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the old soul girl

the old soul girl

30
Jan20

declaro-me culpada

girl

Ando há alguns dias a pensar na forma como me inibo de falar de conquistas, projetos, ideias, sonhos!, com a minha família. Não foi algo de que me dei conta de repente, porque como já escrevi muitas vezes, a minha felicidade anda sempre de mãos dadas com a sensação de culpa e de inadequação, como se me sentir feliz fosse um ultraje e um ato pecaminoso. Às vezes esta sensação é criada por mim, outras vezes pela reação que os outros têm quando partilho algumas coisas boas da minha vida. É difícil falarmos de uma viagem que queremos muito fazer ou de um sonho profissional que queremos tornar realidade e recebermos como resposta uma expressão de desânimo, de semi entusiasmo misturada com o comentário "quem me dera" ou "oh, mas e eu?". Adensa-se a sensação de culpa e de condenação, como se a nossa felicidade fosse a evidência de tristeza e desilusão com a vida para outra pessoa.
Falar sobre este nó que carrego no peito é muito difícil. Primeiro, porque por mais que me esforce, nunca consigo encontrar as palavras certas e diretas que representam aquilo que penso e sinto em relação a isto. Porque, se por um lado, considero injusto e castrador não poder viver a minha vida em pleno sem causar desgosto aos que me são próximos, por outro, considero-me egoísta por traçar planos e dar aso a desejos quando esses, os mesmos que me são próximos, não estão bem. É a velha história da difusão de limites: onde começo eu e acaba o outro? Porque é que me sinto tão culpada e proibida de viver a vida que quero pelo facto das pessoas que amo ainda não estarem capazes de fazer o mesmo?
O segundo motivo que torna este assunto asfixiante é este conflito de sentimentos que não há forma de descrever. É sentir vontade de partilhar, mas engolir em seco essa vontade porque vai causar no outro uma sensação de estagnação, um sentimento de ver a vida passar e não a estar a aproveitar, uma confirmação de que a vida a uns pode dar tudo e a outros rigorosamente nada. Se estes "outros" fossem pessoas aleatórias, indiferentes, este era um não-assunto, não tinha existência. Mas estes outros são os meus outros, são a minha família.
Acabei de escrever isto e torno ao ponto inicial em que comecei: não consigo expressar-me em relação a este assunto. Não consigo arranjar uma forma de dizer que gostava que a minha família ficasse apenas feliz por mim e não me olhasse com uma expressão triste, miserável, de lamento. Gostava que, por uma vez, as minhas pequenas conquistas fossem apenas isso: conquistas. E que fossem minhas. Porque sempre que esta sensação se apodera de mim, sinto que as coisas boas deixam de me pertencer e transformam-se. Subitamente, já não são coisas boas que me acontecem, passam a ser evidência da inexistência de coisas boas na vida dos outros. É complicado falar, por exemplo, de uma viagem a dois, com a qual se anseia, se trabalha tanto diariamente para alcançar, e a resposta ser "não posso ir também?". Parte-me o coração e, ao mesmo tempo, tira-me o ar. Mergulho em compaixão e em desespero, num só segundo. E sei que, por mais que me tente explicar, nunca conseguirei fazer-me entender.
Por vezes, regresso ao dia em que a minha avó chorou nos meus braços, dizendo-me que apenas queria ficar connosco. E lembro-me de o partilhar com a minha mãe: vi nela o que vejo hoje em mim. O dilema, o conflito entre a necessidade de espaço e a necessidade de cuidado, a escolha difícil e até impossível entre fazermos o que nos faz bem e fazermos o que fará o outro sentir-se bem. Quase sempre optamos pela segunda hipótese, porque, embora difícil, ainda nos permite sentir o gosto da felicidade, por vermos bem aqueles que amamos. Fazemos esta escolha continuamente, priorizando os nossos, mas nunca deixando de sentir que uma parte de nós fica para trás, pendente, adiada. E, com isso, sentindo que nos vamos perdendo de quem somos e do que queremos, esquecendo-nos de viver a nossa vida.
Este texto não faz sentido nenhum. Mas eu estava a precisar tanto de tirar isto de dentro de mim. E, culpada por natureza como sou, ainda me consigo sentir (mais) culpada por sentir tudo isto. Andava com isto há dias na minha cabeça e escreve-lo não significa que deixe de sentir o que sinto, mas de alguma forma tudo se torna mais claro.

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