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the old soul girl

the old soul girl

07
Fev20

sextas-feiras

girl

Finalmente sexta-feira. Nunca desejei tanto que uma semana acabasse como esta, sinto-me exausta e farta, fartinha, de trabalhar, de ter de lidar com gente doida à solta. Só quero paz e sossego, só quero dormir sem ser acordada pelo despertador, repor todo o sono em dia e desligar. Esta semana foi muito exigente e sinto que não houve um dia em que me conseguisse desconectar totalmente do trabalho. Não tanto das tarefas que tenho em mãos, mas das preocupações que as pessoas partilham comigo, o descontentamento, o desânimo, a frustração. Mas, mais do que isso, não me senti capaz de me desligar da minha própria frustração.

Ontem, quando entrei no carro, dei por mim a chorar. Não que algo extraordinário tivesse acontecido, mas foi um daqueles dias em que parece que levamos uma bofetada da realidade e percebemos as coisas como são e não como gostaríamos que fossem. Chorei por estar cansada, chorei por ter passado o dia num stress e adrenalina enormes, chorei porque precisava de esvaziar o tanto que acumulei e chorei também de frustração, por confirmar que cada vez reúno menos e menos condições para estar num trabalho que não me acrescenta e, por vezes, ainda me consegue retirar algo. 

Parece que um muro se ergueu no meu caminho, bloqueando-me a passagem. Estou estagnada, sem conseguir avançar mais neste trajeto, tendo a certeza que apenas me resta construir um novo percurso. E, embora possa parecer sádico, estes momentos de frustração fazem mais por mim do que as próprias vitórias e conquistas. Esta insatisfação e sensação de acomodação são a força motriz para mudar, são as tabuletas no meio da estrada que me apontam o caminho a seguir e me indicam que este em que sigo é uma via sem saída. 

Mas hoje é sexta-feira, não há nuvem negra nenhuma que possa pairar no céu azul e luminoso de uma sexta-feira. É tempo de parar, de repor energia, de refletir com a mente tranquila e não agitada como estava ontem. É sexta-feira e, só por isso, sinto-me feliz :) 

03
Fev20

Indignação!

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Indignação. É a palavra desta segunda-feira, que ainda vai a meio e já vi um bocado de tudo. Sou uma pessoa indignada com as coisas, não consigo não permitir que me afetem, pelo menos ao ponto de não ter uma opinião sobre elas. Adoraria ser como aquelas pessoas que ouvem barbaridades, testemunham a idiotice dos outros sem sentirem vergonha alheia e sem se sentirem indignados. Eu sempre fui o oposto. Quando vejo alguma coisa que não está correta, quando me deparo com injustiças, tenho de falar. Eu tento controlar esta pulsão interior, a sério, tento com todas as forças. Mas é quase sempre mais forte do que eu e acabo sempre por arranjar (ou criar) oportunidade para falar sobre o que não está bem. Às vezes só faço figura de parva, outras vezes só arranjo lenha para me queimar e já tenho aprendido a ser mais calma e a compreender bem as situações, em primeiro lugar, para só depois agir sobre elas. E, outras vezes, consigo ajudar alguém e é por este nº de vezes, ainda que reduzidas, que ainda me indigno e falo. É por esta necessidade que me atravesso, sujeita a ouvir o que não quero, pelos outros. Porque não consigo ficar indiferente aos problemas dos outros e acabo, frequentemente, por os absorver como se fossem meus, o que também não está certo. Mas envolvo-me, irrito-me, sinto o calor subir-me ao rosto e o estômago a contorcer-se perante injustiças e, acima de tudo, perante o sofrimento dos outros.
Acaba de me acontecer mais um episódio de indignação. Desta vez, comigo, com a minha pessoa. E por mais que odeie sentir-me assim, sei que são estes momentos em que fico estupefacta, a tentar compreender se sou eu que estou a ver mal as coisas, que se acendem as luzes e se dá o click. É o meu momento eureka, o meu "ah!". É o momento em que ganho ainda mais certezas de que não é este o meu local, não é este o meu destino. E sei que tenho repetido neste blogue inúmeras vezes este discurso, estas conclusões repetitivas. Mas de cada vez que o escrevo, reúno certezas e, acima de tudo, forças para procurar a mudança. Porque a mudança é um percurso longo e sinuoso, não se faz de imediato, por maior que seja o nosso desejo.
Por isso, embora me traga tantos dissabores e dores de barriga, gosto dos meus momentos de indignação. Acordam-me para a realidade e reforçam a minha vontade de mudar. Boa segunda-feira para todos!

30
Jan20

declaro-me culpada

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Ando há alguns dias a pensar na forma como me inibo de falar de conquistas, projetos, ideias, sonhos!, com a minha família. Não foi algo de que me dei conta de repente, porque como já escrevi muitas vezes, a minha felicidade anda sempre de mãos dadas com a sensação de culpa e de inadequação, como se me sentir feliz fosse um ultraje e um ato pecaminoso. Às vezes esta sensação é criada por mim, outras vezes pela reação que os outros têm quando partilho algumas coisas boas da minha vida. É difícil falarmos de uma viagem que queremos muito fazer ou de um sonho profissional que queremos tornar realidade e recebermos como resposta uma expressão de desânimo, de semi entusiasmo misturada com o comentário "quem me dera" ou "oh, mas e eu?". Adensa-se a sensação de culpa e de condenação, como se a nossa felicidade fosse a evidência de tristeza e desilusão com a vida para outra pessoa.
Falar sobre este nó que carrego no peito é muito difícil. Primeiro, porque por mais que me esforce, nunca consigo encontrar as palavras certas e diretas que representam aquilo que penso e sinto em relação a isto. Porque, se por um lado, considero injusto e castrador não poder viver a minha vida em pleno sem causar desgosto aos que me são próximos, por outro, considero-me egoísta por traçar planos e dar aso a desejos quando esses, os mesmos que me são próximos, não estão bem. É a velha história da difusão de limites: onde começo eu e acaba o outro? Porque é que me sinto tão culpada e proibida de viver a vida que quero pelo facto das pessoas que amo ainda não estarem capazes de fazer o mesmo?
O segundo motivo que torna este assunto asfixiante é este conflito de sentimentos que não há forma de descrever. É sentir vontade de partilhar, mas engolir em seco essa vontade porque vai causar no outro uma sensação de estagnação, um sentimento de ver a vida passar e não a estar a aproveitar, uma confirmação de que a vida a uns pode dar tudo e a outros rigorosamente nada. Se estes "outros" fossem pessoas aleatórias, indiferentes, este era um não-assunto, não tinha existência. Mas estes outros são os meus outros, são a minha família.
Acabei de escrever isto e torno ao ponto inicial em que comecei: não consigo expressar-me em relação a este assunto. Não consigo arranjar uma forma de dizer que gostava que a minha família ficasse apenas feliz por mim e não me olhasse com uma expressão triste, miserável, de lamento. Gostava que, por uma vez, as minhas pequenas conquistas fossem apenas isso: conquistas. E que fossem minhas. Porque sempre que esta sensação se apodera de mim, sinto que as coisas boas deixam de me pertencer e transformam-se. Subitamente, já não são coisas boas que me acontecem, passam a ser evidência da inexistência de coisas boas na vida dos outros. É complicado falar, por exemplo, de uma viagem a dois, com a qual se anseia, se trabalha tanto diariamente para alcançar, e a resposta ser "não posso ir também?". Parte-me o coração e, ao mesmo tempo, tira-me o ar. Mergulho em compaixão e em desespero, num só segundo. E sei que, por mais que me tente explicar, nunca conseguirei fazer-me entender.
Por vezes, regresso ao dia em que a minha avó chorou nos meus braços, dizendo-me que apenas queria ficar connosco. E lembro-me de o partilhar com a minha mãe: vi nela o que vejo hoje em mim. O dilema, o conflito entre a necessidade de espaço e a necessidade de cuidado, a escolha difícil e até impossível entre fazermos o que nos faz bem e fazermos o que fará o outro sentir-se bem. Quase sempre optamos pela segunda hipótese, porque, embora difícil, ainda nos permite sentir o gosto da felicidade, por vermos bem aqueles que amamos. Fazemos esta escolha continuamente, priorizando os nossos, mas nunca deixando de sentir que uma parte de nós fica para trás, pendente, adiada. E, com isso, sentindo que nos vamos perdendo de quem somos e do que queremos, esquecendo-nos de viver a nossa vida.
Este texto não faz sentido nenhum. Mas eu estava a precisar tanto de tirar isto de dentro de mim. E, culpada por natureza como sou, ainda me consigo sentir (mais) culpada por sentir tudo isto. Andava com isto há dias na minha cabeça e escreve-lo não significa que deixe de sentir o que sinto, mas de alguma forma tudo se torna mais claro.

22
Jan20

back on track

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Nestes últimos dias, tenho refletido tanto acerca do rumo da minha vida e da forma como me apresento ao mundo todos os dias. Faço parte do grupo de pessoas que se preocupa com o que os outros pensam e que gosta que os outros gostem de si. Sim, é verdade, eu gosto que gostem de mim. E acho que não há nada de errado nisso, até porque não acredito que haja alguém que goste de ser desgostado, apenas acho que existem pessoas para as quais a opinião que os outros têm acerca de si lhes é completamente indiferente. Confesso que gostaria de ser mais assim, mas também admito que já fui mais uma people pleaser do que sou atualmente, embora ainda haja um caminho longo a percorrer.

Gostar de ser gostada, gostar de ser vista como a pessoa agradável, simpática e prestável leva-me, muitas vezes, a cair no desejo de agradar os outros. O que tenho refletido nos últimos dias é onde começa o meu desejo de agradar e termina a minha verdadeira essência. Qual é o ponto em que deixo de ser eu, de fazer aquilo que realmente gosto e acho correto, para me transformar numa pessoa que não sou, mas que os outros esperam que eu seja? 

Este pensamento começou a surgir na minha mente na semana passada, de manhã, ao chegar ao escritório. Costumo encontrar sempre as mesmas pessoas quando chego, à porta, perdidas nos seus pensamentos enquanto fumam o seu cigarro pré-jornada de trabalho. E cumprimento sempre toda a gente com um sorriso aberto e um audível "bom dia!". Um dos meus colegas ri-se sempre e todos os dias me pergunta "como é que consegues estar sempre tão bem disposta logo de manhã?", seguindo-se por um "quem me dera ser assim". Eu sorrio de volta e fico a pensar no que ele me diz. 

Porque eu não estou sempre bem disposta, isso é garantido. Sabe Deus o terramoto que vai dentro de mim algumas manhãs, em que saio de casa furiosa e cansada, ainda mal o dia começou. Mas quando chego ao trabalho, tomo sempre a mesma decisão: ninguém tem de levar com os meus problemas e mau humor. Escolho sempre colocar um sorriso e apresentar-me como uma pessoa alegre, porque os outros não têm culpa e, também, porque não beneficio nada em continuar mergulhada em mau humor. Mas admito que também o faço porque gosto que as pessoas me vejam como uma pessoa sorridente e descontraída. Gosto que seja essa ideia que lhes trace a mente assim que pensam em mim: a rapariga simpática. 

E neste ponto, acho que não estou a representar uma pessoa que não sou, porque considero-me verdadeiramente simpática. E gosto tanto de oferecer sorrisos, porque sei como podem iluminar a escuridão de um dia mau. É como um pequeno presente diário, que escolho dar ao mundo, porque não escolho a quem o dou, está absolutamente disponível para toda a gente que se cruzar comigo, conhecido o não. 

Mas depois surgem situações em que sei, de antemão, que estou a representar uma persona. No trabalho acontece muitíssimas vezes, mas faço-o não só pelo desejo de ter uma boa reputação. Essencialmente, faço-o porque não quero que estas pessoas me conheçam a sério. Não quero que saibam mais acerca de mim do que precisam de saber, pois não tenho qualquer intenção de que façam parte da minha vida além do mísero papel que já têm. Só que, no trabalho que faço, se por um lado, tento manter inalcançável a minha verdadeira personalidade, por outro, falho redondamente neste exercício. Porque é-me exigido ser uma pessoa diferente da que sou, e até aqui tudo bem, mas é-me imposto ser alguém que não pretendo nunca ser, nem a fingir. E é aqui que a porca torce o rabo e acabo por ser mais transparente do que desejaria ser. Peçam-me tudo menos agir como uma pessoa que se está nas tintas para os outros. 

E volto ao início: ao rumo que quero para a minha vida e à forma como quero estar nela. Sei que não quero continuar a fazer um trabalho que me obriga a ser uma pessoa que não sou. Sei que quero seguir a minha vocação e o meu propósito. Sei, com tanta certeza, de que não nasci para fazer isto e que a culpa não é do trabalho em si, é minha. É como quando se termina um relacionamento: a culpa não é tua, é minha. Mas neste caso, é verdade: a culpa é minha. Este trabalho exige um perfil que não é, de todo, o meu. Não me consigo adaptar a esta forma de trabalhar, embora faça o meu  trabalho com a melhor qualidade que consigo e seja valorizada por isso. Simplesmente não consigo encaixar-me nestes moldes, neste formato. E é libertador chegar a esta conclusão. É libertador perceber, finalmente, que isto não é o caminho certo para mim, embora seja, sem dúvida, o mais seguro e menos arriscado. Eu gosto de segurança, prezo-a muito, mas gosto ainda mais de ser feliz e me sentir realizada. Sensação que só obtenho quando faço aquilo que gosto e que sinto, com certeza, que nasci para fazer. 

Hoje, o meu monitor do Chrome, que tem sempre uma frase inspiradora todos os dias, diz-me o seguinte: 

The secret to happiness is freedom. And the secret to freedom is courage. - Thucydides

Acho que não podia ser brindada com uma frase mais inspiradora e verdadeira do que esta, na fase em que me encontro. É como uma mensagem que entrou diretamente na caixa postal do meu coração e da minha cabeça. E sinto que preciso tanto desta liberdade. Estou a reunir a coragem, porque sei que tenho de começar o quanto antes. Não sinto que perdi tempo, porque esta experiência será sempre uma das mais enriquecedoras que já vivi. Mas já retirei a aprendizagem, a lição e, por isso, já não há quase nada aqui para mim. Chegou o momento de voltar à viagem, fazer-me à estrada e ir ao encontro do que me faz feliz. Esta paragem foi ótima para perceber que não passou disso mesmo, de uma paragem. Este ainda não é o destino final e eu estou de volta à estrada. 

15
Jan20

hora do banho

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Acredito que não sou apenas eu que tenho introspeções profundas e ideias geniais enquanto estou a tomar banho. Aqueles minutos lavam-me, muitas vezes, mais a mente do que o corpo. Não sei se é a água quente que, ao relaxar o corpo, deixa também a mente mais aberta e leve, mas quando tomo banho sinto-me sempre mais tranquila. Já para não falar que tenho incríveis debates comigo mesma e é, inúmeras vezes, o espaço onde tomo decisões, sobretudo as mais difíceis.
Ontem, enquanto tomava duche após o treino, dei comigo a sentir uma vontade muito forte de viajar. Para muitas pessoas, isto pode parecer banal e até algo ridículo de tão óbvio que é, porque a maioria das pessoas gosta de viajar e não é, de certeza, por falta de vontade que não o faz mais vezes. Mas, para mim, sentir esta vontade de ir, de me aventurar e, acima de tudo, de me afastar de casa é significativa. O ano que passou, quando chegou o momento de ir de férias, parecia que me estavam a empurrar para a forca. Uma parte de mim, bem escondida, estava entusiasmada, mas o bolo maior estava apavorado com a ideia de ir e deixar a minha família (ok, a minha mãe) sozinha. A ideia de estar longe, dela precisar de mim e, o pior de tudo, o sentimento de culpa por me estar a divertir e ela estar em casa, cercada pelos problemas.
Acho que sempre tive esta sensação de culpa presente na minha vida. A sensação de que não é justo me divertir, aproveitar a vida, enquanto os meus não o fazem. Sei que nada disto tem sentido lógico, mas tentem lá dizer ao meu lado emocional (que, já agora, é dominante) e vejam o que acontece. E o pior é que esta sensação de culpa, uma vez instalada, fustiga qualquer semente de entusiasmo e diversão. É como uma praga que se infiltra num terreno fértil, pronto a desabrochar.
Quando tento analisar-me e perceber o que está na origem deste sentimento, chego a duas hipóteses, que não são exclusivas, mas antes complementares. A primeira tem muito a ver comigo e com esta síndrome de impostor da qual padeço que, por sua vez, tem base numa autoestima débil. Desde que me lembro que penso sempre em mim a alcançar coisas, conquistas e, de seguida, vem um pensamento bomba que diz "impossível, tu jamais!". A sério, juro que é verdade. É como quando pensamos nas coisas boas e, imediatamente, ouvimos uma vozinha que nos diz "nunca vai acontecer". Eu sempre senti isto, esta sensação de que há coisas, sobretudo as boas, que não estão ao meu alcance e dificilmente me irão acontecer a mim. Porque, porquê a mim? Da mesma forma, quando as coisas boas acontecem ou quando faço algo bem, penso "será que isto está mesmo bem?", "será que isto está certo?". Ao não acreditar que mereço coisas boas, é inevitável não me sentir culpada quando essas me acontecem e não acontecem aos outros. É como se, lá está, fosse uma imposturice, como se não tivesse verdadeiro direito a isso.

Pausemos aqui para uma breve explicação: tudo isto é apenas sentido, é emocional. Racionalmente, sei que nada disto faz sentido, por isso, recorro muitas vezes à lógica, ao pensamento para analisar as minhas emoções e as minhas crenças irracionais. O problema é que usar apenas a razão é insuficiente. Quando se trata de algo tão profundo, a razão e a emoção têm de andar de mãos dadas. Isto significa que não basta pensar que mereço que as coisas boas me aconteçam, eu preciso, essencialmente, de sentir que as mereço. Entendem? É como num luto de alguém que amamos: não basta racionalmente sabermos que aquela pessoa morreu e não voltaremos a vê-la, temos de o aceitar também a nível emocional. Tem de existir um click, uma compreensão nos dois planos.
Posto isto, avanço para a minha segunda hipótese: a minha família. E não vos falo da amostra de família que tenho nos dias de hoje, mas sim da família que fomos e éramos até à pouco tempo. Nós éramos, aquilo que gostamos de chamar, uma família unida. Uma família em que cada um está disponível e presente para os outros, em que o problema de um é problema de todos. E eu sempre pensei que isto era ótimo, porque sempre me senti protegida e acreditei que, independentemente dos desafios que a vida nos apresentasse, seríamos capazes de os enfrentar e ultrapassar, juntos. Só que, com o divórcio dos meus pais e o desmoronamento da família, comecei a ganhar consciência de que talvez a nossa família não fosse unida, mas antes emaranhada. Estas são as famílias em que os limites não estão definidos e, como tal, os papéis que cada um ocupa também não são claros. Era frequente situações de casal serem resolvidas como se fossem situações familiares, que nos envolvessem a todos. Os aniversários de casamento não eram celebrados a dois, mas a quatro. Este emaranhamento (nem sei se esta palavra existe) fez com que os problemas de um fossem sentidos como responsabilidade de todos e isso é bom, mas só em determinada dose. Quando começamos a responsabilizar-nos pelos problemas que não são nossos e que, como tal, não temos forma de os resolver, as coisas complicam-se. O meu sentimento de culpa deriva também disto: de sentir que não tenho direito de aproveitar a MINHA vida porque a vida DA MINHA MÃE está em ruínas. Não me entendam mal, eu não consigo ser feliz em pleno se a minha mãe não estiver bem, não é isso que está em causa. O que está em causa é eu sentir a responsabilidade de resolver os problemas que são dela e não meus. Porque, quer queira quer não queira, há um caminho e todo um processo que lhe cabe a ela percorrer. De igual forma, eu, que também sou parte envolvida, tenho de percorrer o meu. Mas este sentimento de culpa nasce sempre que sinto que estou a avançar no meu percurso e olho para o lado e vejo que ela está estagnada no dela. Inevitavelmente, interrompo a minha jornada e vou para junto dela.
Por isso, quando dou por mim a sentir entusiasmo por viajar, aquela velha sensação de excitação e contentamento por ir numa aventura, não consigo evitar que estou a regressar ao meu caminho. Estou a voltar à pessoa que era, a voltar a sentir vontade de desfrutar da vida e não me focar só nos problemas. Não consigo evitar sentir uma enorme liberdade interior, ao mesmo tempo começo a sentir o sentimento de culpa a emergir. Quero avançar, mas não a quero deixar para trás. Isto faz algum sentido?
Quando comecei a escrever este texto, o meu objetivo era apenas falar de quão maravilhosos e inspiradores conseguem ser os banhos. Agora olho para tudo o que escrevi entretanto e não sei de onde é que isto veio, mas se veio, é porque era necessário. Ultimamente tenho escrito ainda mais para mim do que para qualquer tipo de público (se é que existe), o que pode tornar algum conteúdo chato e repetitivo, mas este blog funciona como o meu diário. Ou melhor, como a minha sessão de terapia. Tenho feito um trabalho intensivo a cada texto que escrevo, porque estas palavras são apenas a representação de milhares de pensamentos, de emoções turbulentas, de memórias, ora boas, ora aterrorizadoras. Por isso, a quem me lê e acompanha, peço desculpa se vos massacro com mais do mesmo a cada texto que publico. No entanto, não posso deixar de o fazer, até porque se apenas pensar nisto enquanto tomo banho, fico sem pele e zeros na conta bancária para pagar a despesa de água e luz!

14
Jan20

the thought train

girl

Como já referi algumas vezes, um dos meus hábitos diários, quase "religioso", é a meditação. Por norma, gosto de meditar de manhã, por um conjunto de razões: preparar-me mentalmente para o dia que se apresenta diante mim, é quando estou mais desperta e menos cansada (não correndo o risco de adormecer), há silêncio absoluto em casa porque sou sempre a primeira a acordar e levantar-me e, talvez o mais importante, coloca-me num estado de tranquilidade e, muitas vezes, bom humor, que são o melhor cartão de visita para dar ao mundo. Uma vez por outra, num dia mais stressante ou quando me sinto muito desperta, medito à noite, numa tentativa de relaxar progressivamente até que o sono acaba sempre por apanhar e não dou pelo fim da meditação. 

Uma das aplicações que utilizo para manter este hábito é a já tão conhecida aplicação Insight Timer. Descobri-a há cerca de 3 anos e desde aí a utilização tem sido quotidiana. Há pouco tempo cometi a "loucura" de me oferecer a mim mesma a subscrição premium, aproveitando o desconto de 50% da black friday. Embora a aplicação tenha a maioria dos conteúdos disponíveis gratuitamente, outros, muito aliciantes (como cursos ou outras ferramentas simples, como poder recuar e avançar na meditação), só estão disponíveis para usuários premium. Assim que passei para esta categoria, aventurei-me nos cursos disponibilizados por inúmeros professores de meditação, psicólogos, monges, enfim toda uma comunidade. 

Estou, neste momento, a acompanhar um curso dado por um psicoterapeuta, em que em cada sessão este recorre a uma metáfora para explorar o modo como nos relacionamos com os outros, com o mundo e, de certo modo, connosco mesmos. Cada meditação é uma maravilha para a alma, seja pela riqueza do conteúdo, seja pela beleza das metáforas utilizadas que, para mim, fazem a diferença na compreensão de muitos temas que, doutra forma, poderiam apenas ser confusos e de difícil apreensão. 

No domingo, fiz uma sessão cujo nome é "thought train", traduzindo, "o comboio do pensamento". Foi, talvez, um dos exercícios mais poderosos que já fiz a nível introspetivo. Basicamente, consiste em compreendermos a nossa mente como uma estação de comboios em que, a cada momento, estão a entrar novos comboios no cais, outros a partir em viagem, num ritmo frenético. Cada comboio representa um pensamento ou uma emoção ou uma sensação física. A nossa mente, no fundo, é este enorme conjunto de pensamentos a toda a velocidade, envolvidos em emoções. Neste exercício, somos convidados a sentar-nos na estação, a observar os comboios que chegam e que partem, isto é, quais os pensamentos em que entramos constantemente (como se fossem comboios dos quais somos passageiros), sem nos darmos conta. Assim que tomamos consciência destes comboios, podemos escolher se nos mantemos a bordo ou se voltamos ao terminal, à estação. Parece um exercício um tanto ou quanto disparatado, foi o que pensei quando comecei a minha visualização. Mas, muito rapidamente, consegui identificar os comboios em que embarco quase sempre, como se tivesse um bilhete vitalício. 

O primeiro que identifiquei foi o comboio "e se...?". As viagens alucinantes que eu faço a bordo deste comboio, os cenários e paisagens incríveis pelos quais passo ...! Se há coisa na qual a minha mente é mestre, é na arte de fantasiar e criar situações surreais. Escusado será dizer que a maioria destas são negativas e se fazem acompanhar por sentimentos de medo e preocupação, deixando a minha barriga num aperto ou às voltas.

O segundo foi o comboio "necessidade de controlo". Cada vez me tenho apercebido mais da minha necessidade, da urgência em saber como e quando é que as coisas vão acontecer. Da urgência em estar preparada, em saber como reagir, em não ser surpreendida. Penso que não é necessário afirmar que este comboio duplicou as suas rotas e viagens depois do que aconteceu cá em casa. As saudades que eu tenho de embarcar no comboio "surpresa" ou no comboio "deixar ir". Quando vivemos com esta necessidade de controlo, não sei, sequer, se estamos realmente a viver. A vida é precisamente o oposto, é incerteza, é descarrilamento. 

O terceiro comboio mais popular é o comboio "medo". Medo do que vai acontecer, medo de como vou reagir, medo do que os outros vão pensar e/ou dizer, medo disto, medo daquilo. Mais uma vez, apercebo-me que este comboio me leva para longe da vida, pelo menos, para longe da vida que pretendo viver e que desejo para mim. Ao longe, vejo o comboio "coragem" e o comboio "esperança" e faço sinal para que abrandem, para que eu ainda me possa juntar à viagem.

Como podem ver, um simples e até estranho exercício tem o poder de nos levar numa viagem pelas terras desconhecidas da nossa psique. Ter consciência e conhecimento de que estes comboios, sempre em movimento, são apenas a mente a funcionar como é suposto e saber que temos o poder de escolher em qual vamos entrar, em qual nos vamos manter, é libertador. Primeiro, significa que não somos o que pensamos, somos a consciência desses pensamentos. E, segundo, por sermos esse ser observador, com poder de escolha, somos nós os decisores dos pensamentos e das emoções que povoam a nossa cabeça e, em modo geral, a nossa vida. Para mim, é aqui que reside a verdadeira e talvez única forma de liberdade: dentro de nós mesmos. 

08
Jan20

Body guard

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No fim do ano fiquei doente. Durante todo o mês de dezembro, o meu corpo andou cansado e a emitir diversos sinais de que precisava de um reset. Comecei por me sentir extremamente cansada depois veio uma infeção pequena, mas chata, veio a rinite dizer um "oi" e depois veio a febre e umas dores de garganta insuportáveis, em que só a passagem de ar pelo esófago me fazia estremecer de dor como se alguém me estivesse a esganar. Cheguei a chorar com as dores, mas tudo começou a passar assim que os amigos antibióticos começaram a fazer efeito. 

Nesses dias fui obrigada a cancelar tudo que era jantares de Natal e saídas, deixando-me ficar no ninho para o meu corpo recuperar. E esses dias foram maravilhosos, como cheguei a escrever aqui. Foram dias de descanso absoluto, de matar saudades do sofá, de ver filmes da minha infância, de ler, de estar com a minha irmã como já não me lembrava de estar. Se o meu corpo não me tivesse obrigado a parar, provavelmente não aproveitaria esse tempo tão bem, por estar sempre ligada à corrente e querer fazer tudo a toda à hora. 

Isso fez-me pensar, mais uma vez, como o nosso corpo é sábio e zela sempre por nós. Começa por nos dar pequenos sinais de que algo não está bem, mas como acontece quase sempre, tendemos a ignorar e a esticar um pouco mais a corda. Depois os pequenos sinais crescem e à medida que os vamos negligenciando, eles ficam de tal forma gigantes que deixam de ser sinais e passam a ter vida própria e impedem a nossa de correr em feição. Porque a verdade é que se o nosso corpo não nos forçar a parar, de quando em quando, jamais paramos por nós mesmos para lhe fazer a devida e correta manutenção. 

Esses dias foram terapêuticos e não apenas a nível físico. A minha cabeça estava a precisar de pausar, de entrar num ritmo mais brando e calmo. Eu estava a precisar de fazer mais as coisas que me deixam feliz e desfrutar delas em pleno, sem pressas. 

Hoje voltei a sentir alguns sinais do meu corpo. Uma necessidade de calma, de respirar fundo, de movimento. Acima de tudo a necessidade de restabelecer energia e de a focar no que é importante. Dei comigo a reagir com intensidade a coisas insignificantes e, com isso, a entrar em desequilíbrio.

Por isso, hoje pretendo dar-lhe toda a atenção e cuidado. Porque o meu corpo, os nossos corpos no geral, são autênticas máquinas que trabalham todos os dias, sem pausas, para que nos seja possível usufruir da vida e de tudo que esta tem para nos oferecer. O mínimo é ser-se grato e devolver toda a dedicação que ele nos dá. 

06
Jan20

insights

girl

Vamos no 6º dia de 2020 e sinto que este novo ano já deixou de ser novo, porque o peso dos problemas de sempre não deixa que nenhuma novidade se mantenha por muito tempo. O ano arrancou em força logo no seu segundo dia, com uma bombástica novidade familiar que, novamente, vem por tudo em alvoroço e desafiar todas as certezas construídas até à data. Tudo isto faz retornar medos e angústias, que não estando ainda sarados, regressam com ainda mais força. Mas a vida é mesmo assim, não é verdade? Sempre a abanar as nossas convicções mais certas e a provar-nos que viver um dia de cada vez é mesmo o segredo para um coração tranquilo. 

Sei, de antemão, que 2020 vai ser um ano desafiante. Vai ser o ano das grandes resoluções, sejam aquelas que dependem de mim, sejam aquelas que me são impostas pelos outros. Ainda agora começou e já tive uma quantidade generosa de insights, de súbitas compreensões acerca de questões que me têm andado a moer o juízo. 

Por exemplo, compreendi que, embora goste do trabalho que desempenho, não adoro o que faço. Como já partilhei, a minha profissão insere-se na minha área de formação, mas localiza-se mesmo na fronteira, quase a saltar para outro ramo. Na altura, como precisava mesmo de trabalhar, não pensei duas vezes em mergulhar nesta área, pela riqueza das oportunidades de trabalho, que em tanto contrasta com a pobreza das oportunidades na minha área de formação principal e, essa sim, dona do meu coração. Esta compreensão parece óbvia, mas a novidade, para mim, não foi perceber que não adoro o que faço, foi antes entender que, um dia que abandonar este trabalho, não pretendo seguir esta profissão. No dia em que me libertar, será para me dedicar exclusivamente ao que sempre gostei de fazer e para o qual efetivamente estudei. Esta compreensão fez-me sentir bem comigo mesma, mais leve de certo modo, por me fazer focar, estreitar a minha visão para o futuro. Com a necessidade de começar a trabalhar o quanto antes e, depois, de manter a independência financeira, acabei por negligenciar o quanto gosto da minha verdadeira profissão, como se guardasse este sentimento no meu sótão emocional, numa tentativa de não sofrer por aquilo que não tenho e saber valorizar o que tenho. Faz algum sentido?

Compreendi também, não pela primeira vez, mas da forma mais forte e radical, o quanto preciso de curar as feridas emocionais abertas. 2019 foi um ano de sobrevivência, em que o meu foco foi limpar, da melhor forma que consegui, os estragos criados por outros. Foi um ano de engolir sentimentos, uns atrás dos outros, de viver adormecida, o que me fez tantas vezes questionar se estaria realmente a viver ou simplesmente a existir. Foi o ano das grandes questões existenciais, do tumulto, do medo constante de não estar a aproveitar a vida como ela merece ser celebrada e compreendo, agora, que todos estes pontos de interrogação nasciam desta dormência emocional que, por sua vez, me levou à apatia e falta de vitalidade. Não posso dizer, porque não o sinto, que estive deprimida, mas também não posso negar que, provavelmente, andei lá perto. E ainda não estou bem, pelo contrário, este processo ainda agora começou. Mas como me disse a querida Sweet, somente a perceção desta necessidade de arrumação interna emocional, já é, por si só, um primeiro passo no meu processo de redescoberta. 

Não menos importante, compreendi a necessidade e urgência de movimento. De me mover, de cuidar do meu corpo, de fazer mais coisas que me dão prazer. Dei por mim a sentir vontade de rever os meus filmes preferidos, de ir fazer caminhadas na natureza pelo bem físico e mental que estas fazem ao meu corpo. Talvez por 2019 ter sido um ano de estagnação, 2020 tem tudo a ver com movimento, com fluidez, com retomar o curso natural das coisas, desbloqueando obstáculos e abrindo caminho. 

Como vos digo, 2020 vai ser um ano de emoções fortes. Já está a ser. Mas quando olho, pelo canto do ombro, para 2019, a paisagem desertificada e silenciosa das minhas emoções não é bonita. Pelo contrário, assusta pela ausência de cor, de brilho, de energia, de luz. É preciso rutura para deixar entrar novamente a luz, estou certa disso. E, pela primeira vez em muito tempo, sinto-me capaz de começar a quebrar para me poder reconstruir. 

03
Jan20

2020

girl

Estou há quase 15 minutos num jogo engraçado (e também irritante) de ora escreve ora apaga, resultando numa página em branco, que me olha com desilusão. Acontece-me muitas vezes: ter tanto sobre o que escrever que bloqueio todo o processo de escrita. É o mesmo com as minhas emoções: estão todas tão concentradas e emaranhadas umas nas outras, que se torna impossível sentir uma sem ativar as restantes. É por isso que tristeza, raiva, desilusão, cansaço andam de mãos dadas, como se temessem desintegrar-se caso uma se afaste e tenha o seu momento de protagonismo.
Com a escrita acontece o mesmo. São tantas as vezes que desisto de escrever por não saber por onde começar e por este desnorte espelhar a confusão que vai dentro de mim. Acabei de arrumar a minha secretária de trabalho e só desejava ser capaz de me arrumar com tanta facilidade como acabei de arrumar a minha mesa, deitando fora tanta coisa que carrego comigo como acabei de fazer com pilhas e pilhas de papéis inúteis. Ah, como eu gostava de chamar um serviço de limpeza interior, uma espécie de Marie Kondo emocional, para reformar o meu armário de pensamentos e sentimentos, organizando tudo por categorias como se organiza a roupa por cores. Infelizmente, este é um daqueles trabalhos que se desejamos bem feito, só nós o podemos fazer. Porque somente nós conhecemos detalhadamente a desarrumação que vai dentro de cada um de nós e, de igual modo, só nós podemos fazer a triagem correta entre o que fica e o que vai. Só nós conhecemos o canto de cada coisa e é arriscado deixar tal tarefa em mãos alheias.
Hoje de manhã pensei muito nesta questão da responsabilização e no modo como, muitas vezes, pretendemos ser salvos pelos outros, numa ânsia desesperada que alguém resolva os nossos problemas. Neste último ano, tive a oportunidade de aprender que tal não é possível e que quanto mais tempo perdemos à espera de um salvador, de alguém que nos acuda, mais tempo nos deixamos permanecer no problema. Sinto que ninguém em meu redor pode resolver as minhas questões por mim, compreendi que por mais que tentemos explicar o que vai dentro de nós aos outros, às vezes estes simplesmente não conseguem decifrar o nosso idioma. Não significa que não nos ajudem à sua maneira, que não se preocupem, mas é uma perda de tempo esperar que sejam eles a encontrar a luz ao fundo do túnel e torna-se cansativo depositar esperança e energias num trunfo que claramente não nos garante a vitória.
Quanto mais reflito nisto, mais me apercebo de como me cansei de me tentar fazer entender. Cansei-me de tentar ser compreendida e de forçar os outros a calçar o raio dos meus sapatos. E com este cansaço, veio a sensação de que, na verdade, não preciso que compreendam como é estar no meu lugar, desde que eu seja capaz de o fazer. Afinal, sou eu que estou nesta posição e apenas eu preciso de saber como lidar com ela, certo?
Numa entrevista a um casal que perdeu uma filha, um dos pais dizia que a ideia de que o luto é um processo sequencial é uma perfeita e tremenda estupidez. Seja porque todas as fases se parecem emaranhar umas nas outras, onde deveria haver tristeza junta-se a revolta, onde deveria haver aceitação surge o desespero; seja porque quando se termina o dito ciclo, retorna-se muitas vezes ao início, ficando a sensação de se está preso num círculo vicioso e muito, muito pouco virtuoso. Lembrei-me deste momento, porque acho que esta ideia resume, ou justifica, em grande parte, o remoinho que vai dentro de mim, este novelo de fios e nós, todos cruzados uns nos outros, formando um nó ainda maior.
Sabem, para 2020, não escrevi nenhuma lista de objetivos. Já tinha acontecido o mesmo em 2019, onde me limitei a assinalar 12 desejos que, ao rele-los, considero mais como 12 preces. Porque o grande objetivo, aquele que depois de concretizado abre caminho para todos os outros, grandes e pequenos, é desfazer este nó emocional que tenho em mim. É limpar o que está a ocupar espaço, libertar o que está a fazer peso e a impedir o movimento fluído e simples da vida. 2020 não vai ser o ano, tem de ser o ano.

26
Dez19

be here now

girl

E já lá vai o Natal. É sempre assim, uma correria desenfreada, toda uma antecipação e energia que se dissipam num piscar de olhos. Fica um vazio que nos leva a questionar "a sério que já passou?". 

Os dias de férias que tirei foram o verdadeiro presente de natal. Além de me terem permitido curar o corpo, que começa a manifestar por todos os lados que está cansado e a precisar de reforços, permitiram-me descansar a mente. Foram dias passados no sofá, enrolada numa manta e acompanhada com um chá a perder-me em clássicos da Disney, que apenas me fizeram confirmar que os filmes infantis são sempre mais para nós, adultos, do que para as crianças. As saudades que eu tinha de me maravilhar com um filme, de não ter o tempo contado, de me poder dar ao luxo de optar entre ler um livro ou vegetar em frente à televisão. 

Não acordei fora de horas um único dia, porque quando estou de férias, toda uma energia se apodera de mim, como se gritasse "tens de aproveitar cada segundo livre!", e salto da cama cheia de vontade de fazer coisas. Foi o que me aconteceu, por exemplo, ontem de manhã. Tinha-me custado tanto a adormecer, dormi muito pouco, mas eram 7h e pouco da manhã e já estava com as ganas de me levantar e fazer qualquer coisa. O que me vale é que apenas me desloquei da cama para o sofá e perdi-me a ver o Coco, um filme que ainda não tinha tido oportunidade de ver e me fez chorar como já não me lembrava. 

Foram dias que me fizeram pensar na forma como vivemos. Ou melhor, como existimos, porque cada vez compreendo melhor que passamos pela vida e poucos são os momentos em que podemos afirmar com certeza que a vivemos. E desengane-se quem pensa que para viver é preciso fazer um conjunto infinito de coisas e saltar de paraquedas, viajar ou ir a um restaurante novo todas as semanas. Sim, isso são experiências que nos podem fazer sentir vivos e, dessa forma, nos levarem a aproveitar a vida, mas não precisa de ser algo tão excêntrico. Basta estarmos presentes e plenos no que estamos a fazer. Retirar alguma satisfação e prazer. Seja a ver um filme, a ler, a cozinhar, a conversar, o que for. Tudo aquilo que aquecer a nossa alma e nos fizer sorrir, que nos fizer sentir aquela felicidade espontânea de gratidão por estarmos cá, já nos faz viver. 

É preciso aproveitar mais as coisas boas que temos disponíveis, as pessoas que temos em nosso redor, viver com leveza, tentando descomplicar, sobretudo naqueles momentos em que sabemos que temos tendência para nos perder em angústias e preocupações. Este natal foi este o meu exercício: deliciar-me com os pequenos prazeres da vida que tantas vezes sinto como inacessíveis. E o maior prazer é aquele que é vivido com calma, desfrutando sem pressas, sem exigências. Por isso, acho que esta foi a melhor prenda de natal que poderia ter oferecido a mim mesma: estar presente.