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the old soul girl

the old soul girl

17
Dez19

nothing lasts forever

girl

Raramente vejo televisão e mesmo quando vejo, não presto muita atenção. É difícil estar concentrada a ver um programa do início ao fim, por isso os formatos que consumo nunca se afastam muito do telejornal e do Joker. No entanto, ontem dei por mim colada à televisão a assistir ao Prós e Contras, programa que aprecio, mas por norma só assisto quando o tema em debate me diz alguma coisa. Foi o caso. 

Com um conjunto de convidados das mais diversas áreas (medicina, filosofia, religião, escrita, teatro, etc.), o debate centrou-se no tempo. Na perceção do tempo, na sua existência e, talvez o mais importante, na sua passagem. Falou-se sobre os diferentes tipos de tempo, sobre a diferença entre imortalidade e eternidade, sobre as diferentes perceções do tempo de acordo com as nossas ideologias religiosas ou, melhor, as diferentes formas de encarar a passagem do tempo.

Fiquei maravilhada ao ouvir falar sobre um tema que ultimamente paira de forma recorrente na minha mente. Não me lembro de em algum momento da minha vida ter pensado tanto sobre o tempo. Talvez porque também nunca tinha sentido com tanta veemência a sua velocidade como tenho sentido. E também nunca me senti tão assustada por não o estar a aproveitar como deveria, da mesma forma que nunca pensei tanto na questão do tempo como uma dádiva que deve ser aproveitada ao máximo. 

Esta foi uma ideia que surgiu ontem no debate, a ligação íntima entre a morte e o tempo, sobretudo na intervenção do escritor Gonçalo M. Tavares com a qual concordo inteiramente. A presença constante da finitude na nossa mente faz-nos valorizar mais o tempo e a vida, porque sabemos que um dia tudo isto terminará e não sabemos quando será esse dia. Quando Gonçalo M. Tavares disse que a cada novo dia nos é dada mais uma oportunidade de viver só me apetecia levantar do sofá e aplaudi-lo. Resume na perfeição o que sinto perante a vida: estar vivo é uma dádiva tão grande. A cada manhã que desperto agradeço a oportunidade de me ser concedido mais um dia de vida, mais uma oportunidade para estar aqui e com os meus. Haverá um dia, sabe-se lá quando, que esse dia não chegará.

Esta consciência da finitude leva-me a pensar no tempo de uma forma completamente diferente do que pensava antes. Custa-me cada vez mais fazer fretes ou desperdiçar tempo a fazer coisas que não me realizam, precisamente porque penso que esse tempo não pode ser recuperado, não volta atrás, não pode ser reaproveitado de outro modo. Ao mesmo tempo, pensar todos os dias na finitude da vida, faz-me valoriza-la mais. É angustiante pensar que morreremos e, em parte, posso até concordar com a perspetiva do psiquiatra José Gameiro que disse que se todos pensássemos na morte todos os dias os consultórios dos psiquiatras estariam a abarrotar. Entendo essa angústia porque estou neste jogo como todos nós: sou humana, não vou viver para sempre e tenho medo. Mas, ao mesmo tempo, não posso discordar mais desta ideia de que não pensar na morte nos faz aproveitar mais a vida. Acho que é precisamente por sabermos que existe uma data de validade e sobretudo por não sabermos exatamente qual ela é, que nos devemos amarrar mais à vida e vive-la intensamente, com propósito.

Uma das provas a favor deste pensamento é a perspetiva dos doentes terminais. Em vários estudos, nomeadamente os de Kubler Ross relativamente ao luto, vários doentes em fase final de vida diziam que agora que tinham aprendido a viver é que estavam às portas da morte. Agora que se sentiam aptos e capazes de viver com sentido é que essa oportunidade lhes estava a ser confiscada. 

Para mim faz todo o sentido viver a vida com o sabor da mortalidade na ponta da língua. Porque, pelo menos para mim, não me faz viver menos. Faz-me viver mais na medida em que faz centrar no que realmente importa, faz-me sentir que o tempo é muito rápido e, acima de tudo, não é garantido. Por tudo ser tão efémero e incerto, faz-me arriscar, experimentar coisas que sempre quis fazer e que vou sempre adiando, faz-me desvalorizar conflitos e situações aparentemente difíceis, mas que na verdade têm sempre uma solução. Até porque só vivendo desta forma, tomando o presente como certo, é que podemos viver em pleno. E seja amanhã ou daqui a 100 anos, quando a nossa jornada chegar ao fim, acredito que percecionaremos a nossa vida como algo que valeu a pena, como uma oportunidade que usufruímos sem limites e que nos elevamos ao expoente máximo. 

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