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the old soul girl

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23
Out19

alergia a injustiças

girl

Desde sempre que tenho alergia a injustiças. Lembro-me de ser miúda e de me sentir revoltadíssima quando algum colega era julgado erradamente; de me sentir a fervilhar por dentro quando alguém se tentava aproveitar de alguma situação ou de alguém. Com o passar dos anos, fiquei pior, mas, ao mesmo tempo, também fui ganhando alguma tolerância às minhas “crises alérgicas” à medida que fui percebendo a dimensão de injustiça que existe no mundo em que vivemos. Vamos crescendo e não perdemos apenas a inocência, perdemos também a esperança de que as coisas sejam como deveriam ser e não como são.

Quando comecei a trabalhar, e porque trabalho numa área em que me permite ouvir frequentemente todas as perspetivas de um mesmo assunto, ainda me choquei mais com a quantidade de atitudes injustas que se pode ter e agir como se nada fosse. Como sabem, considero que trabalho num ambiente desagradável e que não estimula o que há de melhor nas pessoas, pelo contrário, faz com que venha à superfície o que de mais primitivo habita dentro de cada um de nós. Imaginem no que diz respeito ao sentido de justiça. É simplesmente nenhum. É como se estas pessoas se tivessem esquecido de como é ser pessoa ou de como deveria ser. No entanto, parte de mim não as consegue julgar: muitas destas pessoas agem desta forma porque é a única maneira que encontraram para sobreviver num sítio com este. E há contas para pagar, comida para por na mesa e filhos para criar. Nada é linear, a vida nunca pode ser lida como se fosse preto ou branco quando há tantas tonalidades.

Hoje parei por alguns minutos para refletir acerca da nossa busca incessante por justiça. Da energia que gastamos em nos sentir zangados, frustrados, revoltados perante as injustiças que vemos diante dos nossos olhos e sobre as quais nada podemos fazer. De como isso nos consome e nos esgota. Para quê? É um esforço inglório.

Pensemos na própria vida. Não há justiça nenhuma na vida. É uma série de aleatoriedades que ora jogam a nosso favor, ora ditam o nosso azar. Mas nunca podemos dizer que a vida é justa, porque se fosse não morriam crianças todos os dias à fome, nem pessoas tinham de fugir dos seus países em guerra, nem tão pouco tínhamos hospitais carregados com pessoas inocentes doentes.

Assim sendo, esta nossa necessidade de justiça parece tão antinatural. Pretendemos equilibrar os dois pratos da balança e isso consome-nos. Eu falo por mim: todos os músculos, tecidos, células da minha barriga se contorcem quando vejo uma injustiça diante de mim e sei que nada posso fazer para a inverter. Porque esta é outra verdade: existem situações em que não podemos fazer rigorosamente nada! O que as torna ainda mais injustas do que o que já eram.

É tão cansativo por ordem na desordem. Corrigir o incorreto. Despende-se tanta energia e, tantas vezes, para nada, para ficarmos reduzidos à insignificância que é o nosso pequenino poder de mudança.

Mas depois penso que lutar por um mundo justo pode não parecer natural no mundo em que vivemos, mas é essa luta contínua e constante que faz o mundo avançar e não colapsar. São todos os pequenos passos, milimétricos e quase invisíveis que damos em direção ao equilíbrio que fazem esta caminhada ter um propósito e um ponto de chegada. Se algum dia pisaremos a meta, não sei, mas sei que não podemos parar de andar no seu sentido. Porque ser justo pode parecer muitas vezes antinatural, mas é precisamente esse sentido de justiça que permite que a nossa espécie continue e não se auto destrua. É desafiar a vida, dizendo-lhe que é ela a autora do que nos acontece, mas nós somos o que fazemos com esses acontecimentos.

Continuo a ter alergia a injustiças, acho que nunca deixarei de ter. Acho que me irei debater para o resto da vida entre aceitar que o mundo é um lugar injusto e lutar para contrariar essa realidade. Sei com certeza que me irei revoltar muitas e muitas vezes, mas também sei que grave será o dia em que, perante uma injustiça, não surgir nenhum efeito, nem a mínima comichão.

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