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the old soul girl

the old soul girl

06
Out20

happy birthday

girl

Hoje este blog faz um ano de existência. Não acredito que já se passou um ano e que, mesmo com algumas irregularidades e inconsistências, fui capaz de escrever pelo menos uma vez nestes doze meses. Por acaso (ou não), este fim de semana prolongado andei a reler os meus cadernos/diários e maravilhei-me com os meus registos. É engraçado ler acerca de coisas que já aconteceram há muito tempo e ver quais eram os meus pensamentos e a minha visão naquela época e comparar com a atualidade. Foi também doloroso confrontar-me com algumas passagens, sobretudo aquelas que contrastam muito com a pessoa em que me transformei e com a realidade em que vivo.
Percebi que me tornei uma pessoa mais fria, mais desligada e distante das pessoas. Tornei-me menos inocente, mais densa e ainda mais complexa. Amadureci e, se num texto escrevia acerca de sentir que vivia numa redoma, numa espécie de bolha protegida que não sabia quando ia arrebentar, hoje sei esse dia com precisão e conheço a realidade dentro e fora da tal bolha. Ao mesmo tempo, há muito de mim que se manteve intacto. Continuo a ser uma pessoa agradecida, naturalmente feliz pelo simples facto de existir e acordar mais um dia para esta aventura. Permaneço com as mesmas questões e desafios, acabando sempre com a mesma assinatura de esperança e positividade.
E, se há algo que nunca se altera, é o facto de encontrar na escrita a minha terapia. É no meio das palavras que me expresso e me encontro, que me organizo e recentro. Sempre assim foi, creio que sempre assim será. Este blog confirma-o.
A todos vocês que me leem, que me deixam as vossas palavras, o meu enorme obrigada. São vocês que acrescentam vida a este caderno digital.

19
Ago20

vulnerabilidade

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“Vulnerability is the birthplace of love, belonging, joy, courage, empathy, and creativity. It is the source of hope, empathy, accountability, and authenticity. If we want greater clarity in our purpose or deeper and more meaningful spiritual lives, vulnerability is the path.” - Brené Brown

A meditação de hoje foi sobre vulnerabilidade como forma de autocuidado. Ser vulnerável é uma das missões impossíveis na minha vida. Sabem aquele conjunto de crenças parvas que carregam convosco, mesmo tendo a perfeita noção de que não vos servem de forma alguma, apenas vos pesam? É como eu me sinto em relação a ser vulnerável. Não me permito sê-lo, embora conviva com conforto e tranquilidade com a vulnerabilidade dos outros. Faz algum sentido? Eu sei: nenhum

Com esta meditação, fui levada a refletir acerca do significado que atribuo a ser vulnerável e o que me impede de o ser. O que procuro evitar quando escondo dos outros as minhas angústias, ansiedades e medos? O que diz isso acerca de mim?

Para mim, ser vulnerável é sermos capazes de dizer, sem medos, o que vai dentro de nós, sobretudo quando são coisas menos boas ou difíceis. É uma nudez emocional, é sermos quem somos por inteiro, sem recear o que os outros vão pensar ou se vão gostar de nós. É abrir as portas da nossa alma e convidar os outros a conhecer os nossos recônditos, sobretudo os mais obscuros. É ser visto e estar confortável debaixo da luz dessa atenção. É assumir que não somos perfeitos e inquebráveis. Um assumir que não é lógico, porque cognitivamente todos sabemos que não somos perfeitos; mas emocionalmente, nem sempre compreendemos que essa perfeição é impossível. Digo, muitas vezes, que o meu coração e a minha cabeça tem de andar a ritmos semelhantes para as coisas me fazerem sentido. O que entendo com a mente, nem sempre aceito no coração. 

Então, porque me custa tanto deixar-me ser vista pelos outros? Acho que não me sinto confortável com a atenção. Não gosto de ser notada, nunca gostei. Sempre me senti muito envergonhada quando, de repente, os olhos se voltam para mim e todos esperam algo de mim. Mas acho que também receio mostrar-me ao mundo, tal como sou, e a reação ser negativa. Tenho medo de não ser aceite pelo que sou, embora saiba que ser aceite por algo que não sou não tem qualquer valor. É como se o meu núcleo central fosse tão precioso para mim, tão frágil, que tenho receio do que possa acontecer se o trouxer à luz para todos verem. 

Ser vulnerável implica ser capaz de pedir ajuda quando precisamos. Não é uma questão de "se precisarmos", é mesmo "quando", porque todos precisamos uns dos outros, nem que seja num momento da nossa vida. Nem sempre tive dificuldade em desabafar, até era algo que quando era mais nova fazia sem esforço. Mas à medida que fui crescendo, as defesas e resistências foram crescendo, comecei a sentir que não valia a pena estar a partilhar as minhas coisas com o mundo. Para quê? Vou chatear alguém e vou chatear-me a mim mesma, por ter de estar a repetir o que já sei. Mas depois, quando, esporadicamente, o faço com alguém próximo, parece que não sei falar, porque não falo, despejo informação. Começando a falar, não consigo parar a torrente de emoções e pensamentos e ideias que tenho. Nesses momentos, apercebo-me que tenho mais necessidade de me abrir com os outros do que quero assumir. Acima de tudo, tomo consciência do bem e da falta que tal me faz.

Olho para a minha situação familiar. Estamos a viver este drama há dois anos. Sabem a quantas pessoas fui capaz de contar o que se passa na minha vida? Apenas a uma. O meu namorado não conta, porque não precisei de lhe dizer nada, ele esteve sempre lá, desde o começo, assistiu a tudo sem precisar que eu o pusesse a par de alguma coisa. Apenas fui capaz de contar a minha história a uma pessoa. Não tenho mais pessoas na minha vida confiáveis, com quem poderia partilhar? Tenho. Lembro-me, de imediato, de mais três ou quatro pessoas a quem gostaria de contar. Mas não o consigo fazer. Não consigo correr o risco. Como é que começaria? E porquê agora? Passados dois anos? Como é que lidaria com a sua abordagem ao meu problema? Sinto vergonha. Uma vergonha que me paraliza, que me faz querer esconder e não ser vista. Para mim, a dificuldade de ser vulnerável é mesmo essa: ser vista. 

Mas o que temo que os outros vejam? Porque é que é tão fácil para mim ajudar alguém, mas tão difícil pedir ajuda quando sou eu que estou a necessitar? Porque é que eu sei que ser vulnerável não tem nada a ver com ser fraco mas, quando penso sê-lo, sinto-o como fraqueza? Porque é que tenho tanto receio de me mostrar ao mundo, mas gosto tanto quando vejo outras pessoas fazê-lo, sem amarras? 

Sei que perco muito quando me fecho na minha prisão interior. A vulnerabilidade é o caminho. É a irmã gémea da autenticidade e da verdade. Lembro-me muitas vezes de um episódio sobre o qual já escrevi, em que desabei num choro incontrolável, num grupo que esperava ouvir a minha resposta. Aquele dia, em que nenhuma defesa estava activa, foi o dia chave para fechar o luto da minha avó. Só foi possível concluir esse capítulo e integrar essa experiência quando libertei com a carga emocional que trazia comigo. Porque os significados, as reformulações, os pensamentos já estavam todos alinhados, mas faltava-me a expressão emocional. Em palavras simples: faltava-me chorar e sentir aquela dor toda. Aquele momento de vulnerabilidade, ainda hoje quando penso nele, me arrepia. Não era eu ali e, ao mesmo tempo, estava ali tudo que sou. Só ganhei com aquela experiência e, mesmo assim, não consegui ainda ser capaz de tornar a repetir. 

É por isso que esta é a minha missão impossível. Não é impossível, na verdade, mas é a minha missão. É o meu desafio. E mexe com muitas outras variáveis que só começo agora a conhecer e combinar. Mas o caminho é por aqui. 

11
Ago20

#2 Self-care Journal: Write down your top 5 favorite inspirational quotes

girl

1. Carpe Diem: Seize the Day
De acordo com a Wikipédia, carpe diem é parte de uma frase latina carpe diem quam minimum credula postero (aproveita o dia e confia o mínimo possível no amanhã) da autoria de Horácio. Para mim, será sempre lembrada como uma das maiores lições que aprendi com o Captain! do Clube dos Poetas Mortos, um dos melhores e mais incríveis filmes de todos os tempos. Recorro muitas vezes a este mantra, faz-me desfrutar mais do momento presente, focando a minha atenção naquilo que é importante. Faz-me sentir grata por estar viva e, simultaneamente, que devo agarrar essa oportunidade e bênção, aproveitando cada segundo.

 

2. Just keep swimming
A primeira vez que ouvi esta frase foi no filme À procura de Nemo, pela autoria de Dory, a peixinha azul com uma memória muito reduzida. Dory dizia que perante os problemas que nos parecem afundar, o que podemos fazer é continuar a nadar, nunca desistindo de chegar à tona. No entanto, esta frase ganhou ainda mais importância para mim quando li o Isto aqui aqui de Colleen Hoover. Escrevi acerca deste livro, pela forma como me marcou, e esta frase tem estado no fundo do meu telemóvel desde esse dia. Era o lema que guiava Lily e Atlas e passou a guiar-me também a mim. Porque por maior que seja a tempestade, não podemos desistir, não podemos deixar de tentar. Não há mal que para sempre dure. Esta frase motiva-me a continuar, a manter-me em movimento, a nunca baixar os braços perante as adversidades que se cruzam no meu caminho.

 

3. Tudo o que construímos como problemas, não podemos reconstruir como soluções?
Esta é uma das frases que me acompanha há muito tempo, desde os tempos da faculdade. Li-a numa livro sobre construtivismo e, naquele imediato momento, apressei-me a escreve-la num post-it e a cola-la no meu quadro de cortiça. Queria que estivesse bem presente para que todos os dias a pudesse ler e me inspirar. Já se passaram anos e esta frase continua a ser um farol que me ilumina. Resume não só a minha forma de estar na vida como a forma como olho para ela. Nada é puramente negativo, tudo pode ser resignificado e tudo constitui uma fonte de aprendizagem.

 

4. Tudo parece impossível até estar feito.
Uma frase de Nelson Mandela que me acompanha sempre e que me inspira tanto perante desafios, dificuldades, tarefas e situações penosas. Lembro-me de estar a escrever a minha tese de mestrado e me amarrar a este lema como se fosse oxigénio. Em todos os momentos críticos da minha vida, que exigem esforço e uma recompensa que não é imediata, guio-me por esta frase. O que hoje é difícil e impossível de alcançar, amanhã tornar-se-á mais fácil e estará menos distante. Porque tudo é um processo, em constante movimento, que nos aproxima sempre mais um bocadinho da nossa meta.

 

5. Para ser grande, sê inteiro/ Põe quanto és, no mínimo que fazes.
Para terminar, um lema da autoria de Ricardo Reis que, se na altura que eu estava a estudar Fernando Pessoa me parecia o heterónimo mais enfadonho, hoje parece-me um dos mais sábios. Este é não apenas o meu lema de vida, como a definição mais básica que posso dar a alguém acerca da minha pessoa. Concilia tudo aquilo em que acredito: a dedicação, a determinação, o fazer as coisas com alma e coração independentemente de as coisas serem pequenas ou grandes, para uma ou muitas pessoas. Desde que me conheço que acredito que o esforço, o trabalho e a dedicação nos levam longe, mesmo que não nos levem necessariamente mais rápido. Todas as grandes conquistas da minha vida foram alcançadas com este mote bem presente.

29
Jul20

surrender

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No dia em que me ligaram a confirmar a minha disponibilidade para o novo desafio que me tinha sido proposto, eu tinha acabado de fazer uma meditação guiada da Sarah Blondin, chamada Learning to Surrender.

Antes de avançar, quero apenas dizer-vos que a Sarah é, provavelmente, das melhores "professoras" de meditação que poderão encontrar. Todas as meditações dela são mágicas, a Sarah tem uma presença que emana tranquilidade e paz. Por isso, fica aqui o meu conselho para a irem pesquisar no Insight Timer, estou certa de que não se arrependerão. 

Retomando. Learning to Surrender. Surrender pode ser traduzido como rendição, entrega. Para mim, como tenho vindo a escrever, a capacidade de entrega, de deixar fluir, é uma aprendizagem contínua, porque toca na minha maior necessidade, que é a de controlo. Controlo e entrega não são compatíveis. Do mesmo modo que controlo e vida também não o são. Na verdade, há pouquíssimas, raras coisas que podemos controlar nesta nossa existência. Podemos controlar os nossos pensamentos (ou, pelo menos, a influência que estes têm sobre nós), os nossos comportamentos e emoções. Podemos controlar a forma como reagimos ao que nos acontece, mas nunca seremos capaz de controlar o que nos acontece. As alegrias e infelicidades da vida não são, muitas vezes, selecionadas por nós. Apenas nos resta ser capazes de lidar com elas da melhor forma possível, do modo que temos disponível naquele momento para enfrentar aquela situação. 

Hoje é o segundo aniversário da morte da minha família como sempre a conheci. Da família onde cresci, onde fui e fomos imensamente felizes. Não escolhi este desfecho, simplesmente aconteceu. Veio bater-me à porta, com uma força e urgência de quem não pede permissão para entrar. Gosto de pensar que tudo o que nos acontece tem o poder de nos transformar. Que tudo pode ser um presente. Mesmo que não venha embrulhado num papel colorido e seja apetecível. Na verdade, há oportunidades únicas de mudança que nunca olharemos como positivas, mas saberemos sempre que foram necessárias para o nosso crescimento. Esta é uma delas. Dificilmente olharei para este acontecimento como positivo, mas consigo extrair dele valiosas aprendizagens. Uma delas é precisamente sobre ser capaz de me render à vida. Aceitar tudo - o bom e o mau - resistindo cada vez menos à mudança. 

Quando me telefonaram, tinha acabado de ouvir a Sarah a dizer que entrega não é o mesmo que desistência. Não é algo passivo. Entrega é sermos capazes de fluir com a vida, de a seguirmos como a água segue o curso natural do rio, que segue o seu caminho ao oceano, fundindo-se num só. É sobre desconstruir resistências, porque tudo aquilo ao qual resistimos, apenas persistirá, como Jung nos ensinou. É sobre compreender, com a mente e o coração, de que o controlo é uma ilusão, de que quando deixamos de ter essa necessidade, podemos estar abertos, curiosos e disponíveis para todas as oportunidades que a vida tem para nós. A meditação acabou, eu ainda estava enfeitiçada por estas palavras mágicas, quando o telefone tocou e me fizeram a proposta oficial. Eu sei que ultimamente tenho falado muito acerca de sinais, mas naquele momento, não fui capaz de ignorar a mensagem. Quando nos propomos a abraçar a vida, com tudo que esta tem para nos oferecer, as coisas simplesmente acontecem. No meu caso, tive esta prenda, mas não me enganei, este é um presente que traz consigo uma dose enorme de desafio e crescimento, como vos tenho contado. Deixou-me muito feliz, mas rapidamente percebi que ia estremecer com todas as minhas inseguranças e defesas. A vida não tira sem nos dar nada em retorno, do mesmo modo que não nos dá, sem nos tirar algo também. É um fluxo contínuo, que não podemos contrariar. 

Por isso, escolho olhar para o dia de hoje como uma oportunidade de recomeço. De renovar pensamentos, de me desfazer de crenças e medos que não me acrescentam, apenas consomem. Somos responsáveis pela nossa vida e, como tal, pela nossa felicidade. Que nos esqueçamos de que somos detentores desse poder e, como tal, dessa responsabilidade. 

28
Jul20

trust

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Os sinais existem e estão presentes, basta estarmos atentos e, talvez o mais importante, estarmos recetivos. Hoje entro no meu computador de trabalho, iniciando sessão e abrindo o google chrome, que me recebe sempre com uma frase inspiradora para começar o dia em pleno. A frase que me abraçou hoje foi a seguinte:

Unless you try to do something beyond what you have already mastered you will never grow. - Ralph Waldo Emerson 

Esta citação resume na perfeição a fase que estou a viver. Estou perante um processo de aprendizagem enorme, que me está a desafiar a todos os níveis. Está a mexer com todos os meus medos e receios, com todas as minhas forças e fragilidades. Tenho momentos de confiança e, a seguir, começo a sentir o medo a espreitar, a aproximar-se e a sussurar-me ao ouvido "será que és mesmo capaz?". Sinto o entusiasmo, a adrenalina de me dedicar a algo que me enche tanto o coração e me faz sentir tão viva, mas, ao mesmo tempo, os velhos receios e os pensamentos negativos explodem diante de mim. Quero focar-me apenas no lado positivo, mas não existe luz sem sombra; esta experiência é um todo e, como tal, é também constituída por momentos de angústia no meio de tantos momentos de alegria e euforia. 

Olho para dentro de mim e vejo dois caminhos. Vejo o velho e conhecido caminho, aquele que me faz sentir segura, mas frustrada; que é reto, plano e não requer grande energia da minha parte para ser percorrido (porque, de tão velho que é, conheço-lhe cada milímetro e percorro-o de olhos fechados). E depois vejo um outro, que não está sequer finalizado, que brilha com muita intensidade, com tanta luz, que me ofusca e faz sentir tonta e desnorteada. É tentador, mas deixa-me apreensiva, o meu estômago enrola-se em si mesmo e sinto a minha garganta contorcer-se num nó cego. Por um lado, quero sentir-me segura e estável; por outro, quero a aventura, o desafio. Quero ambos os caminhos, quero se cruzem e formem um só. 

No fundo, o que eu quero é sentir-me segura nesta nova fase. Quero adquirir a experiência que me faz sentir tranquila e plena, embora, para tal, necessite de percorrer o caminho desconhecido vezes e vezes sem conta até este se tornar familiar. Quero ser grande sem precisar de crescer. Faz algum sentido? Ser sábia sem ter de passar pelas adversidades e lições da vida? 

Sei que esta ânsia é a minha necessidade de controlo a falar. É a minha necessidade de ser bem sucedida, não aos olhos dos outros, mas aos meus. Porque os meus olhos são os mais exigentes de todos. Eu sou a única que não me permito falhar, que não aceito a incerteza, que não normalizo o que é natural. Tenho tanto medo de fracassar, de fazer e dizer a coisa errada, de descobrir que sou uma farsa, uma impostora. No fundo, é como se todo o meu valor dependesse do que sou capaz de alcançar. 

Preciso de abraçar a incerteza com curiosidade; de me permitir errar; de desfrutar mais do processo e desligar-me do resultado final; de viver mais no agora do que nos meus medos imaginários, que apenas pertencem a um futuro longínquo e, muito provavelmente, nunca tornado realidade. 

Estou a crescer e a ser desafiada. Já me tinha esquecido de como é assustador e entusiasmante ao mesmo tempo. Preciso de respirar fundo e aceitar que este processo é mesmo assim. Que estes momentos de incerteza e vontade de desistir fazem parte. É a necessidade de conforto e controlo a gritar, são as resistências a fazer força e pressão. Respiro fundo e sei que, apesar de tudo, nunca conseguirei desistir. Pelo menos não agora. Porque se o fizesse não seria pelos motivos corretos. Não seria por perceber que afinal não é isto que me preenche e não é isto que quero para mim. Seria apenas pelo medo. 

Quando aceitei este desafio, foi com as palavras do meu amor em mente e com o bichinho de felicidade que se instalou no meu coração. Ele disse-me "aceita, nem que seja para perceberes se gostas!". E quando ele me disse estas palavras, tudo fez sentido e percebi que queria muito isto. Queria muito tentar. Mesmo que, para isso, me sinta tão perdida e desorientada tantas vezes. Mas se há característica que faz parte de mim é a persistência. Para ser grande, sê inteiro! Põe quanto és, no mínimo que fazes! Este é o meu lema, é a minha forma de estar na vida e é o modo com que encaro todos os desafios que me são lançados. Talvez seja até desta dedicação que nascem as ramificações do meu medo de fracassar, pois dou tudo de mim, pelo que é inevitável surgir o pensamento "e se, mesmo assim, não for suficiente?". O meu medo é proporcional à quantidade de esforço, energia e dedicação que emprego. Quanto maior é o meu medo, maior é a minha vontade de o ultrapassar. Mas quanto maior é o meu esforço e entrega, maior é a possibilidade de o fracasso ser recebido com angústia e dor. 

Independentemente de tudo, estou consciente de tudo o que estou a sentir e a pensar. Estou consciente de que este é um processo. E comecei este texto a falar de sinais. Comecei a escrever este texto ontem e hoje, quando regressei ao meu rascunho, sabem qual era a frase que me esperava?

Trust the process.

Acho que me resta confiar, certo? Em mim e em que tudo vai dar certo. Seja lá o que for esse certo!

21
Jul20

Life is a gift; experience is the beauty

girl

Passou-se um mês desde que escrevi pela última vez. Não tenho escrito por uma miríade de motivos, desde falta de tempo, de vontade, de assunto, excesso de preguiça, etc e etc. Mas escrever faz parte do meu ADN e, como tal, não posso ignorar a minha natureza. Por isso, cá estou, novamente, na minha casinha digital, pronta para fazer um update dos acontecimentos ocorridos neste mês de ausência.

Considero-me uma pessoa a quem nunca acontece nada realmente interessante de ser partilhado. Não sou, nunca fui, aquele tipo de gente a quem tudo lhe acontece e tem sempre uma história ou novidade para partilhar. Às vezes até penso na minha vida como uma paisagem alentejana, plana e árida, sempre igual por maior que seja o número de quilómetros percorridos. Não que isto me entristeça, porque, como gosto de ver o copo meio cheio, tendo a pensar que ausência de novidades pode muito bem ser sinónimo de ausência de tempestades. 

No entanto, este mês, uma novidade, das boas, veio bater-me à porta. Recebi, inesperadamente, uma proposta para trabalhar na minha área de formação em part-time. Uma proposta que me permite conciliar com o meu trabalho atual, permitindo-me ter o conforto e estabilidade, por um lado, com o desafio, criatividade e paixão, por outro. Quando recebi a proposta, o meu primeiro instinto foi declinar. Típico da minha pessoa, assustei-me, pensei logo que era areia demais para o meu camião e fiquei com medo. Aquela vontade de dizer "não" era o meu medo de falhar a falar por mim. Mas depois, com calma e com o apoio do meu mais que tudo, que me disse "eu aceitava sem pensar duas vezes, não penses, diz já que sim!", percebi o quão feliz estava por me estar a ser dada uma oportunidade tão boa, sem eu sequer ter ido atrás dela, sem ter dispendido um único segundo ou milésimo de energia. Literalmente, bateu-me à porta. Fiquei extasiada de felicidade e entendi que a minha alegria e vontade de aceitar o desafio conseguiam ser maiores e mais fortes do que o meu medo. Senti que seria uma ingratidão enorme da minha parte declinar uma prenda que o universo me estava a dar. Soube que me iria arrepender se não tentasse, que passaria a minha vida toda a pensar "e se ...?". E, talvez o mais importante, tive a certeza de que esta prenda da vida carregava um conjunto de aprendizagens, em que a maior delas todas é, sem qualquer dúvida, enfrentar o medo que me aprisiona e condiciona tantas vezes: o de falhar, o de não corresponder às expectativas e o de não ser suficiente. Esta oportunidade veio mascarada de desafio, no sentido em que me obriga a dar um salto de fé, no desconhecido, onde as certezas pura e simplesmente não existem. Por todos estes motivos, soube que recusar não era uma opção. Eu fiquei eufórica, com a adrenalina a percorrer-me o corpo, sabem aquela sensação de entusiasmo tão forte, que se confunde com ansiedade, mas uma ansiedade boa? Como é que eu poderia dizer não a algo que, pelo simples facto de vir ao meu encontro, já me deixara tão feliz? 

Posso dizer-vos que já iniciei este projeto e que, como em todos os começos, a ânsia, o nervosismo, o medo estavam presentes. Tentei dar-me consolo, conforto e colo. Procurei normalizar o que estava a sentir, dando espaço a todos os sentimentos para se expressarem. Convidei todas as emoções a apresentarem-se, entendendo que as emoções são temporárias, tal como aparecem também desvanecem. Assim como os pensamentos. A minha mente, não fosse ela hiperativa, fez mil e um filmes, desde os românticos aos catastróficos. Mas os pensamentos são também eles fugazes e tentei ao máximo não me prender a nenhum deles, com a exceção de um: vai tudo correr bem.

Por maior que seja o meu medo de errar, e acreditem que é muito grande, eu tenho sempre uma luzinha acesa no meu íntimo, que simboliza a esperança de que tudo vai correr bem. Mesmo que tudo corra mal, há sempre a oportunidade de retirar algo de bom. Até porque a maior parte dos nossos medos são ficcionários e imaginativos, nunca chegam a transformar-se em realidade. Foi o que me aconteceu. Estava muito ansiosa, mas quando se deu o click "ação!", tudo fluiu e fez sentido. Como se aquele fosse o meu lugar, a minha casa, onde pertenço.

Naquele dia, senti um conjunto ambivalente de emoções. Primeiro, senti-me feliz e plena. Depois, quando comecei a dar corda à minha mente e aos meus medos, fiquei apreensiva e envolvida em pensamentos de "será que dei o meu melhor?", "será que deveria ter feito aquilo assim?", "e se não sou capaz?", "e se eu descubro que sou uma nódoa nisto?", entre outros. Posso dizer-vos que passei dois dias completamente abananada e perdida no meu mundo interno de terror. O meu namorado olhava para mim e dizia-me que estava estranha. E estava. Sentia-me cheia de medo e apavorada. Até que parei para pensar na forma como me estava a tratar. Estava a regressar aos meus velhos hábitos de exigir de mim o inatingível, de não me oferecer compaixão e compreensão quando me é tão fácil oferecer aos outros, de me massacrar vezes e vezes sem conta com as coisas que podiam ter corrido melhor em vez de olhar para as que correram espetacularmente bem, de me pressionar a ser perfeita à primeira. Percebi que era aqui que residia a oportunidade de fazer diferente. Desta vez, em lugar de me fechar numa masmorra de autopunição e autocrítica, eu quero fazer as coisas de forma diferente. Quero dar-me espaço, liberdade e tempo. Quero permitir-me errar e quero, acima de tudo, tratar-me com amor. Quero dizer-me que farei asneiras, terei momentos de impasse e dificuldade, mas que serei capaz de os ultrapassar, recorrendo às minhas competências, à ajuda de colegas e de estudar as vezes que forem necessárias para me tornar cada vez melhor. Quero desfrutar da viagem, sentir o vento no rosto, o sol a queimar, ver paisagens diferentes, sem me importar se chego rápido. Eu quero apenas chegar longe. 

Quando interiorizei tudo isto, a calma regressou. E ainda me senti mais plena quando fui reler antigos documentos de projetos anteriores e me confrontei com a paixão que sinto pela minha área. Como aquilo que estudei é tão enriquecedor e, ao mesmo tempo, tão complexo e exigente. Preciso de me dar permissão a ser uma mera aprendiz para me tornar numa profissional excelente. E só o posso fazer se, em simultâneo, me desenvolver enquanto pessoa. 

Este texto vai longo, mas queria contar-vos sobre esta oportunidade, porque acredito que este processo que estou a vivenciar é comum a muitos de vós e a outros tantos. Quantas vezes deixamos que seja o medo a comandar a nossa vida e a tomar as decisões por nós? Quantas vezes abdicamos de sonhos e paixões porque somos dominados pelo medo de errar? Eu recebi uma oportunidade rara e única, sem sequer a procurar, e fiquei completamente dividida entre o êxtase e o terror. Aceitei e, todos os dias, me questionei se fiz bem, seguindo-se o pensamento de que sim, fiz. Somos tão complexos e frágeis, temos todos medo de errar, de expor as nossas vulnerabilidades e de nos confrontarmos com a desilusão. Eu tenho medo de fracassar, de não ter controlo, de ficar à mercê dos meus pontos fracos. Mas o que mais me assusta é nem sequer tentar e ser infeliz por este medo de errar. 

Esta semana torno a ter uma reunião deste projeto. Sinto-me tranquila, estou entusiasmada a preparar tudo o que quero abordar, sinto-me até receosa de me sentir tão bem. Porque esta é outra característica muito comum do medo: espreitar entre a felicidade, fazendo-a parecer estranha e incomum. Mas estou atenta aos meus mecanismos de sempre. Estou aberta à experiência e estou genuinamente curiosa para ver o resultado final. Do projeto e de mim mesma. 

 

13
Mai20

"Decide what to be and go be it"

girl

Desde que me lembro que existem palavras e que aprendi a conjuga-las, escrever sempre foi tão natural para mim como respirar. Ainda guardo as dezenas de diários que escrevi durante a minha infância e adolescência, não pelos tesouros literários que representam, mas por serem provas e evidências da pessoa que fui, outrora.

Quando tive, pela primeira vez, o meu próprio computador e descobri que podia criar um blog e escrever nele, deixei os diários e lancei-me na aventura. Ao longo dos anos já criei e abandonei inúmeros blogs, mas nunca os apaguei, apenas deixei de escrever neles e, de quando a quando, vou revisita-los. Este abandono não se relaciona com o maior ou menor sucesso dos diversos blogs, porque, honestamente, nunca criei um único blog com a expectativa de fazer dele um negócio. Primeiro, não acredito ter o talento suficiente para tal e, segundo, escrevo para mim e não a pensar em que me estará a ler. Na maior parte dos textos, até me posso dirigir a um público invisível, através das minhas palavras, mas não o faço acreditando que do outro lado estão realmente pessoas a ler. Faço-o como um exercício de escrita, uma forma de me expressar mais facilmente.
Na semana passada, revisitei um blog que escrevi enquanto ainda era estudante universitária e a minha vida era totalmente diferente. Diverti-me a ler-me, porque aquela rapariga era tão leve, tão solta e tinha tanta energia. Escrevia sobre as coisas boas da vida, não havia espaço para amarguras, embora, claro, também existissem. Senti tantas saudades de mim, daquele eu que já fui e se perdeu pelo caminho. Aquela rapariga romântica, que acreditava nos finais felizes, que não tinha medo. Acima de tudo, sinto saudades disso: de ser destemida.
Claro que hoje compreendo que a minha ausência de medo advinha, em grande parte, por ainda não ter vivido nada verdadeiramente assustador e que faz com que a vida estremeça e tudo se quebre. No fundo, era uma rapariga inocente. Lírica, como a minha mãe gostava de me chamar. Não se passaram assim tantos anos desde que escrevia naquele blog, mas a mudança foi tão grande, que não me consigo reencontrar naquela rapariga de vinte e poucos anos, que escrevia sobre os dramas da faculdade e acordava todos os dias com um sorriso no rosto pela vida que tinha.
Tive a mesma sensação há dias, enquanto olhava para uma parede do meu quarto, que está repleta de fotografias. Algumas são mais atuais, da minha "nova" vida, mas a maioria delas são anteriores a tudo o que aconteceu. Sentei-me na cama a olhar para cada uma daquelas fotografias, a olhar para mim eternizada naquele momento e é uma experiência muito estranha, quase como uma dissociação. Onde está aquela pessoa? Lá vem novamente esta pergunta e eu não sei responder. Não sei o que me aconteceu, mas sinto saudades de mim. Neste processo de perda e luto, nunca parei para fazer o luto de mim mesma. Tenho feito o luto da família que se desmoronou, mas não tenho deixado espaço para chorar a minha própria perda. Tenho percebido que gostava muito mais de mim do que imaginava, naquela altura. Não que tenha deixado de gostar, mas ainda estou a conhecer a nova pessoa que nasceu no lugar da que se perdeu. É como o início de uma relação. Pode ser que se transforme num amor para a vida toda. Ou não.
Talvez tenha de seguir o conselho de Sócrates e investir mais energia em construir o novo, em vez de lutar contra o passado. Mas não consigo deixar de sentir que é importante revisitar o meu passado, quem fui, para saber quem quero ser. Porque há erros que não pretendo repetir, há caminhos que não seguirei, mas, acima de tudo, há coisas que quero manter e preservar. Quero manter intacta a minha leveza, a minha luz, a minha energia romântica e positiva. Quero, agora sim, depois de algo assustador me ter acontecido, ser destemida. Porque, desta vez, não serei destemida por não ter medo, mas sim por ter ganho coragem.

27
Abr20

emotional

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Há quase um mês que não escrevo e poderia dizer que é por falta de tempo, mas nem eu acredito nisso. A verdade é que escrever não tem sido uma das minhas prioridades nos últimos tempos. Sinto que não existe nada sobre o qual me apeteça escrever ou que valha a pena fazê-lo. Pensei escrever sobre um documentário que vi e me deixou a pensar na forma caótica como vivemos (ou existimos). Pensei escrever sobre um livro que li recentemente e me fez chorar aos soluços de madrugada, como já não me lembrava. Pensei escrever sobre uma nova banda de música que descobri e cujas letras são autênticos poemas. Pensei escrever sobre o desafio que coloquei a mim mesma de ser mais ativa e de fazer exercício físico quase todos os dias da semana e sobre os resultados que já começo a obter. Pensei escrever sobre o difícil que é viver uma quarentena com uma família em que mãe e pai estão divorciados. Mas depois, quando me sentava em frente ao computador e olhava para o ecrã vazio à minha frente, não conseguia evitar pensar "para quê?". É como se tivesse este conjunto de pensamentos a bombar dentro da minha cabeça, mas optasse por os manter em cativeiro em vez de os libertar, porque a simples ideia de ter de lhes abrir a porta para sair me custava e me pesava.
E foi nesta fase de acalmia que me dei conta que não são apenas os pensamentos que mantenho reféns, mas também as emoções. E percebi que não o faço apenas com as negativas, mas também com as positivas. Dei por mim a não saber sentir-me feliz, a não ser capaz de identificar uma emoção tão agradável e positiva como a alegria. Foi uma epifania. Percebi que tenho tanta tensão acumulada dentro de mim, que deixei de conseguir distinguir a que é boa da que é malévola. Entendi que estou a bloquear todas as emoções e estou a fazê-lo como um mecanismo de sobrevivência para que tudo se mantenha neutro e em equilíbrio. Os últimos dois anos da minha vida foram tão agitados e intensos que me levaram a procurar um estado de inércia, de linha contínua, que confundo muitas vezes com paz e tranquilidade. Mas a vida não é assim, aliás, a vida não pode ser assim. Porque quando tentamos a todo o custo bloquear o mau, também acabamos por bloquear o bom. E sem mau como é que sabemos o que é bom? E haverá realmente algo totalmente mau e algo totalmente bom? Existencialismo ao rubro. 
Comecei a desenrolar este novelo complexo aos bocadinhos, a puxar sempre mais um pouco e percebi que esta minha ânsia de controlar toda e qualquer emoção que provoca um pico na linha regular do meu batimento cardíaco se expandiu como um vírus, chegando ao ponto de me levar a evitar falar sobre determinados assuntos, de deixar de ver determinado filme por ter receio de ser demasiado intenso e mexer demasiado com as minhas emoções. Conseguem entender a dimensão do que estava a fazer a mim mesma? De como estava a negar tudo aquilo que é a vida, que faz parte dela, para atingir o tão desejado equilíbrio?
Mas depois li o tal livro que mexeu com todas as minhas emoções e me virou do avesso. E depois ouvi as tais canções cujas letras são poesia e senti o ritmo do meu coração galopar. E depois vi o documentário que me mostrou o perigo de "engolir" as emoções sem as digerir, a forma como podemos adoecer em todos os planos físico, mental, social. E percebi que aquela pessoa que se emocionava, que estava a permitir-se sentir tudo com a intensidade devida era eu. Era o meu antigo eu. O eu de quem sinto saudades. Eu nunca temi nenhuma emoção, minha ou dos outros. Foi sempre esse estado de conforto e à vontade com toda e qualquer emoção que levou as pessoas a procurarem-me sempre que precisavam de falar, de desabafar. Nunca me esquecerei quando uma amiga me disse que o meu maior dom era a forma como fazia as pessoas sentirem-se confortáveis na minha presença, como se não existissem vergonhas e barreiras. Essa pessoa que eu sempre fui, de quem eu tinha tantas saudades, desapareceu quando comecei a querer controlar todas as emoções, quando comecei a racionalizar os sentimentos. Porque antes, quando me permitia sentir, era muito mais saudável e equilibrada do que sou hoje, que tento controlar tudo. É irónico.
Eu nunca tive medo de sentir até ter sentido uma dor tão forte, que me paralisou. Que fez o meu mundo estremecer e ficar sem sentido. Estou há dois anos a tentar processar o que trago cá dentro. No outro dia, numa meditação, viajei ao dia em que a minha vida mudou radicalmente. Voltei àquele domingo de julho, todos os detalhes daquele dia são tão vivos a minha memória e, ao mesmo tempo, tão vagos. Lembrei-me do que foi possível e senti as lágrimas escorrerem pela minha cara. Não foi um choro compulsivo, não desabou nenhuma barragem emocional dentro de mim. Foi um choro suave, livre, mas profundo. Aquelas lágrimas vieram de recônditos escondidos dentro de mim. Naquele momento, senti vontade de me abraçar. De me consolar e aconchegar. De me deixar ir, de libertar o peso do mundo que trago dentro de mim.
Estou neste estado de consciência, em que começo a ver as coisas com mais clareza, mais nitidez e de forma mais ampla. Não tenho escrito, porque dentro de mim sei que não me apetecia escrever sobre nada mundano e vago. Acho que sabia exatamente o que queria escrever, mas não acreditei que seria capaz de o fazer. Ainda acho que este texto não cumpre grande lógica, não tem qualquer fluidez e beleza como eu gosto de ler. Mas tem verdade, a minha. E acho que nesta fase, ser verdadeira comigo, é tudo aquilo que mais preciso.

03
Abr20

we are okay, we are alright

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Todas as crises, pequenas, médias e grandes, têm o poder de nos transformar, se estivermos recetivos à mudança. Podemos sempre aprender algo novo sobre nós, sobre os outros, sobre o mundo e a própria vida. Mas temos de estar disponíveis e abertos para olhar para as coisas, até então conhecidas, certas e previsíveis, com um novo par de olhos. Foi o que eu tentei fazer esta semana. Depois de ter vivido praticamente todo o mês de março em sobressalto, envolvida em emoções de angústia, revolta, raiva, injustiça, ânsia e receio, entendi que, pela minha saúde, estava na hora de parar. Como não posso parar no sentido lato da palavra e me ejetar do meu ambiente tóxico (que é o do trabalho), compreendi que tinha de mudar o meu comportamento e a minha atitude perante a situação em que me encontro. Estava farta de me sentir desgastada, de me sentir zangada por qualquer coisa, ainda que mínima, de me estar sempre a queixar das mesmas velhas coisas que, precisamente por serem velhas, significa que não serão elas a mudar, mas que tinha de ser eu a fazê-lo. Podemos sempre fazer uma escolha perante tudo o que nos acontece, é onde reside a nossa verdadeira e única liberdade, como Frankl nos ensinou há muito tempo e fruto de condições muitíssimo mais adversas do que aquelas em que nos encontramos.
Por isso, esta semana quis inverter tudo e comecei pela forma que me é mais familiar: procurar coisas positivas nesta situação. Porque existem. Existem sempre em tudo que nos acontece, basta procurar. E a primeira coisa que me ocorreu foi, ironicamente, o meu trabalho. O meu discurso parece esquizofrénico, eu sei, até eu própria fico confusa. Mas a verdade é que embora esteja perto do limite do estar farta de aqui estar, por outro lado, sei que trabalho num lugar que dificilmente será afetado por esta crise económica que se avizinha, que até ao momento triplicamos os nossos serviços e que não se precisou de tomar qualquer medida que envolva imposição de férias ou lay offs. Por isso, este trabalho, neste momento, assemelha-se muito a um bote salva-vidas no meio de um tempestade no oceano. E para tempestiva já me basta a minha vida familiar, por isso, arrisco-me a dizer que é uma bênção enorme ter este emprego.
Também pode parecer estranho a próxima coisa positiva que vou referir, porque, novamente, parece contraditória. Dava tudo para estar protegida e segura em casa, através de teletrabalho. Todos os dias tenho uns minutos de introspeção de pânico em que penso se já estarei infetada e faço um check-up interno para verificar a possível existência de sintomas. Mas depois olho para a minha família em casa, que está protegida fisicamente, mas que emocionalmente começa a ficar erodida. Os dias parecem-lhes todos iguais, não conseguem acompanhar-me nas celebrações por ser sexta-feira, não tem novidades para contar. Começam a ficar sem ideias para ocupar o tempo, estão saturados uns dos outros (mais do que o normal). E eu penso para mim que, embora seja um ato sádico sair de casa e expor-me, pelo menos, enquanto estou a trabalhar, a minha mente está ocupada com outras coisas que não a situação atual. Estou distraída, às vezes parece que nada mudou para mim, porque no trabalho tudo continua como se nada fosse e a minha rotina não se alterou significativamente. Posso sair de manhã com segurança de que tenho um motivo para estar fora de casa. Não estou tão cansada psicologicamente, ainda consigo incutir alguma esperança e leveza lá em casa, o que é mais do que positivo. É ótimo!
Penso que esta situação tem o poder de unir as pessoas, de nos fazer refletir que sempre estivemos todos no mesmo barco e que ganhamos muito mais se remarmos todos na mesma direção.
E, num microcosmos individual, sinto que esta situação me tem dado a descobrir novas perspetivas sobre mim mesma. Esta semana senti-me leve pela primeira vez em muito tempo. Acho que ajudou tanto ter tido um quase colapso emocional na semana passada, porque me permitiu aliviar muita carga pesada que já carregava há muito tempo. Externalizar, coisa que é tão rara em mim, libertou-me e deu-me espaço para compreender as coisas de outro ângulo. Trouxe-me um ritmo mais calmo, brando e uma capacidade de reflexão maior, que estava refém de uma impulsividade nada amigável. Dou comigo a pensar que tudo vai ficar bem, a cantar mentalmente Andrà tutto benne ao longo do dia, a sentir-me em paz comigo mesma, porque sei que todos os recursos mentais e emocionais devem ser poupados para esta longa caminhada que temos diante de nós. Temos de poupar energias, poupar-nos ao máximo, para sermos capazes de aguentar até o cruzar da meta. Para isso, é preciso flexibilizar, olhar mais para o que temos do que para o que nos falta, acreditar que é uma situação temporária e, acima de tudo, externalizar o que vai dentro de cada um de nós. Não podemos fingir uma tranquilidade que não temos, se é medo que sentimos. Temos de dar espaço a todas as emoções que surgirem, mas não esquecendo que somos nós que tomamos a decisão de quais iremos alimentar.
Esta semana escolhi privilegiar a minha paz interior, abrindo mão de tudo aquilo que não é justo, mas que também não está ao meu alcance mudar. Aceitei que as coisas são como são, que nunca haverá justiça no mundo e que eu apenas posso ser justa comigo mesma e nas ações que pratico, para comigo e para com os outros. Quando compreendi que a minha energia deveria ser canalizada para coisas que poderiam realmente mudar e fazer sentido, alcancei a tranquilidade que não tinha até então. Não estou no estado nirvana e certamente que virão dias em que a minha serenidade será apenas uma memória, mas hoje estou bem e em paz. E esta situação, se serviu para enfatizar algo, foi que só temos o momento presente como certo. Por isso, hoje estou bem, a saborear a ideia de que é sexta-feira e espero que, se alguém ler este texto, pare para pensar em tudo aquilo de bom que tem neste momento e sorria. Porque há sempre um motivo para sorrir. Nem que seja a beleza de um sorriso em si mesmo.