" indiretamente a ler muitos livros devido às reviews que faz dos mesmos. E também é fã assumida da Colleen Hoover, pelo que, quando li a sua opinião sobre All your perfects fiquei imediatamente curiosa e com vontade de o ler. Sabia que o leria em inglês, porque ainda não está traduzido, mas sem qualquer problema porque cada vez aprecio mais ler em inglês e tem sido uma excelente forma de poupar uns euros, tendo em conta que os livros são bastante mais acessíveis.

Quando chegou a casa, coloquei-o na mesinha de cabeceira e posso afirmar, com segurança, que permaneceu na fila de espera uns bons meses. Sempre que acabava de ler um livro, olhava para ele e sentia que ainda não era o momento. Não sei se mais alguém partilha este traço estranho comigo, mas eu tenho uma espécie de feeling em relação aos livros. Preciso de sentir que estou na fase certa e plena para ler aquele livro em específico, da mesma forma que sei quando preciso de um time-out de determinado género e preciso de ir alegrar os olhinhos com outras leituras. Andei neste jogo durante algum tempo, porque sentia que este livro ia ser intenso, ia absorver toda a minha capacidade emocional, ia esvaziar-me e preencher-me em simultâneo. Atenção, não sabia muito da história, mas do pouco que sabia, sentia que seria um livro profundo e nada light. Aliás, nada do que a Colleen escreve é leve ou simples.

”If you only shine light on your flaws, all your perfects will dim.”

Posso confirmar que a minha intuição estava certa, porque este livro é tudo menos leve. Sinto-me drenada e arrebatada por ele. E não vou entrar em detalhe nenhum da história, porque ao fazê-lo iria estar a estragar qualquer coisa, ainda que mínima, e este livro não merece isso. Merece que quem o lê, vá completamente ao desconhecido, que se deixe levar, que se entregue e, meus amigos, que sofra. Porque vão sofrer, preparem-se para isso. Isto não significa que o final da história será uma tragédia, apenas significa que é um livro intenso, é forte, é emocional da primeira à última página. Mas também posso assegurar-vos que há um pouco de cada emoção, nem tudo é tristeza. Aliás, há momentos incrivelmente felizes e apaixonantes e é também por esses que sentimos tão intensamente esta história e sofremos tanto com as personagens. Posso dizer que sofri ao ler este livro, chegando ao ponto de me sentir inquieta e desassossegada em alguns capítulos, noutros senti que o meu coração e o meu peito iam arrebentar de tanto ar que sustive. Chorei muito, chorei tanto que o meu namorado olhou para mim, perdido de riso, e me veio acalmar, frisando que era apenas um livro.

Mas a questão é mesmo esta: sendo apenas um livro, não é apenas um livro. Tocou tantos aspetos e tantas dinâmicas com as quais me confronto diariamente. Fez-me questionar muitas coisas da minha própria vida e levou-me a posições e perspetivas novas, que eu nunca tinha experimentado antes, sobre os assuntos de sempre. Foi doloroso ler este livro, porque a história e as personagens misturaram-se com tantos episódios da minha realidade, despertaram-me para pensamentos e atitudes que não quero ter e que, ultimamente, têm sido frequentes. Mas foi igualmente transformador e libertador aceder a alguns lugares estranhos e perdidos dentro de mim e das minhas relações.

Há duas passagens em especial que me tocaram e quero partilhar. Uma está perdida algures neste emaranhado de palavras, outra é com a qual pretendo terminar este texto, que está completamente desformatado em termos de sentido e lógica, mas que se assemelha muitíssimo ao meu interior depois de ler um livro que me destabiliza, como foi o caso deste. Aconselho vivamente e asseguro-vos, por tudo que é mais sagrado, que a Collen não me paga nenhuma comissão por toda a publicidade que lhe faço. Apenas desejo que nunca deixe de escrever, porque nos iria privar de muita riqueza.

“What's the secret to a perfect marriage?'
'Our marriage hasn't been perfect. No marriage is perfect. There were times when she gave up on us. There were even more times when I gave up on us. The secret to our longevity is that we never gave up at the same time.”

11
Fev20

Como o "Isto acaba aqui" acabou comigo

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Sou uma fã assumida e orgulhosa da Colleen Hoover. Já foram diversos os textos que escrevi sobre o impacto dos seus livros em mim e sobre a forma como admiro o trabalho e o talento de Colleen. Só não me aventuro a criar-lhe um clube de fãs porque já devem existir centenas deles e o meu seria apenas mais um, perdido no universo. E depois leio o "Isto acaba aqui" e começo a reformular toda esta ideia de (não) criar um clube de fãs, porque quando eu achava impossível não me deslumbrar mais pelo trabalho de Colleen, ela é capaz de me surpreender e todo o seu talento se debruça sobre mim como uma avalanche.
Fiquei acordada até às tantas da manhã, num dia de semana, sabendo que teria poucas horas de sono, para acabar de ler este livro. E valeu cada segundo de sono perdido, porque o que perdi em descanso, ganhei em entusiasmo, euforia, tristeza, raiva, eu sei lá, toda uma montanha russa de emoções. O mais curioso é que eu não estava nada curiosa para ler este livro. Aliás, quando lia e relia a sinopse do livro, sentia que não era o tipo de livro que iria prender a minha atenção. Até que num belo dia, numa viagem pelo Goodreads, li uma resposta da Colleen a um fã, que a questionava qual dos seus livros mais gostava. Ao que a Colleen não se poupou a respostas politicamente corretas e, abertamente, disse que era o "Isto acaba aqui", por ser o livro mais pessoal e intenso que já havia escrito. E foi aqui que a coisa se inverteu para mim. Onde antes não havia curiosidade, do nada nasceu toda uma vontade de descobrir este livro e perceber se, afinal, era assim tão incrível como todas as pessoas no Goodreads comentavam, inclusive a própria autora do livro.
E ... o que dizer? O que dizer para além do óbvio e já dito por todo o universo de pessoas que leram este livro? É realmente incrível. É tão incrível que senti necessidade de escrever sobre ele, para que mais pessoas possam deitar os seus olhinhos nele e se deixarem levar por uma história que tem um pouco de tudo e em que não falta nada, mesmo nada.

Sempre que escrevo a minha opinião sobre livros, sou muito superficial, porque não quero, de forma alguma, dar spoilers. Nunca sei como conciliar falar do livro com entusiasmo sem dar demasiadas informações sobre a história, mas vou dar o meu melhor para vos tentar explicar o porquê deste livro me ter arrebatado, como eu nunca, nem nos meus maiores sonhos, imaginei.
O tema base e central deste livro é a violência doméstica. É a história de uma jovem de 25 anos, Lily, que cresceu a assistir a cenas de violência entre os pais, mais concretamente o pai a agredir a mãe. Conhecemos a Lily de hoje, jovem adulta, emancipada, a conquistar todos os sonhos que tem para a sua vida, e, ao mesmo tempo, vamos conhecendo a Lily do passado, com 15 anos, que assistia ao que ninguém deveria alguma vez assistir e ao impacto que todos esses episódios tiveram na construção da sua personalidade e na forma como se relaciona com os outros. E até aqui nada disto parece muito fascinante, mas posso dizer-vos que há uma pessoa especial que cresce com Lily, que a marca para sempre e posso também dizer-vos que surge uma pessoa no presente de Lily, que parece ser a pessoa perfeita, que se apaixona por Lily, por quem Lily se apaixona e por quem, também nós, leitores, acabamos por nos apaixonar a dada altura. Estas duas pessoas terão muito peso e influência na história de Lily, no rumo que a sua vida vai tomar, nas escolhas e decisões que esta terá de tomar.
Mas não é sobre a história de que vos quero falar, embora a tenha adorado. Adorei todos o detalhes dela, todos, todos. Adorei a forma como a Colleen conseguiu criar personagens tão dinâmicas e que, no final, nos fazem acreditar numa frase chave no decorrer deste livro: não há pessoas más, há apenas pessoas que por vezes fazem coisas más. Adorei a genialidade da autora em nos dar a conhecer o passado de Lily através das entradas dos seus antigos diários, que são deliciosas. Mas esta genialidade não se esgota e Colleen consegue escrever sobre as dinâmicas e os conflitos internos da violência doméstica de uma forma que nos envolve, que nos faz sentir que somos aquela vítima, que aquela poderia ser a nossa realidade e poderíamos ter de ser nós a ter de tomar tais decisões. Colleen alerta, em mais do que um momento, para uma questão que me tem passado em loop na mente: tendemos a dirigir os nossos pensamentos mais críticos e duros para aqueles que são vítimas de violência doméstica do que para os agressores. É-nos mais fácil julgar a mulher que não sai de casa, que não abandona o marido violento, pensar nela como fraca e frágil, até como pouco inteligente por cair sempre no mesmo engodo e na mesma armadilha de perdoar, por achar que não se voltará a repetir. E enquanto o fazemos, vamos deixando escapar impune os agressores, que não destroem apenas fisicamente as vítimas diretas, destroem-nas por dentro e destroem todos os que estão em seu redor. Mas, ao mesmo tempo, Colleen ainda nos consegue deixar sentir um pouco de empatia por estes mesmos agressores, mostrando-nos que estes também têm uma história e que, muitas vezes, também estes estão num sofrimento inesgotável. No entanto, Colleen nunca nos deixa cair na armadilha de pensar que ter uma história de vida difícil é um motivo ou uma justificação. É apenas isso: uma narrativa que nos leva a perceber que, novamente, as pessoas não são boas nem más. Apenas fazem coisas más por vezes. 

Há muito da vida, do passado de Colleen neste livro. Há vulnerabilidade, há a sensação de que a autora escreve este livro com um objetivo triplo: engrandecer a mãe, perdoar o pai e libertar-se a si mesma, rescrevendo a sua história ou, pelo menos, a forma como sempre olhou para a mesma. Hoje entendo o porquê deste ser o seu livro preferido e o mais difícil de escrever. A matéria-prima não só era densa, pesada, negra, como vinha de fontes próximas.
Poderia dizer-vos tanto sobre este livro e sinto que seria sempre insuficiente. Quem já o tiver lido, partilhe comigo nos comentários o que achou! Quem não o fez, faça-o, não se irão arrepender. Para mim foi apenas mais uma confirmação de que Colleen Hoover tem um talento que transborda, não tem início nem fim. Foi a confirmação, também, que, de quando a quando, aparece um livro que nos abala, que nos faz estremecer, que nos deixa a pensar, que nos transforma. Tudo nele é brilhante, até o próprio título.

E, em jeito de conclusão, termino com uma frase que me ficará gravada para sempre, que ressoou tanto dentro de mim, pelos motivos mais óbvios: quando a vida é difícil, parecendo não haver solução, há que continuar a nadar. Nem que pareça que apenas flutuamos ou que estejamos a afundar, nunca podemos deixar de nadar. Chegaremos à margem.