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the old soul girl

the old soul girl

28
Nov19

little girl blue

girl

Liga-me, atendo e segue-se aquela conversa rápida e desprovida de conteúdo, cuja duração não ultrapassa um minuto. Desligo e começo a chorar. Agradeço o facto de estar sozinha em casa, o que é raro, para chorar à vontade. Não é um choro compulsivo, mas correm-me as lágrimas pelo rosto e não as limpo. Deixo-as deslizar e sinto a forma como me arrefecem a face. Não dura muito tempo, mas dura o tempo suficiente para aliviar alguma dor que armazeno. 

De alguma forma, aquela chamada abriu qualquer coisa em mim. Descongelou um pedaço da dor que sinto e, em estado líquido, essa dor esmoreceu. Naquela sala, naquele momento, só existia eu e a minha tristeza. A casa estava silenciosa e a única luz emitida era a do candeeiro da mesinha de apoio. E ali estava eu, sentada no sofá, entregue às minhas lágrimas, a pensar em tudo e, ao mesmo tempo, em nada, limitando-me a sentir que as coisas mudaram. Sim, isto é importante: sentir que as coisas mudaram. Eu penso muitas vezes que as coisas mudaram, mas quase nunca o sinto. Seja porque não me permito senti-lo, seja porque não o consigo sentir. 

Não disse a ninguém, guardei-o para mim. Como digo muitas vezes (e escrevo outras tantas), sinto-me cansada deste assunto e de ser vítima deste acontecimento. Por isso, sinto que não me adiantaria de nada partilha-lo com alguém. É mais do mesmo e nada se altera. No entanto, por algum motivo, sinto que devo escrever sobre ele. Talvez por ter sido das primeiras vezes que me senti apenas triste. Normalmente, a raiva antecede a tristeza e, muitas vezes, só existe mesmo raiva. Mas desta vez foi diferente: só existiu tristeza.

E não consigo deixar de pensar o quão importante isso é. Significa que se inicia uma nova fase do meu luto. Não melhor nem pior do que qualquer outra, apenas mais uma fase necessária para ultrapassar este acontecimento. Sei que ainda irei chorar muito e em muitos outros momentos; sei o quão preciso de o fazer. Também sei como é difícil para mim, mas lá chegarei. Um dia tudo isto será apenas história. 

 

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