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the old soul girl

the old soul girl

16
Nov20

minha pequenina

girl

Já tentei escrever antes, mas não senti que os meus textos merecessem ver a luz da publicação e, assim, guardei-os na gaveta dos rascunhos, esse lugar espaçoso onde cabem todas as minhas ideias e emoções no seu estado mais bruto.
Hoje faz um mês que me despedi da minha amiga de quatro patinhas que, sem qualquer dúvida, significou mais para mim do que muita gente que por cá anda e alguma até do meu sangue. Faz um mês que tivemos de tomar a decisão de a deixar ir, de terminar com o seu sofrimento e lhe dar o descanso que ela tanto merecia. Mas, ainda que saibamos que foi a melhor decisão, isso não a tornou mais fácil. Pelo contrário, quando somos nós os autores das nossas escolhas, temos de enfrentar a realidade de que fomos nós que assim decidimos. Não foi o destino, a sorte ou o azar. Fomos nós e somente nós.
Foi um dia muito difícil, mas também era insuportável olhar para ela e ver como se arrastava, a dificuldade com que se erguia, a falta de apetite, a apatia, a perda de todas as funções e, no fim, a perda da sua personalidade enérgica. Só não se perdeu a sua mimalhice, porque era a cadela mais mimada e faminta de mimos que já conheci. Apesar de todas as dores, ainda era capaz de olhar para nós, tocar-nos com a sua patinha, como quem implora mais uma festinha pela cabeça, mais uma massagem pelo lombo.
Naquela sexta-feira, chorei até não conseguir mais. Doeu-me tudo e quando fechava os olhos, só conseguia ver aqueles dois olhinhos castanhos, ternurentos, cravados em mim. Sempre que pensava que aquela pequenina já cá não estava, que já só vivia na nossa memória, que se tinha esfumado num sopro, doía-me o coração e a alma.
Num rascunho escrito a 18/10, eu escrevia:

"Sempre que acontece alguma coisa que mexe comigo, penso "preciso de escrever sobre isto". Nem sempre o faço, mas sinto a vontade, não só para eternizar momentos, mas também para organizar o que vai dentro da minha cabeça. Nestes últimos tempos não tenho tido a maior disponibilidade do mundo para me sentar e dedicar-me a escrever, o que não significa que tenha pouca coisa em mente para organizar.
Este ano está a ser difícil para todos nós. É inegável. Estamos a viver uma situação digna de um guião de um filme de ficção científica ou terror, que jamais imaginamos ser possível. Ainda assim, e já após 7 meses de pandemia, nunca dei comigo a dizer "que ano horrível". Embora, como toda a gente, me sinta assustada, frustrada e cansada desta situação, nunca dei este ano como um ano perdido, que riscaria do meu calendário. Não só porque esta situação completamente atípica e nova me tem ensinado muito acerca da nossa forma de viver e estar, mas também porque este ano trouxe-me coisas positivas. No entanto, na semana passada vivi um acontecimento que me fará para sempre olhar para 2020 como um ano triste. 
Porque desde a semana passada, 2020 será sempre relembrado, entre outras memórias, como o ano em que me despedi da minha cadelinha, um dos seres mais puros que já conheci. Há pessoas que não compreendem os animais como algo mais que meros seres vivos, mas para mim, os animais valem tanto ou mais que algumas pessoas. Como a minha cadela, por exemplo, de quem gosto imensamente mais do que muitos seres humanos, alguns até da minha família. A minha cadela era da família, era do núcleo duro e forte, onde só entra quem é realmente especial e importante. 
Estava doente, muito e gravemente doente. Sei que a melhor decisão a tomar foi deixá-la partir e reencontrar o sossego e a paz que já não tinha há muito tempo. Eu sei disso tudo, acreditem. Mas por maior que seja a racionalidade e a lógica desse argumento, nada disso me consolou naquele dia em que me despedi dela para a deixar partir e nunca mais a tornar a ver. Foi um dos dias mais tristes da minha vida e uma das maiores perdas que já vivi. Gostava de conseguir escrever algo mais profundo, até mais bonito, acerca dela que, sem dúvida alguma, o merece, mas neste momento não me sinto capaz de o fazer. Porque quando me lembro que ela já não existe, que nunca mais a voltarei a ver, dói-me tudo. Toda e qualquer parte do meu corpo se contrai com a dor, quase sinto o meu coração a quebrar-se em mil estilhaços. Por isso, por mais que a escrita seja terapêutica para mim, ainda não consigo escrever tudo o que vai dentro de mim sobre este assunto. Porque tudo me faz confusão, a aceitação e a negação misturam-se, tenho flashes a todo o momento da última vez que a vi, a ferida ainda está aberta e cheia de sangue a jorrar por todo o lado."

Hoje, passado um mês, posso afirmar que aquele momento de despedida me trouxe uma paz e conforto que, no meio da tempestade, não consegui sentir, mas que, com o passar dos dias, encontrei. A oportunidade de nos despedirmos, de dizermos adeus, de olharmos, sentirmos, absorvermos uma pessoa, um animal, um lugar pela última vez é uma dádiva. Eu tive a oportunidade de me despedir da minha amiguinha, de a mimar até ser o momento final, de lhe dizer o quanto a amava e o quanto ela era incrível, espetacular e a melhor cadela que o mundo já teve oportunidade de conhecer. Hoje, quando penso nela, não sou invadida pelas imagens da despedida, mas antes por todos os momentos bons e maravilhosos que ela me proporcionou. Lembro-me da sua energia inesgotável, da forma como parecia que via Deus sempre que me via pegar na trela, porque sabia que ia passear, o modo como me perseguia pela casa, pois sabia que eu sou fácil e nunca era capaz de lhe negar miminhos. Lembro-me de como os almoços de domingo eram uma alegria para ela, com tanta gente à volta da mesa, sempre a dar-lhe comida. Até cheguei a descascar-lhe camarões! Lembro-me de como se empoleirava para comer os restos de gelado que já não conseguíamos comer e como os seus bigodes ficavam brancos, era um prazer indescritível. Lembro-me das suas orelhinhas levantadas quando nos ouvia chegar a casa e como corria ao nosso encontro. Ainda a procuro em todos os cantos da casa e do jardim, convencendo-me cada vez mais que a casa sempre foi mais dela do que nossa. Sinto saudades dela, nas mais pequenas coisas, mas o coração já não me dói com o desespero de a termos perdido. Ela faz parte de mim, sempre fará, e enquanto eu estiver viva, ela vive comigo e dentro de mim. 

31
Ago20

o teu dia

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Avó, hoje farias anos. Onde quer que estejas e passe o tempo que passar, hoje é e sempre será o teu dia.

Tenho saudades tuas. Já aceitei a tua perda, já a chorei e já a encaixei no meu coração. No entanto, nunca deixarei de ter saudades tuas. Far-me-ás sempre falta e o tempo vai passando e vou pensando em ti, em tudo aquilo que já vivemos desde que partiste, tudo aquilo que já se passou. É uma das coisas que mais me faz confusão na perda. Continuamos a viver, o mundo continua a girar, o tempo não para, mas tu já cá não estás. É estranho tudo prosseguir e avançar e tu não fazeres parte.
Hoje é o teu aniversário e gosto de te recordar por tudo o que foste em vida. E que grande vida, avó! Podia passar horas a ouvir-te falar dos teus tempos de miúda, de como era a vida nesses dias, dos momentos de adversidade e prova que atravessaste. Contavas-me essas histórias e eu, ouvindo-te, sentia que as tinha vivido. Imaginava como teriam sido os teus pais, que nunca conheci; que menina e jovem foste; como te apaixonaste; como deste à luz um mão de filhos; como sempre foste uma mulher de garra e coragem. Penso não existir nada que não fosses capaz de alcançar, avó. Pelo menos, sempre foi assim que olhei para ti. Como uma força inquebrável, uma lutadora que não se verga nem desiste face a nenhuma batalha até a guerra se dar por terminada.
Eras sempre mais dos outros do que de ti mesma. É uma característica que corre na nossa família, metade de nós nascemos para ser cuidadores e direcionar as nossas forças e empenhos para os outros. Tu eras assim. Passarias fome se isso assegurasse que os teus teriam comida na mesa. Abdicarias de todo e qualquer conforto por nós todos. E assim o fizeste, muitas vezes, repetidamente.
Sabes, avó, sinto uma pena imensa de te ter perdido tão cedo. Não deveria ter sido assim. Há conquistas, momentos bons e maus, em que eu precisava de ti, aqui, ao meu lado. Em que, acima de tudo, lamento tanto que não estejas cá para ver, sentir, experienciar. É como se faltasse sempre algo e falta. Faltas tu.
Hoje farias anos, avó. Eu telefonar-te-ia e até iria ao teu encontro para te dar um beijo e um abraço apertado. Lembraste daqueles abraços em que me apertavas com força e sentias como o meu corpo se transformava? Nos teus braços eu passei de menina a mulher e tu fazias questão de me dizer. Eu ria-me e dizia-te que tinha mais de ti do que poderias imaginar. Ficaríamos assim, num abraço, contigo a agradecer todo o amor e eu sem jeito e sem forma de te explicar que tu mereces o mundo. Porque mereces, avó. Sempre o mereceste. Deste-me sempre tudo. Se fui uma criança feliz, a ti também te devo. Se hoje sou quem sou, tu também és responsável.
Avó, avó ... quando partiste, as minhas palavras foram contigo. Não me lembro do que te escrevi, mas sei que o fiz com urgência, sei que precisava que levasses contigo tudo aquilo que não tive tempo de te dizer. Avó, conforta-me saber que quando partiste, não estavas só. Estavas rodeada de amor. Nesse dia, ainda antes de saber que tinhas partido, falei de ti. Quando me preparava para entrar em casa, soube, antes de saber, que já não estavas cá. Não encontro lógica para explicar esta sensação, nem me faz falta. Chama-lhe intuição, ligação, o que preferires. Eu soube, antes de saber, que já não estavas connosco. E, mesmo preparada para esse desfecho, doeu como se não existisse preparação alguma no mundo capaz de nos fortalecer para um momento assim.
Parece que foi ontem, parece que foi há muito tempo. As saudades, essas malditas, conserva-as o tempo. E comigo vive a promessa de que enquanto viveres dentro de mim, e sempre viverás, és eterna. Por isso, parabéns avó. 

24
Ago20

#11 Self-care Journal: Journal what you love most about your closest friend or family member.

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Para responder a este desafio, a primeira pessoa que me veio à mente foi a minha irmã. Escolher uma entre milhares de características da minha irmã que eu adoro é ingrato, mas não é difícil. O riso dela e o sentido de humor que partilhamos. A minha irmã é, muitas vezes, a única pessoa que se ri das mesmas coisas que eu. É a única que vai às lágrimas, de tanto rir, comigo, porque achamos piada às mesmíssimas coisas. Eu adoro esses momentos em que achamos que encontramos uma coisa hilariante, em que nos rimos como umas perdidas, e quando partilhamos com alguém, a reação não acompanha a nossa. É como se este sentido piadético fosse uma coisa só nossa, uma linguagem que somente nós partilhamos e eu adoro isso nela. 

19
Ago20

Apesar de tudo ...

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Ontem, quando já tinha desligado a luz e me preparava para adormecer, recebi uma mensagem do meu pai a desejar-me boa noite. Todas as noites, desde que saiu oficialmente de casa, me envia uma mensagem de boas noites, com direito a coração. E todas as noites eu olho para aquela mensagem e penso "apesar de tudo ...". 

Apesar de não sermos mais a família que eu tanto adorava e que desejaria que para sempre fossemos, continuo a ter o amor incondicional e presente dos meus pais. Cada um deles, à sua maneira, continua a ser uma fonte de amor, segurança e conforto. Perdi uma família, mas não perdi os meus pais. Eles, sobretudo a minha mãe, perderam muito mais do que eu. Eu perdi uma estrutura e uma configuração, mas permaneceram os laços, o amor continua ali, disponível para mim. 

Apesar de não vivermos juntos, continuo a ver o meu pai todos os dias. Ele faz questão de me ligar de manhã a desejar um bom dia e todas as noites me embala com uma mensagem. Talvez até o sinta mais presente agora do que quando morávamos debaixo do mesmo tecto e praticávamos horários e rotinas tão diferentes que, muitas vezes, só o ouvia chegar e isso era tudo que sabia dele. 

Apesar de tudo o que nos aconteceu, sobrevivemos e estamos a começar a aprender a viver. Percebemos que nos momentos difíceis, as pessoas fogem-nos. Se há coisa que esta experiência me ensinou foi que as pessoas têm muita dificuldade em lidar com as dores alheias. Talvez por não saberem o que dizer e como agir, optam por se afastar, acreditando que as coisas, com o seu tempo, encontrarão o seu rumo. É verdade, o tempo ajuda a sarar algumas feridas, mas há muito trabalho que temos de ser nós mesmos a fazer. Por vezes, fraquejámos e precisamos que alguém nos incentive a regressar ao caminho. Ainda não entenderam que, muitas vezes, não queremos respostas para as questões que levantamos. Apenas queremos que nos ouçam e entendam a inquietação que se esconde nas entrelinhas das nossas perguntas retóricas. É nestes momentos que conhecemos as pessoas com quem podemos contar. Percebi que estávamos muito sozinhos, mas que, na verdade, não são precisos muitos, desde que os poucos sejam bons. 

Apesar de tudo, e de esta situação nunca ser desejada, podemos ser felizes. Apesar de tudo que nos foi roubado, há tanto que ainda temos. 

13
Ago20

#4 Self-care Journal: Imagine you're on a relaxing walk on a perfect warm day and describe every detail.

girl

Era o aniversário da minha mãe e o universo decidiu oferecer-lhe como prenda um dia solarengo maravilhoso. Soube que seria um dia bom assim que os raios de sol me despertaram, entrando pelas frinchas teimosas das velhas persianas. Estava decidido: aquele sol não seria desperdiçado. 

Chegamos à praia mais rápido do que a velocidade da luz. Mas não iríamos fazer praia. Não, os nossos planos eram outros. Percorreríamos um dos trilhos mais bonitos que alguma vez conheci, onde o oceano e a terra se abraçam e nunca mais se largam. Naquele dia, éramos um trio de exploradores: eu, a minha mãe e o mar. 

Iniciamos o nosso percurso e foram as flores que captaram a minha atenção. Numa subida particularmente exigente, a minha atenção era toda dirigida às flores que nos cercavam. Amarelas, laranjas, violetas. Acabadinhas de acordar, não fosse primavera! Para onde quer que os meus olhos se dirigissem, apenas via rasgos de cor. A minha mãe olhava para o mesmo cenário e sentia o mesmo encanto. Quando nos apercebemos, já estávamos no topo da colina e o caminho até lá chegar fora passado a admirar o arco-irís em terra. 

Seguimos a direito, numa zona alta, onde se situam diversos moinhos e, mais adiante, um farol. Ao nosso lado, sempre o mar, tranquilo e apaziguante. Os cristais brilhantes provocados pelo reflexo do sol na água será sempre uma das coisas maravilhosas da vida. Continuamos a caminhar, entre conversas de mãe e filha, conversas que aproximam e aquecem, quando chegamos a um desfiladeiro. Descendo, a sentir o sol queimar a pele e a brisa marítima a empurrar o corpo, fomos ter a uma praia. 

A minha mãe, apaixonada pelo areal, quis continuar a caminhada com os pés bem assentes na areia. Fiz-lhe a vontade (afinal, o dia era seu!) e caminhamos, sem destino, pela praia, à descoberta. Não sei quanto a vocês, mas sempre que piso a areia e ouço o mar, sinto uma paz que me domina. É um local sagrado. Os meus olhos percorrem atentamente o areal em busca de conchas e búzios, completamente maravilhados com a arte da natureza. 

De repente, abre-se um caminho diante de nós. Parece-nos convidativo e optamos por abandonar a praia e seguir aquele trilho. O som das ondas torna-se cada vez mais distante à medida que entramos na floresta. As árvores, altas e esguias, protegem-nos do calor do sol. A sua elegância e porte fascina-me. Afinal, as árvores morrem de pé. Não haverá, creio, nada mais digno. A sombra por elas provocada permite-nos refrescar. Naquele paraíso verde, ouvimos os pássaros em melodias entre-cruzadas. Respiro fundo e o ar parece mais puro e fresco. Torno a sentir-me em paz. Uma tranquilidade que só a natureza é capaz de proporcionar. Um conforto que cheira e sabe a casa. Um lugar de pertença. 

No meio da floresta, ouve-se um riacho a correr. Parece uma cena mística e mágica, retirada de um livro de contos. Olho para a minha mãe e sorrio. Ela está tão maravilhada quanto eu. Está feliz. Estamos em sintonia. Sei e sinto que aquela caminhada foi o melhor presente que lhe poderia ter oferecido. Um pedaço de natureza e paz podem saber pela vida quando tudo nos parece poluído e tóxico. 

O sol torna a romper, entre as copas das árvores, e começo a avistar o fim do nosso trilho. Não sou a mesma que era no seu começo. Algures entre o mar e a terra, entre as flores e as árvores, deixei angústias, dores e anseios. Sinto-me viva, renascida, plena. E, ao ver o sorriso da minha mãe, sinto-me feliz e grata. 

10
Ago20

#1 Self-care Journal: What is your favorite book of all time and why?

girl

Quando quero escrever, mas não sei exatamente acerca de que assunto, gosto de me inspirar em desafios. No ano passado, dediquei-me ao dos 30 dias de escrita e se no início pensei que seria uma excelente forma de explorar a escrita criativa e dar asas à imaginação, rapidamente percebi que cada uma daquelas 30 ideias de escrita servia o propósito de me por a reflectir e resignificar momentos e memórias. 

Pelo bem que me fez e pela quantidade de gavetas mentais que ordenei, achei que estava no momento de me entregar a algo do género. Desta vez, são 100 questões que visam o autocuidado e, claro, o autoconhecimento. 

A primeira questão é:

What is your favorite book of all time and why?

Eu considero sempre perto do impossível a ideia de escolher um livro favorito, assim como não sou capaz de escolher o melhor filme que já vi ou uma música favorita. A verdade é que não tenho apenas um, mas vários livros (e filmes, músicas, bandas, etc.) que ocupam um lugar especial no meu coração e, como tal, é ingrato selecionar apenas um. Até porque eu leio diferentes estilos literários e dentro de uma categoria poderá haver um que se destaque mais, mas no todo dos livros da minha vida, poderá ficar esquecido.
Por isso, vou optar por responder a esta questão guiando-me pelo livro que me surgiu de imediato na memória. Não será, seguramente, o melhor livro que já li, nem aquele que mais me impactou, mas é, sem dúvida, um dos livros que marca a minha vida. Falo-vos de A Lua de Joana de Maria Teresa Gonzalez.
Perdi a conta ao número de vezes que o li, mas posso assegurar que a cada leitura, me toca mais e mais. Este é um livro clássico, que li no inicio da minha adolescência e que me fez questionar.

Começou por me fazer questionar acerca do final, não por se tratar de um fim aberto, mas por não nos ser dado de forma direta. Na primeira vez que o li, passei os dias seguintes a tentar digeri-lo, questionando todos os meus colegas de escola se tinham compreendido o mesmo final que eu havia entendido. Queria certificar-me de que aquele desfecho trágico era real, porque não conseguia acreditar que algo tão triste pudesse acontecer a uma pessoa tão jovem, tão semelhante a mim e aos meus pares. Levou-me a questionar sobre a facilidade com que nos perdemos do nosso rumo e sobre a forma como podemos estar rodeados de gente e, ainda assim, nos sentirmos completamente sozinhos e abandonados. Fez-me pensar na invisibilidade e no modo como passamos tantas vezes despercebidos aos outros. Às vezes forçamo-nos a usar uma máscara que esconde toda a nossa dor, outras vezes nem precisamos de o fazer, porque o mundo anda tão rápido e as pessoas estão tão mergulhadas nas suas vidas e problemas, que não reparam nas dores que os outros carregam.
Mas o que mais me marcou e que ainda hoje trago comigo é aquele final, aquele pai, perdido na perda, de relógio na mão, entregue à triste e dura descoberta de que agora tinha todo o tempo do mundo, mas para quê? O melhor presente que podemos dar às pessoas que amamos é o nosso tempo, pois este tempo é, de igual modo, o nosso bem mais precioso. Escolhemos dar o nosso tempo sempre que escutamos, em vez de ouvir; sempre que vemos, em vez de olhar. Uma conversa real, em que ambas as partes se ouvem atentamente, se sentem compreendidas e abraçadas, vale mais do que qualquer bem material, por maior que seja o seu valor. Quando só restava a lua de Joana, o seu pai compreendeu que aquela tatuagem, com o relógio parado, traduzia um poderoso e gritante pedido, assente numa grande e cruel solidão.
Talvez por me ter marcado tanto e ainda estar tão presente em mim, mesmo depois de tantos anos, este livro será sempre um dos livros da minha existência. É de uma escrita tão simples e deliciosa, que nos envolve e prende. É de uma riqueza tão grande e alerta - tanto adolescentes como pais - para a forma débil e confusa como comunicamos. Tudo é comunicação, tudo é uma forma, um veículo de transmitir um pedido, uma mensagem. É preciso estarmos atentos uns aos outros, pois esta atenção é, também ela, uma forma de expressarmos todo o nosso amor.

29
Jul20

surrender

girl

No dia em que me ligaram a confirmar a minha disponibilidade para o novo desafio que me tinha sido proposto, eu tinha acabado de fazer uma meditação guiada da Sarah Blondin, chamada Learning to Surrender.

Antes de avançar, quero apenas dizer-vos que a Sarah é, provavelmente, das melhores "professoras" de meditação que poderão encontrar. Todas as meditações dela são mágicas, a Sarah tem uma presença que emana tranquilidade e paz. Por isso, fica aqui o meu conselho para a irem pesquisar no Insight Timer, estou certa de que não se arrependerão. 

Retomando. Learning to Surrender. Surrender pode ser traduzido como rendição, entrega. Para mim, como tenho vindo a escrever, a capacidade de entrega, de deixar fluir, é uma aprendizagem contínua, porque toca na minha maior necessidade, que é a de controlo. Controlo e entrega não são compatíveis. Do mesmo modo que controlo e vida também não o são. Na verdade, há pouquíssimas, raras coisas que podemos controlar nesta nossa existência. Podemos controlar os nossos pensamentos (ou, pelo menos, a influência que estes têm sobre nós), os nossos comportamentos e emoções. Podemos controlar a forma como reagimos ao que nos acontece, mas nunca seremos capaz de controlar o que nos acontece. As alegrias e infelicidades da vida não são, muitas vezes, selecionadas por nós. Apenas nos resta ser capazes de lidar com elas da melhor forma possível, do modo que temos disponível naquele momento para enfrentar aquela situação. 

Hoje é o segundo aniversário da morte da minha família como sempre a conheci. Da família onde cresci, onde fui e fomos imensamente felizes. Não escolhi este desfecho, simplesmente aconteceu. Veio bater-me à porta, com uma força e urgência de quem não pede permissão para entrar. Gosto de pensar que tudo o que nos acontece tem o poder de nos transformar. Que tudo pode ser um presente. Mesmo que não venha embrulhado num papel colorido e seja apetecível. Na verdade, há oportunidades únicas de mudança que nunca olharemos como positivas, mas saberemos sempre que foram necessárias para o nosso crescimento. Esta é uma delas. Dificilmente olharei para este acontecimento como positivo, mas consigo extrair dele valiosas aprendizagens. Uma delas é precisamente sobre ser capaz de me render à vida. Aceitar tudo - o bom e o mau - resistindo cada vez menos à mudança. 

Quando me telefonaram, tinha acabado de ouvir a Sarah a dizer que entrega não é o mesmo que desistência. Não é algo passivo. Entrega é sermos capazes de fluir com a vida, de a seguirmos como a água segue o curso natural do rio, que segue o seu caminho ao oceano, fundindo-se num só. É sobre desconstruir resistências, porque tudo aquilo ao qual resistimos, apenas persistirá, como Jung nos ensinou. É sobre compreender, com a mente e o coração, de que o controlo é uma ilusão, de que quando deixamos de ter essa necessidade, podemos estar abertos, curiosos e disponíveis para todas as oportunidades que a vida tem para nós. A meditação acabou, eu ainda estava enfeitiçada por estas palavras mágicas, quando o telefone tocou e me fizeram a proposta oficial. Eu sei que ultimamente tenho falado muito acerca de sinais, mas naquele momento, não fui capaz de ignorar a mensagem. Quando nos propomos a abraçar a vida, com tudo que esta tem para nos oferecer, as coisas simplesmente acontecem. No meu caso, tive esta prenda, mas não me enganei, este é um presente que traz consigo uma dose enorme de desafio e crescimento, como vos tenho contado. Deixou-me muito feliz, mas rapidamente percebi que ia estremecer com todas as minhas inseguranças e defesas. A vida não tira sem nos dar nada em retorno, do mesmo modo que não nos dá, sem nos tirar algo também. É um fluxo contínuo, que não podemos contrariar. 

Por isso, escolho olhar para o dia de hoje como uma oportunidade de recomeço. De renovar pensamentos, de me desfazer de crenças e medos que não me acrescentam, apenas consomem. Somos responsáveis pela nossa vida e, como tal, pela nossa felicidade. Que nos esqueçamos de que somos detentores desse poder e, como tal, dessa responsabilidade. 

23
Jun20

quem fui, quem sou

girl

Naquela semana mítica e inesquecível de dois feriados seguidos, aproveitei para remodelar o meu quarto. Claro que não o poderia fazer sem a ajuda da minha mãe, que adora todo e qualquer tipo de atividade que envolva decoração e remodelação. O que começou por ser apenas um projeto de quarto rapidamente se estendeu a outras divisões da casa, em que, a dado momento, já era tanta a confusão instalada que nos fez pensar “porque é que nos metemos nisto?”. Conhecem esta sensação de arrependimento quando olham para o caos instalado à vossa volta? Tudo desarrumado, não sabem onde começa e termina a bagunça? A sorte é que tanto eu como a minha mãe nos guiamos pela velha, mas sábia, máxima de Nelson Mandela, em que tudo parece impossível até estar feito. Por isso, deitamos as mãos ao trabalho e o que deveria ser um feriado transformou-se num dia de muito trabalho, em que as únicas pausas que fizemos foi para comer qualquer coisa.

No meio deste projeto, encontramos um baú, mais antigo do que eu, onde guardamos todos os álbuns de fotografias. Sim, eu ainda sou da geração foto, em que toda a gente andava de máquina fotográfica e rolos na mão para, a seguir, ir a correr ao fotografo revelar as fotos, não sabendo ao certo o que encontraria nelas. E sou da geração primeira filha, o que significa que, como novidade da casa, tudo era digno de ser eternizado. Podem imaginar a quantidade astronómica de fotografias da minha pessoa, nas mais variadas posições e atividades, em todas as estações do ano e festividades. Começamos a abrir álbum a álbum, embarcando numa viagem pelo tempo, até a um passado distante, mas que, por vezes, parece tão próximo. Ri-me muito a ver todas aquelas fotografias, em muitas delas apareciam os meus avós, que saudades deles. Que saudades dos meus velhinhos, já na altura velhinhos, acho que para mim sempre o foram. Aquelas fotos fizeram-me sentir tão amada. Tão desejada, tão querida. Fui uma criança imensamente feliz e aquelas fotografias comprovam-no. E acho que essa felicidade advém pura e simplesmente de todo o amor que sempre recebi. Dos meus pais, tios, avós, primos. Fui uma criança muito amada e adorada, o que me transformou numa criança com um sorriso do tamanho do mundo. A minha mãe conta-me muitas vezes que as pessoas passavam por mim na rua e diziam-lhe: a sua filha é uma criança tão feliz.

Acho que foi um dos traços que nunca perdi, assim como a minha criança interior. Nunca perdi a alegria espontânea e o sorriso fácil. Muitas vezes dou por mim a sorrir sozinha, a sentir-me feliz simplesmente por existir, por cá estar. Sempre que passo num espelho e vejo o meu reflexo, ofereço-me um sorriso. Não conheço em detalhe o meu rosto sem ser com um sorriso espetado. Não sei ser séria, nunca soube. Nunca consegui esconder emoções, nunca soube mentir, sou transparente como a água.

Olhar para aquelas fotografias fez-me sentir grata. Sei que a minha família mudou e já não somos aquele grupo unido e indestrutível. Já não somos uma única unidade, mas sim quatro pessoas distintas, que coabitam debaixo do mesmo teto. Ainda assim, o meu berço, os meus alicerces foram construídos no seio de uma felicidade inesgotável. Cresci com união e amor, são os valores que reconheço sem qualquer dúvida. Por isso, apesar de tudo se ter perdido, desmantelado, não deixo de me sentir grata por ter acontecido agora, quando já sou uma adulta formada. Agora que tenho outros recursos e maturidade para compreender as coisas como são. Sinto-me grata pela família que outrora tive. E conheço a aprender a sentir-me grata pela que tenho presentemente. Porque a verdade é que, juntos ou não, tenho os meus pais e sei que posso contar sempre com eles para tudo. Os meus pais separaram-se, mas nunca, nem por um segundo, deixaram de ser meus pais. E eu continuo a ser filha, embora, por vezes, me sinta mãe deles. Mas continuo a saber, inconsciente e conscientemente, de que eles nunca me falharão enquanto cá estiverem. O amor deles mantém-se intacto.

Começo a perceber que a vida é isto mesmo. Não temos o poder de decisão e escolha em tudo o que nos acontece. As coisas simplesmente batem-nos à porta. Não são, muitas vezes, justas, mas a justiça é um conceito criado por nós, humanos, que é quase utópico. Não há justiça num acidente. Não há justiça numa doença. Não há justiça num divórcio. As coisas acontecem e acontecem-nos. O que podemos fazer é escolher como vamos lidar com elas. Neste momento, prefiro abdicar de sentimentos negativos e lamúrias, para me concentrar na riqueza que tenho. Sei que tenho um longo caminho de “cura” interior para fazer no que diz respeito à minha família. É o meu processo de luto e fá-lo-ei. Aliás, faço-o todos os dias até chegar o dia em que este acontecimento estará de tal modo assimilado e integrado, que será apenas mais um acontecimento, no meio de tantos outros. Mas não quero ser vítima dele. Quero ser a pessoa a quem tal aconteceu, mas que reconstrói a sua narrativa de forma a adaptar mais uma vivência. Quero estar plena e quero aproveitar o melhor dos meus pais, duas pessoas completamente humanas e, como tal, falíveis. Pessoas reais, de carne e osso, que cometem erros, que sofrem, que se perdem, que se desorientam e que precisam de ser cuidadas. Não quero ressentimentos nem angústias, opto antes pelo caminho de aceitar que as coisas são como são e que podemos fazer delas algo incrível se nos propusermos a isso. Escolho perdoar tudo que há para perdoar, não apenas por eles, mas sobretudo por mim.

Porque dentro de mim ainda reside aquela menina travessa, de sorriso muito aberto e pronto para devorar o mundo. O passado não regressa, mas funciona como uma boa lanterna para iluminar o futuro. 

(Vou simplesmente ignorar o meu período de ausência. Sim, não senti vontade de escrever, respeitei essa falta de vontade. Afinal, num mundo com tantas obrigações, escrever ainda não é, para mim, uma delas. Talvez seja por isso que me saiba tanto a liberdade. Espero que todos vocês se encontrem bem!)

13
Mai20

"Decide what to be and go be it"

girl

Desde que me lembro que existem palavras e que aprendi a conjuga-las, escrever sempre foi tão natural para mim como respirar. Ainda guardo as dezenas de diários que escrevi durante a minha infância e adolescência, não pelos tesouros literários que representam, mas por serem provas e evidências da pessoa que fui, outrora.

Quando tive, pela primeira vez, o meu próprio computador e descobri que podia criar um blog e escrever nele, deixei os diários e lancei-me na aventura. Ao longo dos anos já criei e abandonei inúmeros blogs, mas nunca os apaguei, apenas deixei de escrever neles e, de quando a quando, vou revisita-los. Este abandono não se relaciona com o maior ou menor sucesso dos diversos blogs, porque, honestamente, nunca criei um único blog com a expectativa de fazer dele um negócio. Primeiro, não acredito ter o talento suficiente para tal e, segundo, escrevo para mim e não a pensar em que me estará a ler. Na maior parte dos textos, até me posso dirigir a um público invisível, através das minhas palavras, mas não o faço acreditando que do outro lado estão realmente pessoas a ler. Faço-o como um exercício de escrita, uma forma de me expressar mais facilmente.
Na semana passada, revisitei um blog que escrevi enquanto ainda era estudante universitária e a minha vida era totalmente diferente. Diverti-me a ler-me, porque aquela rapariga era tão leve, tão solta e tinha tanta energia. Escrevia sobre as coisas boas da vida, não havia espaço para amarguras, embora, claro, também existissem. Senti tantas saudades de mim, daquele eu que já fui e se perdeu pelo caminho. Aquela rapariga romântica, que acreditava nos finais felizes, que não tinha medo. Acima de tudo, sinto saudades disso: de ser destemida.
Claro que hoje compreendo que a minha ausência de medo advinha, em grande parte, por ainda não ter vivido nada verdadeiramente assustador e que faz com que a vida estremeça e tudo se quebre. No fundo, era uma rapariga inocente. Lírica, como a minha mãe gostava de me chamar. Não se passaram assim tantos anos desde que escrevia naquele blog, mas a mudança foi tão grande, que não me consigo reencontrar naquela rapariga de vinte e poucos anos, que escrevia sobre os dramas da faculdade e acordava todos os dias com um sorriso no rosto pela vida que tinha.
Tive a mesma sensação há dias, enquanto olhava para uma parede do meu quarto, que está repleta de fotografias. Algumas são mais atuais, da minha "nova" vida, mas a maioria delas são anteriores a tudo o que aconteceu. Sentei-me na cama a olhar para cada uma daquelas fotografias, a olhar para mim eternizada naquele momento e é uma experiência muito estranha, quase como uma dissociação. Onde está aquela pessoa? Lá vem novamente esta pergunta e eu não sei responder. Não sei o que me aconteceu, mas sinto saudades de mim. Neste processo de perda e luto, nunca parei para fazer o luto de mim mesma. Tenho feito o luto da família que se desmoronou, mas não tenho deixado espaço para chorar a minha própria perda. Tenho percebido que gostava muito mais de mim do que imaginava, naquela altura. Não que tenha deixado de gostar, mas ainda estou a conhecer a nova pessoa que nasceu no lugar da que se perdeu. É como o início de uma relação. Pode ser que se transforme num amor para a vida toda. Ou não.
Talvez tenha de seguir o conselho de Sócrates e investir mais energia em construir o novo, em vez de lutar contra o passado. Mas não consigo deixar de sentir que é importante revisitar o meu passado, quem fui, para saber quem quero ser. Porque há erros que não pretendo repetir, há caminhos que não seguirei, mas, acima de tudo, há coisas que quero manter e preservar. Quero manter intacta a minha leveza, a minha luz, a minha energia romântica e positiva. Quero, agora sim, depois de algo assustador me ter acontecido, ser destemida. Porque, desta vez, não serei destemida por não ter medo, mas sim por ter ganho coragem.

25
Mar20

my little sister

girl

Dou comigo a pensar nas coisas positivas que podemos retirar desta situação que todos nós nos encontramos. Ainda que estejemos a vivê-la de forma diferente, porque uns estão em isolamento em casa, outros continuam a trabalhar e há aqueles, ainda, que estão doentes, acho que é comum a todos o sentimento de angústia, de ansiedade, de incerteza. Perante um cenário que não se promete colorido e otimista, torna-se, a meu ver, imperativo arranjar estratégias que nos ajudem a viver estes dias com a maior tranquilidade possível.
Por isso, vai daí, que comecei a pensar e uma das coisas positivas que surgiu no topo da minha lista foi a possibilidade de passar mais tempo com a minha irmã. E depois apercebi-me que poucas (ou nenhumas) vezes escrevi sobre ela e isso é uma falha enorme da minha parte, porque a minha irmã é das pessoas mais especiais da minha vida. É aquela pessoa com quem posso não falar uma semana, mas quando falo é como se nada se tivesse alterado. É das poucas pessoas neste mundo com quem me sinto à vontade com a ideia de ser eu mesma e com quem posso realmente sê-lo. Não existem vergonhas nem embaraços entre nós e essa é uma condição que só atingi, nesta vida, com escassas pessoas, que se podem contar pelos dedos de uma só mão. Posso estar à beira de um colapso emocional, mas quando estou perante a minha irmã, assumo o meu lado mais sereno e protetor, como se nada no mundo fosse realmente importante ou grave. Porque, na verdade, quando o objetivo é vê-la calma, nada mais importa.
A minha irmã é um ser humano incrível. Tem sido uma aventura vê-la crescer e transformar-se na pessoa que é hoje. No entanto, confesso sentir saudades de quando éramos, ambas, meras crianças, que passavam horas a brincar ao faz de conta, tão entretidas no nosso mundo imaginário que o tempo passava por nós e nós não dávamos por ele. O tempo passou e tornou a passar, hoje somos duas jovens adultas, que já não brincamos ao faz de conta, é certo, mas não deixamos de brincar. Somos estupidamente parvas, irritamo-nos mutuamente, mas sabemos que tudo aquilo que nos une é muito mais forte do que qualquer coisa que nos separasse.
Por isso, passar mais tempo com ela só pode ser compreendido como uma bênção. Porque a verdade é que crescemos e com o amadurecimento vem também um afastamento inevitável, as nossas vidas nunca deixam de se cruzar, mas passam-se os dias e nós vamos deixando cada vez mais de fazer parte dos dias uma da outra. Perdem-se momentos simples que, com esta situação, estamos a recuperar. É uma alegria chegar a casa e tê-la presente, disponível. É confortante partilharmos o nosso dia uma com a outra, estarmos juntas depois do jantar nas nossas atividades de sempre.

É simplesmente bom. É uma coisa maravilhosa da vida. A minha irmã.