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the old soul girl

the old soul girl

13
Mai20

"Decide what to be and go be it"

girl

Desde que me lembro que existem palavras e que aprendi a conjuga-las, escrever sempre foi tão natural para mim como respirar. Ainda guardo as dezenas de diários que escrevi durante a minha infância e adolescência, não pelos tesouros literários que representam, mas por serem provas e evidências da pessoa que fui, outrora.

Quando tive, pela primeira vez, o meu próprio computador e descobri que podia criar um blog e escrever nele, deixei os diários e lancei-me na aventura. Ao longo dos anos já criei e abandonei inúmeros blogs, mas nunca os apaguei, apenas deixei de escrever neles e, de quando a quando, vou revisita-los. Este abandono não se relaciona com o maior ou menor sucesso dos diversos blogs, porque, honestamente, nunca criei um único blog com a expectativa de fazer dele um negócio. Primeiro, não acredito ter o talento suficiente para tal e, segundo, escrevo para mim e não a pensar em que me estará a ler. Na maior parte dos textos, até me posso dirigir a um público invisível, através das minhas palavras, mas não o faço acreditando que do outro lado estão realmente pessoas a ler. Faço-o como um exercício de escrita, uma forma de me expressar mais facilmente.
Na semana passada, revisitei um blog que escrevi enquanto ainda era estudante universitária e a minha vida era totalmente diferente. Diverti-me a ler-me, porque aquela rapariga era tão leve, tão solta e tinha tanta energia. Escrevia sobre as coisas boas da vida, não havia espaço para amarguras, embora, claro, também existissem. Senti tantas saudades de mim, daquele eu que já fui e se perdeu pelo caminho. Aquela rapariga romântica, que acreditava nos finais felizes, que não tinha medo. Acima de tudo, sinto saudades disso: de ser destemida.
Claro que hoje compreendo que a minha ausência de medo advinha, em grande parte, por ainda não ter vivido nada verdadeiramente assustador e que faz com que a vida estremeça e tudo se quebre. No fundo, era uma rapariga inocente. Lírica, como a minha mãe gostava de me chamar. Não se passaram assim tantos anos desde que escrevia naquele blog, mas a mudança foi tão grande, que não me consigo reencontrar naquela rapariga de vinte e poucos anos, que escrevia sobre os dramas da faculdade e acordava todos os dias com um sorriso no rosto pela vida que tinha.
Tive a mesma sensação há dias, enquanto olhava para uma parede do meu quarto, que está repleta de fotografias. Algumas são mais atuais, da minha "nova" vida, mas a maioria delas são anteriores a tudo o que aconteceu. Sentei-me na cama a olhar para cada uma daquelas fotografias, a olhar para mim eternizada naquele momento e é uma experiência muito estranha, quase como uma dissociação. Onde está aquela pessoa? Lá vem novamente esta pergunta e eu não sei responder. Não sei o que me aconteceu, mas sinto saudades de mim. Neste processo de perda e luto, nunca parei para fazer o luto de mim mesma. Tenho feito o luto da família que se desmoronou, mas não tenho deixado espaço para chorar a minha própria perda. Tenho percebido que gostava muito mais de mim do que imaginava, naquela altura. Não que tenha deixado de gostar, mas ainda estou a conhecer a nova pessoa que nasceu no lugar da que se perdeu. É como o início de uma relação. Pode ser que se transforme num amor para a vida toda. Ou não.
Talvez tenha de seguir o conselho de Sócrates e investir mais energia em construir o novo, em vez de lutar contra o passado. Mas não consigo deixar de sentir que é importante revisitar o meu passado, quem fui, para saber quem quero ser. Porque há erros que não pretendo repetir, há caminhos que não seguirei, mas, acima de tudo, há coisas que quero manter e preservar. Quero manter intacta a minha leveza, a minha luz, a minha energia romântica e positiva. Quero, agora sim, depois de algo assustador me ter acontecido, ser destemida. Porque, desta vez, não serei destemida por não ter medo, mas sim por ter ganho coragem.

23
Mar20

one way or another

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Mais do que nunca preciso de manter este emprego, mais do que nunca apetece-me desistir e entregar a minha carta de demissão. Estou numa encruzilhada, onde sei qual é o caminho a seguir, embora não seja o caminho certo. Porque o caminho a seguir é o da responsabilidade e bom senso, de me manter sossegada e focar-me no objetivo mais importante, que é ter dinheiro para pagar todas as contas que vão cair no final deste mês. O caminho a seguir é assegurar que o dinheiro não falta, porque ter um emprego, neste momento, é uma segurança, uma tábua de salvação no meio do oceano e todos sabemos que os próximos tempos serão de tempestade. Mas o caminho certo não é este. O caminho certo é aquele que é percorrido com dignidade, com os valores que me foram transmitidos e com a certeza de que a minha saúde está em primeiro lugar. Porque, neste momento em que me encontro, não posso afirmar estar doente, mas também não estou sana e conheço bem a velocidade com que se entra em espirais de tristeza, cansaço e desespero. Conheço-me bem e sei quando estou à beira daquele que é o meu limite.
Mas também sei que estou numa situação em que não o posso fazer. Uma situação na qual o limite tem de se expandir, tem de ir mais além. Porque preciso, mais do que alguma vez precisei, do dinheiro e da segurança que este emprego do demo me traz. Sinto-me uma hipócrita, sinto que me estou a apunhalar nas próprias costas. E questiono-me até quando vou aguentar. Se serei eu a parar ou o meu corpo a parar por mim. O copo encheu, transbordou e não cabe nem mais uma gotícula. Se até aqui já me sentia desmotivada e num ambiente hostil, os últimos dias mostraram-me que ainda não tinha visto nada. Que o pior ainda estava para vir. E tanto estava para vir, que chegou, instalou-se e eu não sou mais a mesma dentro destas quatro paredes. A diferença é notória, visível, palpável. O meu rosto cansado, a minha falta de energia, o meu sorriso caído.
Gostaria de pensar que estou num dilema, mas na verdade, não estou. O caminho a seguir é muito óbvio e claro. Só espero que, ao percorrê-lo, não me perca.

27
Fev20

"apenas depende de ti"

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Faltar-me-ão sempre estudos para compreender as pessoas (em específico os patrões e entidades patronais) que consideram as questões motivacionais dos seus colaboradores um não assunto. Ou, como já ouvi, um capricho. Divido-me sempre entre pensar que é ignorância ou estupidez ou até um pouco de ambos. Uma coisa sei: inteligência não é certamente.
Sei que não se pode agradar a gregos e a troianos e também sei que existem muitos queixosos crónicos. São aquele grupo de pessoas que se queixa sempre de tudo, tem sempre um problema para cada solução e que parece sentir um genuíno prazer em protestar. Estas pessoas não são apenas assim no trabalho, são assim na vida em geral e os que os aturam têm um lugar reservado no céu. Mas mesmos estes queixosos crónicos ressentem quando a motivação é tratada como um capricho e uma questão que apenas depende do colaborador (como também já ouvi).
A verdade é que a motivação nunca será uma questão exclusiva do trabalhador ou do empregador. É um filho cuja guarda é partilhada e, como tal, cada um tem de fazer a sua parte para que o filho cresça e chegue a bom porto. No entanto, a realidade a que assisto diariamente é que as empresas se descartam da sua responsabilidade e exigem aos colaboradores que a sua automotivação se multiplique e que substitua o papel que só diz respeito ao empregadores. Por muito que um colaborador goste do seu trabalho e chegue todos os dias à empresa com vontade de se exceder e alcançar o seu potencial, não depende apenas de si. Este mesmo colaborador precisa de ter feedback quanto ao seu trabalho, precisa de ver as suas competências valorizadas e não apenas monetariamente, embora também seja muito importante. Mas creio que um "bom trabalho!" enche mais os reservatórios da vontade e dedicação do que alguns euros a mais que, por vezes, com tantos descontos e acertos, se diluem rapidamente. É extremamente importante orientar os colaboradores, dar-lhes oportunidades de crescimento e melhoria contínua, investindo na sua formação não só profissional, mas também pessoal. Proporcionar um bom ambiente de trabalho, no qual sintam que errar não é sinónimo de ter a cabeça a prémio, pelo contrário, utilizar os erros para fomentar aprendizagens e potenciar o seu desenvolvimento. Muitas das pessoas que erram são aquelas que estão sobrecarregadas, divididas entre tantas tarefas que, mais tarde ou mais cedo, alguma vai resvalar e falhar. Ninguém é imenso e o tempo é democrático, todos temos direito às mesmas 24h. Motivar os colaboradores passa também por respeitar a vida destes, sabendo que a esfera profissional é apenas isso, uma esfera no meio de outras igualmente importantes, como a família, os amigos, os tempos livres. Atualmente, as empresas exigem uma disponibilidade quase total aos seus colaboradores, indo além das fronteiras físicas das suas instalações através de chamadas e emails fora de horas. As pessoas não descansam, nunca desligam, entram num ritmo frenético do qual não conseguem encontrar a saída.
Envolvidos num stress constante e crónico, começam a surgir os primeiros sintomas - falta de concentração, de energia, de criatividade para pensar em soluções face aos problemas - e são apenas a pontinha do iceberg. A questão mais fascinante (e ridícula) é que as empresas perdem dinheiro com estes fenómenos, porque depois surgem as baixas, as demissões ou o famoso presentismo, em que temos as pessoas presentes fisicamente no trabalho, mas estarem ou não estarem é quase o mesmo. Está o corpo, mas não está a cabeça.

Será que os patrões desta vida não conseguem mesmo compreender a simplicidade da equação colaboradores motivados = sucesso da empresa? Como é que alguém pode exigir aos seus colaboradores para que estes vistam a camisola, se entreguem de alma e coração às balas, se não há qualquer retorno nem apreço? Por caridade? Por misericórdia?
Trabalho numa empresa onde todos os dias assisto a espetáculos deploráveis de extermínio motivacional. E o que me impressiona mais, ao fim de tanto tempo, nem é a forma como a empresa trata os colaboradores, mas a forma como estes toleram e, mesmo assim, se esforçam. A realidade é que as pessoas precisam de trabalhar, as contas no final do mês são certas e há um medo constante do incerto, porque apesar de isto ser mau, ao menos sabemos como é, a empresa do lado pode ser ainda pior. Só que esta tolerância desgasta-se e as pessoas acabam mesmo por adoecer e perdem tanta qualidade de vida. Tenho tantos colegas à beira do esgotamento, outros tantos que mal conseguem falar e passar tempo de qualidade com as suas famílias. Inevitavelmente, questiono-me se isto vale a pena? Dar tanto a quem nos dá tão pouco?
Não posso deixar de me rir quando me dizem que a motivação apenas depende de mim. Não posso aceitar isso, não posso aceitar que sejam exigidos resultados em tempos recordes, perfeitos, quando neste jogo de dar e receber se dá tanto e se recebe tão pouco. E hoje estas questões pesam-me mais porque olho em meu redor e cada vez conto mais os desmotivados. Vejo rostos cansados, olheirentos, corpos que se alimentam de shots diários de cafeína e refeições pouco saudáveis, telemóveis que não param de tocar e vibrar, emails seguidos a entrar, algumas vozes altas em exaltação por pequenas coisas, mas as pessoas perderam a capacidade de distinção entre o que é pequeno e grande, entre o que é grave e leve. É um cenário triste e degradante, mas mais comum e frequente do que se desejaria. 

Por isso, nunca conseguirei compreender como é que a motivação é entendida como um capricho. Ainda falta a muitos administradores e empresários desta vida a capacidade de compreensão de que as pessoas serão sempre o melhor recurso de qualquer negócio. Serão sempre elas o motor, a força motriz, a chave do sucesso. Hoje investe-se muito em tecnologia de ponta, máquinas novas e XPTO, mas cada vez cai mais no esquecimento a valorização dos recursos humanos. Estes são aqueles que são mais difíceis de substituir e que podem ser o elemento chave no sucesso ou deterioração de uma empresa. Mas o que sei eu de gestão? Sou apenas uma colaboradora caprichosa, cuja subida dos níveis baixos de motivação apenas depende de si mesma. 

26
Fev20

Querida amiga,

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Antes de te dizer o que pretendo realmente dizer, sinto-me na obrigação de esclarecer algumas questões iniciais. A primeira é de que te estou a dizer isto por escrito e não numa conversa, olhos nos olhos, porque ainda não consegui reunir forças e competências para o fazer. As palavras escritas, como sabes, sempre me permitiram expressar melhor o que vá dentro de mim e temo que se as dissesse em voz alta, não conseguiria sequer chegar a meio do que te pretendo dizer, porque a emoção falaria mais alto que a minha voz. E eu quero mesmo que saibas de tudo, com todos os detalhes, até os mais sórdidos, sádicos e tristes. Ao mesmo tempo, não o consigo dizer-te oralmente, numa conversa real, porque me sinto, de algum modo, envergonhada com esta situação. Num plano lógico e racional, sei que não fui eu a autora desta confusão, que não tenho a culpa do que se passou, mas sinto uma vergonha enorme de tudo o que se passou e, por vezes, também me sinto culpada. Não pelo que se passou, mas pela forma como lidei e lido com isso. Vergonha e culpa são emoções que, desde há dois anos, convivo de perto e sei como nos conseguem debilitar e paralizar. A segunda questão, que para ti será a primeira que vai surgir na mente, é o porquê de não o ter dito mais cedo. E a esta questão acho que te posso dar várias respostas, mas a que congrega todos os motivos, de forma mais simples e clara, é esta: porque ao não o dizer, não tenho de lidar com isto. Ou melhor, ter de lidar com isto, tenho de lidar todos os dias da minha vida, mas não tenho de lidar com as preocupações e questões de outros. Porque já é tão difícil lidar com as questões dos envolvidos, que não sei se aguentaria ter de lidar também com mensagens e dúvidas constantes sobre isto vindo de outros, de fora. Ainda que fossem de preocupação, de cuidado, de amizade, não me senti (e acho que ainda não me sinto) preparada para ver a minha vida exposta desta forma. Logo eu que, como sabes, sofro de exposiofobia. Gosto tanto do meu cantinho às escuras. Portanto, não interpretes esta atitude como um sinal de falta de confiança em ti, porque se for falta de confiança não será em ti, certamente, mas em mim e na minha capacidade de ser vulnerável.
Acho que depois de leres o que tenho para te dizer, todas as peças do puzzle se irão encaixar e tudo te fará muito mais sentido. A minha distância, a minha ausência, o meu silêncio. Os nossos amigos até brincam se eu estou viva ou já estou enterrada, tal é o meu desaparecimento. Acho que conseguirás compreender a minha fuga de qualquer contacto social e o meu isolamento, porque me conheces. E sabes que eu curo as feridas sozinha, no meu espaço, ao meu tempo. Mas a questão é que se passaram dois anos desde que tudo isto aconteceu e as minhas feridas continuam abertas e, se possível, talvez mais ardentes e profundas do que inicialmente estavam. O meu processo de cura não tem sido linear e por cada passo dado em frente, sinto que recuo outros tantos. Acho que faz tudo parte, mas, por vezes, sinto-me perdida e confusa. E nunca deixo de me sentir quebrada. Irremediavelmente quebrada. Se tivesse de escolher uma palavra para me descrever neste momento, essa seria a ideal: quebrada. Estou a fazer tantos lutos em simultâneo: luto da minha família, luto da ideia que tinha dos meus pais, luto de mim mesma, da minha vida antes de tudo isto. Porque em muitos momentos é isso que sinto: que morri. Deixei de ser a pessoa que era. Roubaram-me a leveza, a simplicidade, a tontice. Tornei-me numa pessoa séria e tão zangada. Às vezes a minha raiva faz o meu coração acelerar como se passasse da primeira à quinta mudança em segundos. Não sabia que uma pessoa de 1,65 cm conseguia conter tanta raiva dentro de si, mas ficarias surpreendida com as toneladas que consigo armazenar neste corpo de fada. Também me tornei numa daquelas pessoas que tem um sorriso triste, sabes? Nunca perdi o meu sorriso, mas para os mais atentos, é detetável a diferença de intensidade com que sorrio. Hoje o meu sorriso é um sorriso de nostalgia, de perda. O meu olhar confirma o mesmo. Estou triste, estou imensamente cansada, aliás, estou exausta e estou muito zangada. E tu nunca desconfiaste de nada, não só porque eu tenho fugido de todos os convívios como, quando estou presente, uso a minha melhor máscara. Todos esses momentos sociais são carnaval para mim. Coloco a minha melhor máscara e lá vou eu. Ao mesmo tempo, tenho de te confessar: nunca sabemos como vamos reagir às coisas até estas nos acontecerem. E também só conhecemos a nossa força e resiliência quando as coisas más nos batem à porta. Ainda hoje não te sei explicar como é que, naquela segunda-feira, consegui vir trabalhar e me apresentar ao mundo, quando só me apetecia ter ficado enfiada debaixo dos cobertores, de olhos fechados, a fingir que nada disto era real. Somos mais fortes do que julgamos e isso é uma descoberta positiva no meio de tanta coisa negativa. Mas também sei que esta força tem um custo, um preço.
No meu caso, foi a minha felicidade e, sem dúvida alguma, a minha liberdade. Cortaram-me as asas ao mesmo tempo que me tiraram o chão dos pés. Sei que hoje sou uma pessoa muito mais reativa a qualquer estímulo, salta-me logo tudo. Ando sempre com o coração nas mãos. Sabes, algumas das piores notícias da minha vida foram-me transmitidas via telefone, por isso, criei uma fobia a telefonemas inesperados. Se a minha mãe me liga ou manda mensagem a meio do dia, sem razão aparente, transformo-me numa pilha de nervos em segundos. Até gozam comigo por isso, mas não consigo evitar. Estou sempre em modo alerta e em modo de perigo. Como se me quisesse preparar para o mal que aí vem, porque espero sempre isso: mal. Viver neste constante estado de sobressalto é nocivo e sabes que ninguém melhor do que eu para o saber.
Já te disse tanto e ainda não te disse o mais importante, que foi o que provocou tudo isto. Mas agora que reflito, talvez a causa não seja o mais importante, talvez tudo o que disse até agora seja o mais urgente e pungente.
Amiga, uma lição que aprendi foi que nunca sabemos as lutas que cada pessoa que passa por nós trava no seu interior. Eu tornei-me numa dessas pessoas, que por fora parece intacta e intocável, mas por dentro está estilhaçada em fragmentos de todos os tamanhos e formas. Andamos todos tão cegos, focados em nós mesmos, que nunca esquecemos de olhar para fora de nós e ver o mundo que nos rodeia. Eu sou uma dessas pessoas, vivo aprisionada nos meus dramas e problemas. Com isto, quero dizer-te que tenho falhado como amiga. Não tenho manifestado qualquer interesse na tua vida, se estás bem, se estás a gostar do novo trabalho, se está tudo bem em casa. Não tenho feito nenhum esforço nem investimento em manter a nossa amizade. Mas também tenho de te dizer que esta falta de esforço não provém apenas da minha parca energia e disponibilidade emocional, mas também vem da certeza que a nossa amizade é daquelas de aço, que a água e fogo não conseguem quebrar nem corroer. Que o tempo de ausência se esfuma em segundos de contacto. Sei que estás sempre à distância de um click, a poucos metros de mim, caso seja necessário. Só não consegui ainda quebrar o vidro do alarme para acionar em caso de emergência. Não sei do que estou à espera, mas sei que se o fizer, tu não me faltarás e serás a chefe da fila do meu socorro. Tal e qual como eras sempre a chefe de fila nos simulacros da escola. Uns diriam que era por seres a mais alta da turma, eu acho que sempre foste tu por conseguires reunir a calma e tranquilidade necessárias quando todos os outros se entregavam ao stress e ao pânico.
Talvez eu consiga fazê-lo, talvez nunca o faça. Só espero é que, tanto num caso como noutro, não me falhes nunca.

19
Fev20

All your perfects

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Este blog começa mesmo a transformar-se, aos poucos, num clube de adoração a Colleen Hoover. Mas não consigo evitar tornar a falar de um livro dela, porque foi o último que li (terminei ontem) e foi, talvez, dos mais intensos que já li, se não me atraiçoa a memória. É imperativo escrever sobre este livro, porque, como já disse e torno a repetir, há livros que nos abalam, que nos viram do avesso e que nos transformam. Há livros que são arte, são magia e quando abertos, nos levam não só para outros mundos, mas também para mundos dentro de nós mesmos nunca antes conhecidos e explorados. All your perfects é um exemplo exímio desse tipo de livros. 

A primeira vez que ouvi falar deste livro foi no blog da Mariana Alvim, que faz parte da equipa das manhãs da RFM. A Mariana é uma leitora compulsiva e adora romances, já me "aconselhou" indiretamente a ler muitos livros devido às reviews que faz dos mesmos. E também é fã assumida da Colleen Hoover, pelo que, quando li a sua opinião sobre All your perfects fiquei imediatamente curiosa e com vontade de o ler. Sabia que o leria em inglês, porque ainda não está traduzido, mas sem qualquer problema porque cada vez aprecio mais ler em inglês e tem sido uma excelente forma de poupar uns euros, tendo em conta que os livros são bastante mais acessíveis.

Quando chegou a casa, coloquei-o na mesinha de cabeceira e posso afirmar, com segurança, que permaneceu na fila de espera uns bons meses. Sempre que acabava de ler um livro, olhava para ele e sentia que ainda não era o momento. Não sei se mais alguém partilha este traço estranho comigo, mas eu tenho uma espécie de feeling em relação aos livros. Preciso de sentir que estou na fase certa e plena para ler aquele livro em específico, da mesma forma que sei quando preciso de um time-out de determinado género e preciso de ir alegrar os olhinhos com outras leituras. Andei neste jogo durante algum tempo, porque sentia que este livro ia ser intenso, ia absorver toda a minha capacidade emocional, ia esvaziar-me e preencher-me em simultâneo. Atenção, não sabia muito da história, mas do pouco que sabia, sentia que seria um livro profundo e nada light. Aliás, nada do que a Colleen escreve é leve ou simples.

”If you only shine light on your flaws, all your perfects will dim.”

Posso confirmar que a minha intuição estava certa, porque este livro é tudo menos leve. Sinto-me drenada e arrebatada por ele. E não vou entrar em detalhe nenhum da história, porque ao fazê-lo iria estar a estragar qualquer coisa, ainda que mínima, e este livro não merece isso. Merece que quem o lê, vá completamente ao desconhecido, que se deixe levar, que se entregue e, meus amigos, que sofra. Porque vão sofrer, preparem-se para isso. Isto não significa que o final da história será uma tragédia, apenas significa que é um livro intenso, é forte, é emocional da primeira à última página. Mas também posso assegurar-vos que há um pouco de cada emoção, nem tudo é tristeza. Aliás, há momentos incrivelmente felizes e apaixonantes e é também por esses que sentimos tão intensamente esta história e sofremos tanto com as personagens. Posso dizer que sofri ao ler este livro, chegando ao ponto de me sentir inquieta e desassossegada em alguns capítulos, noutros senti que o meu coração e o meu peito iam arrebentar de tanto ar que sustive. Chorei muito, chorei tanto que o meu namorado olhou para mim, perdido de riso, e me veio acalmar, frisando que era apenas um livro.

Mas a questão é mesmo esta: sendo apenas um livro, não é apenas um livro. Tocou tantos aspetos e tantas dinâmicas com as quais me confronto diariamente. Fez-me questionar muitas coisas da minha própria vida e levou-me a posições e perspetivas novas, que eu nunca tinha experimentado antes, sobre os assuntos de sempre. Foi doloroso ler este livro, porque a história e as personagens misturaram-se com tantos episódios da minha realidade, despertaram-me para pensamentos e atitudes que não quero ter e que, ultimamente, têm sido frequentes. Mas foi igualmente transformador e libertador aceder a alguns lugares estranhos e perdidos dentro de mim e das minhas relações.

Há duas passagens em especial que me tocaram e quero partilhar. Uma está perdida algures neste emaranhado de palavras, outra é com a qual pretendo terminar este texto, que está completamente desformatado em termos de sentido e lógica, mas que se assemelha muitíssimo ao meu interior depois de ler um livro que me destabiliza, como foi o caso deste. Aconselho vivamente e asseguro-vos, por tudo que é mais sagrado, que a Collen não me paga nenhuma comissão por toda a publicidade que lhe faço. Apenas desejo que nunca deixe de escrever, porque nos iria privar de muita riqueza.

“What's the secret to a perfect marriage?'
'Our marriage hasn't been perfect. No marriage is perfect. There were times when she gave up on us. There were even more times when I gave up on us. The secret to our longevity is that we never gave up at the same time.”

11
Fev20

Como o "Isto acaba aqui" acabou comigo

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Sou uma fã assumida e orgulhosa da Colleen Hoover. Já foram diversos os textos que escrevi sobre o impacto dos seus livros em mim e sobre a forma como admiro o trabalho e o talento de Colleen. Só não me aventuro a criar-lhe um clube de fãs porque já devem existir centenas deles e o meu seria apenas mais um, perdido no universo. E depois leio o "Isto acaba aqui" e começo a reformular toda esta ideia de (não) criar um clube de fãs, porque quando eu achava impossível não me deslumbrar mais pelo trabalho de Colleen, ela é capaz de me surpreender e todo o seu talento se debruça sobre mim como uma avalanche.
Fiquei acordada até às tantas da manhã, num dia de semana, sabendo que teria poucas horas de sono, para acabar de ler este livro. E valeu cada segundo de sono perdido, porque o que perdi em descanso, ganhei em entusiasmo, euforia, tristeza, raiva, eu sei lá, toda uma montanha russa de emoções. O mais curioso é que eu não estava nada curiosa para ler este livro. Aliás, quando lia e relia a sinopse do livro, sentia que não era o tipo de livro que iria prender a minha atenção. Até que num belo dia, numa viagem pelo Goodreads, li uma resposta da Colleen a um fã, que a questionava qual dos seus livros mais gostava. Ao que a Colleen não se poupou a respostas politicamente corretas e, abertamente, disse que era o "Isto acaba aqui", por ser o livro mais pessoal e intenso que já havia escrito. E foi aqui que a coisa se inverteu para mim. Onde antes não havia curiosidade, do nada nasceu toda uma vontade de descobrir este livro e perceber se, afinal, era assim tão incrível como todas as pessoas no Goodreads comentavam, inclusive a própria autora do livro.
E ... o que dizer? O que dizer para além do óbvio e já dito por todo o universo de pessoas que leram este livro? É realmente incrível. É tão incrível que senti necessidade de escrever sobre ele, para que mais pessoas possam deitar os seus olhinhos nele e se deixarem levar por uma história que tem um pouco de tudo e em que não falta nada, mesmo nada.

Sempre que escrevo a minha opinião sobre livros, sou muito superficial, porque não quero, de forma alguma, dar spoilers. Nunca sei como conciliar falar do livro com entusiasmo sem dar demasiadas informações sobre a história, mas vou dar o meu melhor para vos tentar explicar o porquê deste livro me ter arrebatado, como eu nunca, nem nos meus maiores sonhos, imaginei.
O tema base e central deste livro é a violência doméstica. É a história de uma jovem de 25 anos, Lily, que cresceu a assistir a cenas de violência entre os pais, mais concretamente o pai a agredir a mãe. Conhecemos a Lily de hoje, jovem adulta, emancipada, a conquistar todos os sonhos que tem para a sua vida, e, ao mesmo tempo, vamos conhecendo a Lily do passado, com 15 anos, que assistia ao que ninguém deveria alguma vez assistir e ao impacto que todos esses episódios tiveram na construção da sua personalidade e na forma como se relaciona com os outros. E até aqui nada disto parece muito fascinante, mas posso dizer-vos que há uma pessoa especial que cresce com Lily, que a marca para sempre e posso também dizer-vos que surge uma pessoa no presente de Lily, que parece ser a pessoa perfeita, que se apaixona por Lily, por quem Lily se apaixona e por quem, também nós, leitores, acabamos por nos apaixonar a dada altura. Estas duas pessoas terão muito peso e influência na história de Lily, no rumo que a sua vida vai tomar, nas escolhas e decisões que esta terá de tomar.
Mas não é sobre a história de que vos quero falar, embora a tenha adorado. Adorei todos o detalhes dela, todos, todos. Adorei a forma como a Colleen conseguiu criar personagens tão dinâmicas e que, no final, nos fazem acreditar numa frase chave no decorrer deste livro: não há pessoas más, há apenas pessoas que por vezes fazem coisas más. Adorei a genialidade da autora em nos dar a conhecer o passado de Lily através das entradas dos seus antigos diários, que são deliciosas. Mas esta genialidade não se esgota e Colleen consegue escrever sobre as dinâmicas e os conflitos internos da violência doméstica de uma forma que nos envolve, que nos faz sentir que somos aquela vítima, que aquela poderia ser a nossa realidade e poderíamos ter de ser nós a ter de tomar tais decisões. Colleen alerta, em mais do que um momento, para uma questão que me tem passado em loop na mente: tendemos a dirigir os nossos pensamentos mais críticos e duros para aqueles que são vítimas de violência doméstica do que para os agressores. É-nos mais fácil julgar a mulher que não sai de casa, que não abandona o marido violento, pensar nela como fraca e frágil, até como pouco inteligente por cair sempre no mesmo engodo e na mesma armadilha de perdoar, por achar que não se voltará a repetir. E enquanto o fazemos, vamos deixando escapar impune os agressores, que não destroem apenas fisicamente as vítimas diretas, destroem-nas por dentro e destroem todos os que estão em seu redor. Mas, ao mesmo tempo, Colleen ainda nos consegue deixar sentir um pouco de empatia por estes mesmos agressores, mostrando-nos que estes também têm uma história e que, muitas vezes, também estes estão num sofrimento inesgotável. No entanto, Colleen nunca nos deixa cair na armadilha de pensar que ter uma história de vida difícil é um motivo ou uma justificação. É apenas isso: uma narrativa que nos leva a perceber que, novamente, as pessoas não são boas nem más. Apenas fazem coisas más por vezes. 

Há muito da vida, do passado de Colleen neste livro. Há vulnerabilidade, há a sensação de que a autora escreve este livro com um objetivo triplo: engrandecer a mãe, perdoar o pai e libertar-se a si mesma, rescrevendo a sua história ou, pelo menos, a forma como sempre olhou para a mesma. Hoje entendo o porquê deste ser o seu livro preferido e o mais difícil de escrever. A matéria-prima não só era densa, pesada, negra, como vinha de fontes próximas.
Poderia dizer-vos tanto sobre este livro e sinto que seria sempre insuficiente. Quem já o tiver lido, partilhe comigo nos comentários o que achou! Quem não o fez, faça-o, não se irão arrepender. Para mim foi apenas mais uma confirmação de que Colleen Hoover tem um talento que transborda, não tem início nem fim. Foi a confirmação, também, que, de quando a quando, aparece um livro que nos abala, que nos faz estremecer, que nos deixa a pensar, que nos transforma. Tudo nele é brilhante, até o próprio título.

E, em jeito de conclusão, termino com uma frase que me ficará gravada para sempre, que ressoou tanto dentro de mim, pelos motivos mais óbvios: quando a vida é difícil, parecendo não haver solução, há que continuar a nadar. Nem que pareça que apenas flutuamos ou que estejamos a afundar, nunca podemos deixar de nadar. Chegaremos à margem.

07
Fev20

sextas-feiras

girl

Finalmente sexta-feira. Nunca desejei tanto que uma semana acabasse como esta, sinto-me exausta e farta, fartinha, de trabalhar, de ter de lidar com gente doida à solta. Só quero paz e sossego, só quero dormir sem ser acordada pelo despertador, repor todo o sono em dia e desligar. Esta semana foi muito exigente e sinto que não houve um dia em que me conseguisse desconectar totalmente do trabalho. Não tanto das tarefas que tenho em mãos, mas das preocupações que as pessoas partilham comigo, o descontentamento, o desânimo, a frustração. Mas, mais do que isso, não me senti capaz de me desligar da minha própria frustração.

Ontem, quando entrei no carro, dei por mim a chorar. Não que algo extraordinário tivesse acontecido, mas foi um daqueles dias em que parece que levamos uma bofetada da realidade e percebemos as coisas como são e não como gostaríamos que fossem. Chorei por estar cansada, chorei por ter passado o dia num stress e adrenalina enormes, chorei porque precisava de esvaziar o tanto que acumulei e chorei também de frustração, por confirmar que cada vez reúno menos e menos condições para estar num trabalho que não me acrescenta e, por vezes, ainda me consegue retirar algo. 

Parece que um muro se ergueu no meu caminho, bloqueando-me a passagem. Estou estagnada, sem conseguir avançar mais neste trajeto, tendo a certeza que apenas me resta construir um novo percurso. E, embora possa parecer sádico, estes momentos de frustração fazem mais por mim do que as próprias vitórias e conquistas. Esta insatisfação e sensação de acomodação são a força motriz para mudar, são as tabuletas no meio da estrada que me apontam o caminho a seguir e me indicam que este em que sigo é uma via sem saída. 

Mas hoje é sexta-feira, não há nuvem negra nenhuma que possa pairar no céu azul e luminoso de uma sexta-feira. É tempo de parar, de repor energia, de refletir com a mente tranquila e não agitada como estava ontem. É sexta-feira e, só por isso, sinto-me feliz :) 

03
Fev20

Indignação!

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Indignação. É a palavra desta segunda-feira, que ainda vai a meio e já vi um bocado de tudo. Sou uma pessoa indignada com as coisas, não consigo não permitir que me afetem, pelo menos ao ponto de não ter uma opinião sobre elas. Adoraria ser como aquelas pessoas que ouvem barbaridades, testemunham a idiotice dos outros sem sentirem vergonha alheia e sem se sentirem indignados. Eu sempre fui o oposto. Quando vejo alguma coisa que não está correta, quando me deparo com injustiças, tenho de falar. Eu tento controlar esta pulsão interior, a sério, tento com todas as forças. Mas é quase sempre mais forte do que eu e acabo sempre por arranjar (ou criar) oportunidade para falar sobre o que não está bem. Às vezes só faço figura de parva, outras vezes só arranjo lenha para me queimar e já tenho aprendido a ser mais calma e a compreender bem as situações, em primeiro lugar, para só depois agir sobre elas. E, outras vezes, consigo ajudar alguém e é por este nº de vezes, ainda que reduzidas, que ainda me indigno e falo. É por esta necessidade que me atravesso, sujeita a ouvir o que não quero, pelos outros. Porque não consigo ficar indiferente aos problemas dos outros e acabo, frequentemente, por os absorver como se fossem meus, o que também não está certo. Mas envolvo-me, irrito-me, sinto o calor subir-me ao rosto e o estômago a contorcer-se perante injustiças e, acima de tudo, perante o sofrimento dos outros.
Acaba de me acontecer mais um episódio de indignação. Desta vez, comigo, com a minha pessoa. E por mais que odeie sentir-me assim, sei que são estes momentos em que fico estupefacta, a tentar compreender se sou eu que estou a ver mal as coisas, que se acendem as luzes e se dá o click. É o meu momento eureka, o meu "ah!". É o momento em que ganho ainda mais certezas de que não é este o meu local, não é este o meu destino. E sei que tenho repetido neste blogue inúmeras vezes este discurso, estas conclusões repetitivas. Mas de cada vez que o escrevo, reúno certezas e, acima de tudo, forças para procurar a mudança. Porque a mudança é um percurso longo e sinuoso, não se faz de imediato, por maior que seja o nosso desejo.
Por isso, embora me traga tantos dissabores e dores de barriga, gosto dos meus momentos de indignação. Acordam-me para a realidade e reforçam a minha vontade de mudar. Boa segunda-feira para todos!

30
Jan20

declaro-me culpada

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Ando há alguns dias a pensar na forma como me inibo de falar de conquistas, projetos, ideias, sonhos!, com a minha família. Não foi algo de que me dei conta de repente, porque como já escrevi muitas vezes, a minha felicidade anda sempre de mãos dadas com a sensação de culpa e de inadequação, como se me sentir feliz fosse um ultraje e um ato pecaminoso. Às vezes esta sensação é criada por mim, outras vezes pela reação que os outros têm quando partilho algumas coisas boas da minha vida. É difícil falarmos de uma viagem que queremos muito fazer ou de um sonho profissional que queremos tornar realidade e recebermos como resposta uma expressão de desânimo, de semi entusiasmo misturada com o comentário "quem me dera" ou "oh, mas e eu?". Adensa-se a sensação de culpa e de condenação, como se a nossa felicidade fosse a evidência de tristeza e desilusão com a vida para outra pessoa.
Falar sobre este nó que carrego no peito é muito difícil. Primeiro, porque por mais que me esforce, nunca consigo encontrar as palavras certas e diretas que representam aquilo que penso e sinto em relação a isto. Porque, se por um lado, considero injusto e castrador não poder viver a minha vida em pleno sem causar desgosto aos que me são próximos, por outro, considero-me egoísta por traçar planos e dar aso a desejos quando esses, os mesmos que me são próximos, não estão bem. É a velha história da difusão de limites: onde começo eu e acaba o outro? Porque é que me sinto tão culpada e proibida de viver a vida que quero pelo facto das pessoas que amo ainda não estarem capazes de fazer o mesmo?
O segundo motivo que torna este assunto asfixiante é este conflito de sentimentos que não há forma de descrever. É sentir vontade de partilhar, mas engolir em seco essa vontade porque vai causar no outro uma sensação de estagnação, um sentimento de ver a vida passar e não a estar a aproveitar, uma confirmação de que a vida a uns pode dar tudo e a outros rigorosamente nada. Se estes "outros" fossem pessoas aleatórias, indiferentes, este era um não-assunto, não tinha existência. Mas estes outros são os meus outros, são a minha família.
Acabei de escrever isto e torno ao ponto inicial em que comecei: não consigo expressar-me em relação a este assunto. Não consigo arranjar uma forma de dizer que gostava que a minha família ficasse apenas feliz por mim e não me olhasse com uma expressão triste, miserável, de lamento. Gostava que, por uma vez, as minhas pequenas conquistas fossem apenas isso: conquistas. E que fossem minhas. Porque sempre que esta sensação se apodera de mim, sinto que as coisas boas deixam de me pertencer e transformam-se. Subitamente, já não são coisas boas que me acontecem, passam a ser evidência da inexistência de coisas boas na vida dos outros. É complicado falar, por exemplo, de uma viagem a dois, com a qual se anseia, se trabalha tanto diariamente para alcançar, e a resposta ser "não posso ir também?". Parte-me o coração e, ao mesmo tempo, tira-me o ar. Mergulho em compaixão e em desespero, num só segundo. E sei que, por mais que me tente explicar, nunca conseguirei fazer-me entender.
Por vezes, regresso ao dia em que a minha avó chorou nos meus braços, dizendo-me que apenas queria ficar connosco. E lembro-me de o partilhar com a minha mãe: vi nela o que vejo hoje em mim. O dilema, o conflito entre a necessidade de espaço e a necessidade de cuidado, a escolha difícil e até impossível entre fazermos o que nos faz bem e fazermos o que fará o outro sentir-se bem. Quase sempre optamos pela segunda hipótese, porque, embora difícil, ainda nos permite sentir o gosto da felicidade, por vermos bem aqueles que amamos. Fazemos esta escolha continuamente, priorizando os nossos, mas nunca deixando de sentir que uma parte de nós fica para trás, pendente, adiada. E, com isso, sentindo que nos vamos perdendo de quem somos e do que queremos, esquecendo-nos de viver a nossa vida.
Este texto não faz sentido nenhum. Mas eu estava a precisar tanto de tirar isto de dentro de mim. E, culpada por natureza como sou, ainda me consigo sentir (mais) culpada por sentir tudo isto. Andava com isto há dias na minha cabeça e escreve-lo não significa que deixe de sentir o que sinto, mas de alguma forma tudo se torna mais claro.

22
Jan20

back on track

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Nestes últimos dias, tenho refletido tanto acerca do rumo da minha vida e da forma como me apresento ao mundo todos os dias. Faço parte do grupo de pessoas que se preocupa com o que os outros pensam e que gosta que os outros gostem de si. Sim, é verdade, eu gosto que gostem de mim. E acho que não há nada de errado nisso, até porque não acredito que haja alguém que goste de ser desgostado, apenas acho que existem pessoas para as quais a opinião que os outros têm acerca de si lhes é completamente indiferente. Confesso que gostaria de ser mais assim, mas também admito que já fui mais uma people pleaser do que sou atualmente, embora ainda haja um caminho longo a percorrer.

Gostar de ser gostada, gostar de ser vista como a pessoa agradável, simpática e prestável leva-me, muitas vezes, a cair no desejo de agradar os outros. O que tenho refletido nos últimos dias é onde começa o meu desejo de agradar e termina a minha verdadeira essência. Qual é o ponto em que deixo de ser eu, de fazer aquilo que realmente gosto e acho correto, para me transformar numa pessoa que não sou, mas que os outros esperam que eu seja? 

Este pensamento começou a surgir na minha mente na semana passada, de manhã, ao chegar ao escritório. Costumo encontrar sempre as mesmas pessoas quando chego, à porta, perdidas nos seus pensamentos enquanto fumam o seu cigarro pré-jornada de trabalho. E cumprimento sempre toda a gente com um sorriso aberto e um audível "bom dia!". Um dos meus colegas ri-se sempre e todos os dias me pergunta "como é que consegues estar sempre tão bem disposta logo de manhã?", seguindo-se por um "quem me dera ser assim". Eu sorrio de volta e fico a pensar no que ele me diz. 

Porque eu não estou sempre bem disposta, isso é garantido. Sabe Deus o terramoto que vai dentro de mim algumas manhãs, em que saio de casa furiosa e cansada, ainda mal o dia começou. Mas quando chego ao trabalho, tomo sempre a mesma decisão: ninguém tem de levar com os meus problemas e mau humor. Escolho sempre colocar um sorriso e apresentar-me como uma pessoa alegre, porque os outros não têm culpa e, também, porque não beneficio nada em continuar mergulhada em mau humor. Mas admito que também o faço porque gosto que as pessoas me vejam como uma pessoa sorridente e descontraída. Gosto que seja essa ideia que lhes trace a mente assim que pensam em mim: a rapariga simpática. 

E neste ponto, acho que não estou a representar uma pessoa que não sou, porque considero-me verdadeiramente simpática. E gosto tanto de oferecer sorrisos, porque sei como podem iluminar a escuridão de um dia mau. É como um pequeno presente diário, que escolho dar ao mundo, porque não escolho a quem o dou, está absolutamente disponível para toda a gente que se cruzar comigo, conhecido o não. 

Mas depois surgem situações em que sei, de antemão, que estou a representar uma persona. No trabalho acontece muitíssimas vezes, mas faço-o não só pelo desejo de ter uma boa reputação. Essencialmente, faço-o porque não quero que estas pessoas me conheçam a sério. Não quero que saibam mais acerca de mim do que precisam de saber, pois não tenho qualquer intenção de que façam parte da minha vida além do mísero papel que já têm. Só que, no trabalho que faço, se por um lado, tento manter inalcançável a minha verdadeira personalidade, por outro, falho redondamente neste exercício. Porque é-me exigido ser uma pessoa diferente da que sou, e até aqui tudo bem, mas é-me imposto ser alguém que não pretendo nunca ser, nem a fingir. E é aqui que a porca torce o rabo e acabo por ser mais transparente do que desejaria ser. Peçam-me tudo menos agir como uma pessoa que se está nas tintas para os outros. 

E volto ao início: ao rumo que quero para a minha vida e à forma como quero estar nela. Sei que não quero continuar a fazer um trabalho que me obriga a ser uma pessoa que não sou. Sei que quero seguir a minha vocação e o meu propósito. Sei, com tanta certeza, de que não nasci para fazer isto e que a culpa não é do trabalho em si, é minha. É como quando se termina um relacionamento: a culpa não é tua, é minha. Mas neste caso, é verdade: a culpa é minha. Este trabalho exige um perfil que não é, de todo, o meu. Não me consigo adaptar a esta forma de trabalhar, embora faça o meu  trabalho com a melhor qualidade que consigo e seja valorizada por isso. Simplesmente não consigo encaixar-me nestes moldes, neste formato. E é libertador chegar a esta conclusão. É libertador perceber, finalmente, que isto não é o caminho certo para mim, embora seja, sem dúvida, o mais seguro e menos arriscado. Eu gosto de segurança, prezo-a muito, mas gosto ainda mais de ser feliz e me sentir realizada. Sensação que só obtenho quando faço aquilo que gosto e que sinto, com certeza, que nasci para fazer. 

Hoje, o meu monitor do Chrome, que tem sempre uma frase inspiradora todos os dias, diz-me o seguinte: 

The secret to happiness is freedom. And the secret to freedom is courage. - Thucydides

Acho que não podia ser brindada com uma frase mais inspiradora e verdadeira do que esta, na fase em que me encontro. É como uma mensagem que entrou diretamente na caixa postal do meu coração e da minha cabeça. E sinto que preciso tanto desta liberdade. Estou a reunir a coragem, porque sei que tenho de começar o quanto antes. Não sinto que perdi tempo, porque esta experiência será sempre uma das mais enriquecedoras que já vivi. Mas já retirei a aprendizagem, a lição e, por isso, já não há quase nada aqui para mim. Chegou o momento de voltar à viagem, fazer-me à estrada e ir ao encontro do que me faz feliz. Esta paragem foi ótima para perceber que não passou disso mesmo, de uma paragem. Este ainda não é o destino final e eu estou de volta à estrada. 

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