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the old soul girl

the old soul girl

15
Jan20

hora do banho

girl

Acredito que não sou apenas eu que tenho introspeções profundas e ideias geniais enquanto estou a tomar banho. Aqueles minutos lavam-me, muitas vezes, mais a mente do que o corpo. Não sei se é a água quente que, ao relaxar o corpo, deixa também a mente mais aberta e leve, mas quando tomo banho sinto-me sempre mais tranquila. Já para não falar que tenho incríveis debates comigo mesma e é, inúmeras vezes, o espaço onde tomo decisões, sobretudo as mais difíceis.
Ontem, enquanto tomava duche após o treino, dei comigo a sentir uma vontade muito forte de viajar. Para muitas pessoas, isto pode parecer banal e até algo ridículo de tão óbvio que é, porque a maioria das pessoas gosta de viajar e não é, de certeza, por falta de vontade que não o faz mais vezes. Mas, para mim, sentir esta vontade de ir, de me aventurar e, acima de tudo, de me afastar de casa é significativa. O ano que passou, quando chegou o momento de ir de férias, parecia que me estavam a empurrar para a forca. Uma parte de mim, bem escondida, estava entusiasmada, mas o bolo maior estava apavorado com a ideia de ir e deixar a minha família (ok, a minha mãe) sozinha. A ideia de estar longe, dela precisar de mim e, o pior de tudo, o sentimento de culpa por me estar a divertir e ela estar em casa, cercada pelos problemas.
Acho que sempre tive esta sensação de culpa presente na minha vida. A sensação de que não é justo me divertir, aproveitar a vida, enquanto os meus não o fazem. Sei que nada disto tem sentido lógico, mas tentem lá dizer ao meu lado emocional (que, já agora, é dominante) e vejam o que acontece. E o pior é que esta sensação de culpa, uma vez instalada, fustiga qualquer semente de entusiasmo e diversão. É como uma praga que se infiltra num terreno fértil, pronto a desabrochar.
Quando tento analisar-me e perceber o que está na origem deste sentimento, chego a duas hipóteses, que não são exclusivas, mas antes complementares. A primeira tem muito a ver comigo e com esta síndrome de impostor da qual padeço que, por sua vez, tem base numa autoestima débil. Desde que me lembro que penso sempre em mim a alcançar coisas, conquistas e, de seguida, vem um pensamento bomba que diz "impossível, tu jamais!". A sério, juro que é verdade. É como quando pensamos nas coisas boas e, imediatamente, ouvimos uma vozinha que nos diz "nunca vai acontecer". Eu sempre senti isto, esta sensação de que há coisas, sobretudo as boas, que não estão ao meu alcance e dificilmente me irão acontecer a mim. Porque, porquê a mim? Da mesma forma, quando as coisas boas acontecem ou quando faço algo bem, penso "será que isto está mesmo bem?", "será que isto está certo?". Ao não acreditar que mereço coisas boas, é inevitável não me sentir culpada quando essas me acontecem e não acontecem aos outros. É como se, lá está, fosse uma imposturice, como se não tivesse verdadeiro direito a isso.

Pausemos aqui para uma breve explicação: tudo isto é apenas sentido, é emocional. Racionalmente, sei que nada disto faz sentido, por isso, recorro muitas vezes à lógica, ao pensamento para analisar as minhas emoções e as minhas crenças irracionais. O problema é que usar apenas a razão é insuficiente. Quando se trata de algo tão profundo, a razão e a emoção têm de andar de mãos dadas. Isto significa que não basta pensar que mereço que as coisas boas me aconteçam, eu preciso, essencialmente, de sentir que as mereço. Entendem? É como num luto de alguém que amamos: não basta racionalmente sabermos que aquela pessoa morreu e não voltaremos a vê-la, temos de o aceitar também a nível emocional. Tem de existir um click, uma compreensão nos dois planos.
Posto isto, avanço para a minha segunda hipótese: a minha família. E não vos falo da amostra de família que tenho nos dias de hoje, mas sim da família que fomos e éramos até à pouco tempo. Nós éramos, aquilo que gostamos de chamar, uma família unida. Uma família em que cada um está disponível e presente para os outros, em que o problema de um é problema de todos. E eu sempre pensei que isto era ótimo, porque sempre me senti protegida e acreditei que, independentemente dos desafios que a vida nos apresentasse, seríamos capazes de os enfrentar e ultrapassar, juntos. Só que, com o divórcio dos meus pais e o desmoronamento da família, comecei a ganhar consciência de que talvez a nossa família não fosse unida, mas antes emaranhada. Estas são as famílias em que os limites não estão definidos e, como tal, os papéis que cada um ocupa também não são claros. Era frequente situações de casal serem resolvidas como se fossem situações familiares, que nos envolvessem a todos. Os aniversários de casamento não eram celebrados a dois, mas a quatro. Este emaranhamento (nem sei se esta palavra existe) fez com que os problemas de um fossem sentidos como responsabilidade de todos e isso é bom, mas só em determinada dose. Quando começamos a responsabilizar-nos pelos problemas que não são nossos e que, como tal, não temos forma de os resolver, as coisas complicam-se. O meu sentimento de culpa deriva também disto: de sentir que não tenho direito de aproveitar a MINHA vida porque a vida DA MINHA MÃE está em ruínas. Não me entendam mal, eu não consigo ser feliz em pleno se a minha mãe não estiver bem, não é isso que está em causa. O que está em causa é eu sentir a responsabilidade de resolver os problemas que são dela e não meus. Porque, quer queira quer não queira, há um caminho e todo um processo que lhe cabe a ela percorrer. De igual forma, eu, que também sou parte envolvida, tenho de percorrer o meu. Mas este sentimento de culpa nasce sempre que sinto que estou a avançar no meu percurso e olho para o lado e vejo que ela está estagnada no dela. Inevitavelmente, interrompo a minha jornada e vou para junto dela.
Por isso, quando dou por mim a sentir entusiasmo por viajar, aquela velha sensação de excitação e contentamento por ir numa aventura, não consigo evitar que estou a regressar ao meu caminho. Estou a voltar à pessoa que era, a voltar a sentir vontade de desfrutar da vida e não me focar só nos problemas. Não consigo evitar sentir uma enorme liberdade interior, ao mesmo tempo começo a sentir o sentimento de culpa a emergir. Quero avançar, mas não a quero deixar para trás. Isto faz algum sentido?
Quando comecei a escrever este texto, o meu objetivo era apenas falar de quão maravilhosos e inspiradores conseguem ser os banhos. Agora olho para tudo o que escrevi entretanto e não sei de onde é que isto veio, mas se veio, é porque era necessário. Ultimamente tenho escrito ainda mais para mim do que para qualquer tipo de público (se é que existe), o que pode tornar algum conteúdo chato e repetitivo, mas este blog funciona como o meu diário. Ou melhor, como a minha sessão de terapia. Tenho feito um trabalho intensivo a cada texto que escrevo, porque estas palavras são apenas a representação de milhares de pensamentos, de emoções turbulentas, de memórias, ora boas, ora aterrorizadoras. Por isso, a quem me lê e acompanha, peço desculpa se vos massacro com mais do mesmo a cada texto que publico. No entanto, não posso deixar de o fazer, até porque se apenas pensar nisto enquanto tomo banho, fico sem pele e zeros na conta bancária para pagar a despesa de água e luz!

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