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the old soul girl

the old soul girl

17
Ago23

Ainda sobre a perda de expectativas ...

girl

Acho que uma das conclusões mais difíceis de digerir, para mim, é a de que não temos o poder de mudar ninguém. Eu sei, eu sei, é uma daquelas verdades absolutas e óbvias, mas, ainda assim, custa-me aceitá-la.

Custou, inicialmente, a nível profissional. Quem trabalha na área da saúde, creio que partilha esta espécie de savior complex, em que achamos que podemos fazer a diferença na vida das pessoas que recorrem aos nossos cuidados. E, de facto, podemos. Podemos fazer a diferença, mas dentro de um raio delimitado, que apenas amplia se a outra pessoa assim o desejar. Podemos dar todos os recursos, oferecer as melhores estratégias e cuidados, mas, no final, será sempre a pessoa a decidir se deseja aplicar o que temos para oferecer. Não depende de nós. E se hoje isso me parece libertador, quando comecei a trabalhar, era um peso que carregava nos meus ombros. Sentia, genuinamente, que tinha o dever, a obrigação de transformar para melhor a vida das pessoas com quem me cruzava. Conseguem imaginar o quão difícil é gerir esta expectativa? E o quão impossível? 

Quando me reconciliei com esta ideia, a nível profissional, não a apliquei de imediato às outras esferas da minha vida. Continuei, secretamente, a acreditar ser responsável pelo bem estar e felicidade das pessoas que me são próximas. De que os problemas delas, são os meus problemas. E, mais uma vez, voltei a confrontar-me com sentimentos de culpa e de fracasso. Porque, como é óbvio, ninguém é responsável pela felicidade de ninguém! E, como tal, por maior que seja a nossa vontade de mudar o mundo do outro, se este não quiser, não vamos conseguir! É uma receita para o desastre isto de acreditar que vamos conseguir fazer alguém feliz, que vamos ser os impulsionadores da mudança do outro. Não vamos. Podemos inspirar a mudança, podemos incentivar, manifestar o nosso apoio, a nossa presença, podemos ser companheiros dessa viagem, mas jamais, em momento algum, seremos os condutores dessa viatura. Não é o nosso papel. Não é a nossa vida. Podemos contribuir, mas temos de reconhecer os limites da nossa ação, até onde podemos e devemos ir. 

Para mim, isto não é pacífico. Continua a ser difícil aceitar e gerir esta ansiedade que surge em mim. Tenho de repetir a mim mesma, muitas vezes, que não sou responsável pela felicidade de ninguém, a não ser da minha. Tenho de fazer desta conclusão uma espécie de mantra, de lema, de afirmação, para conseguir encontrar alguma paz dentro de mim. E é muito difícil quando as pessoas que quero "salvar" me são tão próximas, tão queridas, tão amadas. É igualmente difícil desconstruir esta crença que fui alimentando ao longo dos anos de que o problema de um é problema de todos, de que cuidar é esta entrega exclusiva e obrigatória ao outro. Que é um dever. Isto não tem nada de altruísta, nem de bondade. Isto é sentido, por mim, como algo que devo fazer, que tenho de fazer, que é esperado de mim. Quebrar este padrão requer uma força dantesca e extinguir o sentimento de culpa é algo que ainda estou a aprender a fazer. 

Ontem dei comigo a pensar nisto, porque tentei tantas vezes arranjar soluções para um "problema" que não é meu e estas foram sempre devolvidas. Aquela pessoa quer amarrar-se ao problema, ainda não está disposta a abraçar as soluções. Se eu tento incentivar a ver o copo meio cheio, a pessoa responde-me que o vê meio vazio. Se eu digo que é tão bom ter um copo, a pessoa diz-me que não precisa do copo para nada. E eu encontro-me com esta frustração, com esta angústia e entendo que não há nada, absolutamente nada, que eu possa fazer para que aquela pessoa tente mudar a sua visão, a sua perspetiva. Fico triste, lamento, mas ontem, pela primeira vez, não me senti responsável, não me senti culpada por isso. Aceitei, simplesmente, que a minha ajuda ou tentativa de, atingiu o seu alcance e que não há nada mais que eu possa fazer, neste momento. Gostaria que a situação fosse diferente? Sem dúvida alguma que sim. Depende exclusivamente de mim? Não. E pensei que, talvez, esta pessoa não precise das minhas soluções, mas sim da minha presença, da minha validação de que existe um problema. Esta vontade de querer mudar o outro e o seu mundo, às vezes, leva-me a achar que são necessárias grandes atitudes e grandes feitos, quando, na verdade, nem sempre é isso que é necessário. 

É estranho afastar-me deste sentimento tão familiar, de culpa, de responsabilidade, mas é libertador. E, acima de tudo, é essencial para o meu bem estar e felicidade. Esses que são, sim, da minha total responsabilidade e para os quais, sim, devo e tenho de trabalhar diariamente. 

14
Ago23

the art of mourning

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Alerta para um post advindo de um emaranhado de fios mentais, de um novelo de ideias dispersas e enroladas umas nas outras. Esta é uma tentativa de desfazer nós e esticar linhas de pensamentos. 

Estou há horas a tentar escrever alguma coisa decente. Penso, escrevo, apago. Torno a pensar, torno a escrever, torno a apagar. Vejo o desânimo apoderar-se de mim, sinto o cansaço nas minhas pálpebras, a desmotivação a instalar-se na minha postura corporal. Ouço os meus pensamentos, presto-lhes a devida atenção. Eles dizem-me que não tenho jeito nenhum para isto. Que não consigo elaborar e trabalhar esta ideia que me surgiu. Que esta desorganização mental é real e por mais que tente arrumá-la, há sempre alguma reflexão que fica de fora e obriga a repensar toda a ordem até então criada. Que trabalhar a uma segunda-feira, numa véspera de feriado deveria ser proibido e que, por esse facto, me posso entregar a uma dose de letargia. Que me apetece muito criar coisas, investir, inventar. Que isso é difícil e não sei por onde começar. Que quero a mudança, mas será que estou disposta a pagar o preço que ela custa? Será que é um bom investimento? Que me sinto aborrecida. E isto não é apenas um pensamento que me ocorre, é também toda uma emoção e sentimento em si mesmo. Que me sinto triste. E cansada. Que existem várias fontes de cansaço na minha vida, de diferente origem, mas que se completam e fortalecem esta sensação de desfalecimento quotidiano. Que me sabe tão bem dormir e ler. Que em ambas as atividades me distancio de mim, deste estado de consciência e navego para outros mundos, outras realidades, outras pessoas e possibilidades. Que sinto fome. E que devo comprar um chocolate para aguentar até ao fim do dia, pois vai ser longo. Que não trabalhei quase nada e o dia já vai a meio, mas que também não em preocupo muito com isso. Que se lixe.

Não era sobre nada disto que queria escrever. Mas talvez não seja sobre o que quero, mas sobre o preciso de escrever. Quero escrever sobre livros, podcasts, música; mas preciso de escrever sobre as minhas dores e os meus pensamentos sobre elas.

Dou por mim a refletir sobre o conceito de luto e, inevitavelmente, sobre o de perda. Parece-me que andam de mãos dadas, a cara e a coroa da mesma moeda. Para cada perda tem de existir um luto. Mas há tantas formas de perda. A mais comum, e das mais assustadoras, é a perda de alguém que amamos. Mas existem outras que não exigem uma ausência física, o que não significa que não impliquem uma ausência. Há perdas de expectativas, de sonhos, de projetos. Há perdas de pedaços de nós, há perdas da totalidade de nós. Há perdas de rumo, de sentido, de propósito, de missão. E no meio destas perdas todas, há tanto luto por trabalhar. Sim, o luto é um trabalho. Duro, ingrato, escravo, controlador, precário. Um trabalho para o qual é difícil arranjar candidatos, por maiores e melhores que sejam as promessas de condições de trabalho. Lembram-se daquela expressão horrenda que estava inscrita nos portões dos campos de concentração nazis, O trabalho liberta? Naquele contexto e naqueles moldes, o trabalho não libertava, matava. Mas nesta minha linha de raciocínio condicional, se o luto é um trabalho e se o trabalho liberta, então o luto é um trabalho que liberta.

E é mesmo. Por mais que custe, por mais que demore, por mais que pareça não ter fim, o luto liberta-nos. E eu vejo-me neste compasso de espera, de indecisão, de avançar ou de me encolher perante este processo. De um lado, vejo as minhas perdas empilhadas, acumuladas umas atrás das outras. Perdas simples, simbólicas, essencialmente de expectativas que nem sabia que tinha criado. O próprio mecanismo de proteção de não criar expectativas advém de uma perda maior, que me convenceu que não se pode perder nada que não se possua em primeiro lugar. Claro que esta aprendizagem (não) brilhante foi feita num momento de desilusão, de estilhaços de sonhos e fantasias no chão. Mas pior do que perder um sonho, é perder todos pela perda da capacidade de sonhar. Durante muito tempo confiei que esta era uma boa estratégia, mas já não estou convicta disso. Sinto saudades de sonhar e, num plano mais amplo e abrangente, sinto saudades de mim, de um “eu” onde sonhar era um prazer.

As nossas perdas não trabalhadas, não choradas não se extinguem. Não evaporam. Apenas se sedimentam, formando várias camadas, umas em cima de outras, que vão causando erosão na nossa identidade e nas nossas relações, com os outros e com o mundo. É isto que vejo do outro lado. Existe uma expectativa e existe a realidade; quando ambas coincidem, maravilhoso, quando ambas se contrariam, é preciso chorar essa contrariedade. É preciso mastigar (não ruminar) as emoções que daí surgem e aceitar esta conclusão, encaixando-a na nossa história, na narrativa da qual somos autores. Às vezes este processo é rápido, outras vezes não. Às vezes é difícil olhar para as emoções com aceitação, é difícil estar com o desconforto que elas provocam. E não faz mal, porque isso também é, em si mesmo, um processo. Outras vezes, é difícil a aceitação. Não queríamos determinado desfecho, não queríamos escrever determinado capítulo. Não faz sentido na visão que pretendíamos construir. E, mais uma vez, está tudo bem. Porque é difícil desvincular de uma ideia, de um projeto, de uma vontade. Por mais lógico e racional que seja esse processo de desvinculação, há qualquer cola invisível que nos une àquela ideia, aquela perspetiva. Mudar de óculos, de lentes, requer um período de habituação, não é verdade?

São estes pensamentos que têm pairado na minha cabeça desde manhã. Sei que ainda não trabalhei esta ideia como gostaria, falta-me sustentação, falta-me limar as arestas. Mas o essencial está cá. A ideia central está lançada no mundo: tenho perdas para chorar. Tenho trabalho para fazer. Tenho de olhar para dentro e desembaciar as lentes, que estão ofuscadas pelo medo de sentir. Sim, medo de sentir. Durante muito tempo, fui refém deste medo. Medo de abraçar as emoções, sejam elas quais forem, com os dois braços abertos, de coração para coração. Medo de não ser capaz de as gerir, de elas me esmagarem em vez de me abraçarem. Medo de me paralisarem e me bloquearem. Nunca fizeram tanto sentido as palavras de Carl Jung: o que resiste, persiste. É preciso deixar fluir, seguir o rumo da corrente e não remar em direção oposta. Essa resistência vai criar mais entropia, vai bloquear o ritmo normal e saudável da vida.

O pontapé de saída está dado. Começar a “partir pedra” e desmontar este muro que construi entre mim e as perdas. Afinal, fazemos parte da mesma matéria, partilhamos o mesmo berço. Eu não sou as minhas perdas, mas elas fazem parte de mim. Da minha história.

E depois deste momento de escrita caótico e catártico, os pensamentos continuam presentes, mas eu apenas os observo e contemplo. Que bela atividade mental que para aqui vai.

11
Ago23

Férias

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Já perdi a conta ao número de vezes que ouvi pessoas a dizer "para tirar férias e ficar em casa, prefiro estar a trabalhar!". Por mais que tente compreender esta forma de olhar para as férias, admito que ainda não consigo empatizar com esta visão. Talvez seja porque não adoro o meu trabalho, talvez seja porque me "contento" com pouco, não sei. Para mim, o conceito de férias é simples: não ir trabalhar. Não preciso de ter grandes planos, não preciso sequer de sair de casa, basta quebrar a rotina de acordar cedo, preparar almoço, passar o dia no escritório, para me sentir de férias. 

Este ano tirei uma semana de férias sozinha. O meu namorado mudou recentemente de emprego e, como tal, em ano de admissão o direito às férias só surge após seis meses de trabalho. Eu, pelo contrário, como mudei de emprego no ano passado, acumulei alguns dias de férias. Assim, marquei uma semana de férias para desfrutar da minha companhia e, sem dúvida, que me soube pela vida!

A liberdade de fazer o que me apetece, não ter de conciliar vontades nem fazer cedências, não ter de esperar por ninguém, ser a dona do meu tempo e determinar a que horas vou fazer o que me apetecer fazer foi maravilhoso. Aproveitei para me dedicar a tudo que me nutre e faz sentir feliz, viva: caminhar com a música como companheira, pela natureza, pela praia; ler; ouvir música; descansar no sofá, com direito a ver filmes românticos e com finais felizes; escrever: sentar-me a ver o mar, as ondas, a sentir o sol. Foi tão bom parar e descobrir o que existe à minha volta.

Acima de tudo, foi a oportunidade mágica para estar comigo e entender que solidão e solitude são conceitos muito diferentes. Estive quase sempre sozinha, mas senti-me sempre acompanhada, plena e feliz por estar na minha companhia. Cheguei, inclusive, a ir lanchar sozinha, levar o meu caderno e escrever sobre o desconforto inicial que senti por estar sozinha num café, a lanchar, e sobre o modo como, ao aceitar esse desconforto, ele se foi dissipando e a experiência se foi tornando, gradualmente, cada vez mais prazerosa e rica. O modo como me senti viva e presente, focada nos estímulos à minha volta a que, por norma, estou alheia. Depois do lanche, ainda fui caminhar até à praia, em modo de passeio, desfrutando do sol, do vento, da alegria de ter tempo para mim e para usufruir dos pequenos prazeres da vida.

Confesso que também existiram momentos em que senti que seria bom estar acompanhada, em que gostaria de ter companhia para partilhar aquela sensação de paz e de bem-estar, de felicidade. Mas nunca foi um sentimento predominante e que me fez aproveitar menos o tempo livre. Pelo contrário, fez-me sentir grata por ter pessoas na minha vida com quem gosto de estar, de viver, e como uma dessas pessoas, a mais importante, sou eu mesma. 

Estar de férias, torno a dizer, é apenas não trabalhar. Por a rotina em stand-by e ter tempo para ser, para estar, para sentir, para fazer o que nos dá prazer e não apenas o que são obrigações e deveres. É desligar o despertador, mesmo que se continue a acordar cedo como se ele tocasse. Não faz mal, é um despertar completamente diferente. É a sensação de acordar para mais um dia, cheio de possibilidades, onde podemos escolher o que fazemos com cada segundo, porque somos os donos do nosso tempo. É cozinhar pratos deliciosos, que nos levam mais tempo, requerem mais técnica e trabalho, mas não faz mal, porque temos tempo para nos dedicarmos a eles. É conversar e estar com as pessoas de quem mais se gosta sem olhar para o relógio, porque existe todo o tempo do mundo para desfrutarmos uns dos outros, podemos dar atenção total a cada um. É um despir completo de afazeres, de telefonemas, emails, demandas. É abrandar para olhar para o céu, para ir ver o mar, para sentir o sol no rosto, para olhar para as árvores e flores e perceber que existe tanta natureza, todos os dias, à nossa volta. É regressar a casa, à casa que somos e cuidar dela, adorná-la, limpá-la, fazê-la sentir bonita, arrumada, serena novamente. É a sensação de regresso, de retorno, após uma longa temporada de ausência, de viver a meio gás, à superfície, apenas pela metade. 

08
Ago23

Getaway Car

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Uma das minhas características, que tantas vezes me irrita e torra a paciência, é que tendo dois caminhos possíveis diante de mim, opto (quase) sempre pelo mais difícil. Não me questionem, há qualquer coisa que me atrai em ir atrás das dificuldades. Ou simplesmente na falta de inteligência! Lembro-me das aulas de matemática, no liceu, em que a minha melhor amiga olhava para mim, com espanto e surpresa (e também, provavelmente, pena pela minha alma complicada), por me ver a calcular, manualmente, a fórmula resolvente, quando tínhamos a mesma instalada na nossa calculadora XPTO e nos permitia obter o resultado em segundos. Pior, mais do que calcular manualmente, eu fazia este cálculo, muitas vezes, depois de já ter o resultado dado pela máquina, apenas para confirmar que estava correto. Quem fala desta situação, fala de muitas outras. Parece que algo me compele a ir sempre atrás do que dá mais trabalho, do que exige mais de mim. 

É por isto que, quando decidi optar por um carro de condução automática, me senti em falha comigo mesma. Pela primeira vez na minha vida, encontrei-me a optar pelo caminho mais simples e fácil. Pareceu-me batota, como se estivesse a atalhar por uma rua que me leva exatamente ao mesmo ponto de chegada, enquanto todos os outros estão a percorrer o caminho "oficial". 

Conduzir, para mim, sempre foi uma questão. Não por não gostar de o fazer, mas por me sentir a pessoa mais incompetente, mal preparada e incapaz do mundo quando o fazia. Nada na minha vida me fez sentir tão pequenina como a sensação de me sentar em frente ao volante, engatar a primeira e não conseguir arrancar. Convenci-me de que era uma nódoa, uma vergonha, uma impostora, que por mera sorte passou no exame de condução à primeira, enquanto tanta gente mais competente e capaz chumbou. E esta é a parte engraçada do funcionamento das nossas mentes: quando as alimentamos diária e regularmente com proteína negativa, elas tornam-se resistentes a outro tipo de nutrição. 

Sentia-me cansada de estar dependente de outros, de me sentir um peso e uma inútil sempre que as minhas ansiedades e cismas levavam a melhor de mim e me obrigavam a pedir a alguém que me desse boleia, que me fosse buscar, etc. Não vivo numa cidade especialmente grande nem com uma vasta oferta de transportes públicos, pelo que, as únicas opções possíveis eram a) andar a pé ou b) andar à boleia. O grande problema é que a primeira opção nunca foi viável para me deslocar para o trabalho.

Assim, durante muito tempo, esta condicionante fez-me sentir mal comigo mesma. Ponderei regressar à escola de condução para ter algumas aulas, mas os meus pais sempre me disseram que o meu problema não estava na minha competência a conduzir, mas sim na minha confiança acerca da minha competência. Eles diziam que precisava de praticar, de arriscar, de me expor à vulnerabilidade de ser uma amadora e permitir que a experiência fizesse o seu papel e me fizesse adquirir gradualmente confiança em mim mesma. Perdi a conta ao nº de vezes que determinei, ano após ano, que me dedicaria à condução. "Este ano vai ser o ano em que vou conduzir!" dizia a mim mesma, todas as passagens de ano, à meia noite. Escusado será dizer que à primeira falha, adversidade ou contratempo, regressava ao meu estado de incapacidade. 

Até que me surgiu a ideia de conduzir um carro automático. A minha maior dificuldade foi sempre lidar com a ansiedade que advém quando o carro vai abaixo na entrada de uma rotunda, após o semáforo passar de vermelho a verde e, especialmente, nas subidas. Mais do que fazer o ponto de embraiagem, preocupava-me não ser capaz de tornar a conseguir conduzir se o carro fosse abaixo. Mas este medo e fonte de ansiedade poderiam facilmente dissipar-se se conduzisse um carro automático, que não exige muito mais do que travar e acelerar. Pareceu-me uma solução boa, boa demais, que pairou na minha mente durante alguns meses, até que decidi avançar com a compra. 

Sentia-me uma batoteira, mas pior do que me sentir uma desistente, era a sensação de me sentir uma dependente e um fardo para os outros. Por isso, quando comprei o meu carro, o meu primeiro carro de sempre, fi-lo para adquirir a minha liberdade, a minha independência, mas sentindo-me, simultaneamente, a optar pelo caminho mais fácil e simples, algo que nunca fiz. 

Admito, passado quase um ano, que foi a melhor decisão que poderia ter tomado. Os ganhos, as vantagens que me trouxeram a condução automática ultrapassam, largamente, a minha necessidade de complicar e insistir no difícil. Perdi a vergonha de admitir que conduzir era um problema dantesco para mim, que estava cravado no meu sentido de identidade, fazendo-me sentir um fracasso. Conduzir, hoje, é prazeroso. Ainda me surpreendo, de quando a quando, com a capacidade que adquiri de ir sozinha onde me apetece, onde preciso de ir. Uma parte de mim estava profundamente convicta que nunca seria capaz de o fazer. É incrível fazê-lo e compreender que o caminho mais fácil revelou-se o melhor para mim. Não me coloca em cheque, não me minimiza. Como diz uma grande amiga minha: automático ou manual, não deixa de ser conduzir e tu estás a fazê-lo! 

07
Ago23

Encontro-me quando ...

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... me perco num livro,

 escrevo,

ouço música,

aprendo coisas novas,

caminho na natureza,

sinto o sol abraçar-me,

ouço a chuva,

estou na minha companhia,

danço, 

liberto o meu lado mais infantil e me permito brincar,

me rio, 

me abraçam,

sou uma testemunha da bondade, da tolerância e da resiliência,

vou a concertos de música,

sorrio ao meu reflexo no espelho,

desafio os meus medos, 

abraço a coragem,

não tenho receio de fazer questões às quais ainda não sei as respostas,

me aceito, tal e qual como sou. 

07
Ago23

my body is my home

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Uma das estratégias que me ajuda a reorganizar pensamentos e emoções é falar sozinha. Sei que parece estranho, mas há qualquer coisa de libertador em falar comigo mesma, em voz alta. Ajuda-me a desenrolar o novelo, a teia complicada e emaranhada de emoções que carrego, os pensamentos que se formam sobre as mais variadas coisas e situações. 

Hoje de manhã, enquanto esperava pelo meu namorado, no carro, dei comigo a pensar em voz alta sobre esta fase que estou a atravessar e sobre a necessidade de compreender a origem desta frustração e desmotivação. Se, por um lado, me parece óbvio que esta sensação de estagnação e "desrealização" pessoal advém, em grande parte, do trabalho, por outro lado, creio que essa é uma fatia do bolo, talvez a mais gordinha, mas não é o bolo inteiro. Existem outras variáveis, outros fatores, que contribuem para me sentir como me ando a sentir. Um deles tem sido a minha falta de consistência naquelas que são as 3 rotinas básicas e essenciais de qualquer ser humano: a alimentação, o exercício físico/movimento e o sono. Estes são os pilares do nosso bem-estar e não adianta tudo o resto na nossa vida estar alinhado, se estas três rotinas estão desreguladas, não vamos conseguir abraçar com total plenitude e intensidade tudo o resto que a vida tem para nos oferecer. 

Ultimamente, todas as minhas escolhas têm sido pobres e inconsistentes. A nível alimentar, andei uns tempos a comportar-me lindamente. Procurei aconselhamento de uma nutricionista, porque sentia que a informação existente é muita e, em grande parte, contraditória. Assim, decidi ir atrás de quem sabe do assunto e tentei compreender como poderia fazer escolhas mais saudáveis no meu quotidiano. Não fui à procura de dietas para emagrecer, não fui com um peso alvo que pretendo alcançar. O objetivo principal foi educar-me a nível alimentar, entender se as minhas escolhas eram corretas, descobrir alternativas mais saudáveis. Aprendi conceitos importantes e, acima de tudo, fáceis de incutir no quotidiano. No entanto, a alimentação é (quase) sempre um espelho da nossa vida emocional. A desmotivação, a sensação de cansaço, a frustração apelam a escolhas mais ricas em açúcar, que nos trazem aquela sensação imediata de conforto e prazer. No meu caso, não sou uma grande fã de doces, mas o que é certo é que tenho feito escolhas cada vez mais pobres a nível nutricional. Tal impacta os níveis de energia, de bem-estar geral. Sinto-me mais cansada, reativa, pesada, inchada. Falta-me a leveza e, acima de tudo, a sensação de que estou a nutrir aquele que é o meu maior aliado nesta jornada: o meu corpo. 

O mesmo se aplica ao exercício físico. Tenho um trabalho exclusivamente sedentário, onde passo o dia sentada, em frente ao computador. Começo a trabalhar muito cedo, pelo que não consigo encaixar o exercício físico na minha rotina matinal, algo que me custa muito, porque treinar de manhã sabe-me sempre melhor do que à tarde. Ao final do dia, é necessária uma dose extra de motivação e energia para me dedicar ao exercício. Conclusão: não tenho feito rigorosamente nada. Noto os efeitos desta falta de movimento, não apenas no corpo, mas também na mente. Exercitar o corpo traz mais energia, mais felicidade, uma sensação geral maior de bem-estar. E, no meu caso, que gosto tanto de caminhadas ao ar livre, ainda tinha esta vantagem acrescida: a oportunidade de contactar com a natureza, apanhar ar puro e fresco. 

Quanto ao sono, sei que todas as pessoas são diferentes na quantidade mínima que precisam de dormir para se sentirem eficientes e funcionais. Feliz ou infelizmente, faço parte do grupo das pessoas que precisa de dormir e precisa de uma noite de, pelo menos 7h de sono. Não consigo fazer noitadas, sou uma morning person e não uma notívaga. Como o meu dia começa muito cedo, é imperativo que termine cedo também, para conseguir ter uma dose razoável de descanso. Contudo, é tão fácil derrapar e atrasar, arrastar a hora de ir dormir. Sobretudo se estiver perdida num livro. Aliás, este é o meu maior problema: é convencer-me de que é apenas só mais um capítulo e, quando me apercebo das horas, já estou completamente distante da hora aceitável para apagar as luzes e dormir. 

Funciona como uma bola de neve, em que tudo contribui para me sentir cada vez mais distante de mim, da sensação de bem estar, de ter vontade e energia para fazer coisas, para investir em projetos. Por isso, esta semana pretendo trabalhar nestes três pilares, começar pela base, pela estrutura "mãe". Preciso de assegurar que as minhas necessidades básicas estão satisfeitas e cuidadas, para depois conseguir investir em necessidades de nível superior. 

É o meu desafio para esta semana. Nutrir-me bem, mexer-me e dormir. Na alimentação, tenho como objetivos beber água, hidratar-me e fazer uma alimentação rica em vegetais, frutas, proteína e desvincular-me dos açúcares. A nível físico, proponho-me a caminhar depois do trabalho, aproveitar que os dias ainda são grandes e está bom tempo, bem como pretendo fazer pelo menos um ou dois treinos em casa, com música e muito movimento. A nível de sono, o limite são as 22h30, a essa hora, custe o que custar, tenho de desligar as luzes e tentar dormir. Mesmo que não adormeça logo, o corpo relaxará seguramente. 

Eu sei, por experiência, que a consistência é a chave do sucesso. É fazermos alguma coisa, todos os dias, mesmo que pequena. É comparecer, é apresentarmo-nos ao serviço. Alguma coisa, por mais pequenina que seja, é sempre melhor que nada. Por isso, esta semana este será o meu mindset, a minha bússola orientadora. 

04
Ago23

Daisy Jones and The Six

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Todos temos paixões que nos acompanham desde sempre. A minha, a par dos livros, é a música. O cupido foi o meu pai, também ele um apaixonado, que me pedia para fazer compilações de músicas em CD's, dando-me listas das músicas que pretendia. Numa época onde ainda não existia Spotify nem as entradas USB nos rádios dos carros, os CD's eram a única opção para conseguirmos ouvir as nossas playlists. As viagens de carro, fossem curtas ou longas, eram sempre feitas com uma banda sonora a acompanhar-nos. Mais do que gostar de música, o meu pai é um entendido na história das bandas, dos músicos, das formações originais, dos sucessos e fracassos dos álbuns lançados. Enfim, uma verdadeira musicoenciclopédia ambulante, que me passou o "bichinho".

Fui uma adolescente que vivia com os phones colocados nos ouvidos, de manhã até à noite. Inclusive nos testes de avaliação, cheguei a pedir a professores para fazer as avaliações com música, porque me ajudava a concentrar e entrar no flow. Passei tardes de sábado a estudar na mesa da sala dos meus pais, com o agora extinto VH1 ligado, onde passavam programas das 50 melhores músicas de sempre, por exemplo. Lembro-me de descobrir tantas músicas e bandas através deste programa e de anotar no meu caderno os nomes, para depois ir pesquisar. Quando comecei a namorar, o nosso ponto de encontro era sempre na biblioteca municipal. Como chegava sempre mais cedo do que o meu namorado, ficava a ler livros sobre a história da música e biografias dos músicos que mais me fascinavam. Tirava apontamentos, fazia daqueles momentos uma verdadeira e autêntica sessão de estudo. 

Ainda hoje gosto de ler regularmente sobre o tema, ler entrevistas e reportagens de bandas e músicos, acho delicioso "perder-me" neste mundo musical. Curiosamente, nunca tive vontade de aprender música; o meu fascínio sobre recaiu sobre a história da música, das formações das bandas, como é que os elementos se conheceram, quais as suas maiores lutas e conquistas até conseguirem a sua grande oportunidade, os significados das letras das músicas, os dramas, o processo criativo, a influência do contexto social e histórico na criação da música, a música como "arma", como veículo de intervenção, muitas vezes, política e social. 

Por tudo isto, adorei ler o livro da Taylor Jenkins Reid, Daisy Jones and The Six. Não é um livro que recomende a toda a gente, não por não ser bom, porque é!, mas pela sua estrutura: todo o livro é em formato entrevista. Trata-se da história da banda fictícia Daisy Jones and The Six, a sua formação, ascensão e término. O livro consiste em dar a conhecer a história da banda, através de entrevistas aos vários elementos da mesma, que vão partilhando a sua visão dos acontecimentos. É um livro maravilhoso, que nos leva até aos anos 70, uma era musical e histórica muito rica e da qual saíram algumas das maiores bandas de todo o sempre, que ficaram eternizadas  na história, como é o caso de Queen, Fleetwood Mac, entre outras. São bandas, são músicas que ainda hoje ouvimos com a sensação de que estamos a ouvir algo inacreditavelmente bom e irrepetível. Não quero dar mais detalhes do livro, porque não quero estragar a experiência de leitura, de maravilha, de descoberta, que é ler este livro!

Depois de ler o livro e descobrir que o mesmo estava a ser adaptado para uma série da Amazon Prime, não descansei enquanto não devorei a série. É sempre difícil ver adaptações de livros a filmes e séries. Creio que é uma popular opinion que dificilmente os livros conseguem ser superados. No meu caso, já apanhei muitas desilusões nestas conversões de livros em filmes/séries, pelo que fui com medo para ver o primeiro episódio da série. Um medo que se revelou completamente infundável, porque a série está fantástica! Desde o casting, o respeito pelos acontecimentos e sequência do livro, o desenvolvimento e complexidade das personagens, a caracterização, os cenários, as músicas!!!! Não posso deixar de frisar aquele que, para mim, é o ponto mais incrível desta série: a banda! Se eu não soubesse, de antemão, que tudo isto é obra de ficção, eu acreditaria piamente que estava a ver um documentário de uma banda real. A qualidade das músicas, do álbum Aurora, que foi lançado, é espetacular. E ainda se torna mais incrível porque as personagens que dão vida e voz aos vocalistas da banda nunca tinham tido nenhuma experiência musical, como aconteceu com os outros atores da série e banda. Mesmo que não tenham interesse nenhum em ver a série, eu recomendo vivamente que ouçam o álbum (está disponível no spotify) do início ao fim e se deixem levar por uma viagem musical e temporal, que vos conduzirá aos sons, aos ritmos e à vibe tão característica dos anos 70. 

Assim, este livro é um tri-win: é um bom livro, é uma série muito bem conseguida e é um álbum espetacular. Através de uma "simples" história, foi possível criar três produtos, três obras de arte fantásticas.

Aproveito para incentivar a lerem esta autora, Taylor Jenkins Reid. Não há um único livro dela que seja mau! Todas as obras dela são incríveis, escritas de uma forma tão envolvente, que é difícil pousar o livro sem consumi-lo até à última página. O famoso The Seven Husbands of Evelyn Hugo, que está tão em voga graças ao BookTok, é famoso porque merece sê-lo: é fantástico e quero escrever sobre ele em maior detalhe no futuro. Mas não é apenas este livro da autora que é maravilhoso: é também o caso de Malibu Rising, Carrie Soto is back, Maybe in Another Life, Evidence of the Affair, Forever, Interrupted e, claro, Daisy Jones and the Six. De todas as características da escrita de Reid, a que me conquista sempre, em todos os seus livros, é o modo como constrói as personagens. Todas as personagens parecem reais, pessoas que acreditamos que existem ou existiram, cruas, complexas, falíveis, humanas. Essa proximidade e familiaridade com as personagens envolve-nos ainda mais na história, o grau de contacto é muito próximo. 

Por isso, deixo-vos aqui a minha recomendação para futuras leituras, uma série e um álbum de música. Deliciem-se :)  

I could've sworn this was the wayTell me again, why do we stayOn such a lonely, lonely, lonely road?You'd never guess, I'd never knowWe're on the same side and it's gonnaBe a lonely, lonely, lonely road

- The River, Daisy Jones and The Six 

 

02
Ago23

It's not you, it's me

girl

Ando a sentir uma desmotivação extraordinária no que diz respeito ao trabalho. Não é apenas uma falta de vontade em fazer as coisas das quais sou responsável, nem se cinge apenas à necessidade de férias que se começa a sentir nesta altura do ano. É algo mais profundo e denso. É falta de realização, é aborrecimento, é constatar que o locus do problema não se localiza fora, mas está bem dentro de mim, por mais que existam fatores externos que contribuam para me sentir assim. 

Mudar de emprego fez-me perceber algumas coisas que são essenciais para mim e na minha forma de estar profissionalmente. Até então, não valorizava estas "características", porque não sentia falta delas, eram um dado adquirido. Apenas sabia que um valor essencial para mim era ter um ambiente de trabalho saudável, sem medo, onde é possível crescer e, por isso mesmo, é possível falhar sem ser a pior coisa do mundo. Como escrevi ontem, nada disto existia onde trabalhava antes e, talvez por isso, quando procurei a saída, foquei-me neste aspeto quase exclusivamente. Não me interpretem mal, continua a ser um valor base para mim, do qual jamais abdicaria, mas hoje compreendo que não basta isso para termos um trabalho que nos realiza e satisfaz. É como numa relação amorosa: amar é importante, mas não é suficiente para fazer uma relação durar e prolongar-se no tempo. No meu caso, é exatamente isto: adoro o ambiente descontraído e respeitador que aqui se vive e no qual se trabalha, mas não me chega para sentir que trabalharei aqui até ao fim dos meus dias. 

Sinto falta de organização, por exemplo. Desculpem a redundância, mas a organização é organizadora. Dá coerência, sentido e sensação de controlo. Quando as coisas têm nome, lugar e espaço, é mais fácil trabalhar. Infelizmente, no sítio onde trabalho, vivemos numa desorganização que, muitas vezes, sinto como caótica. Entendo que é fruto de um crescimento rápido, que não foi planeado e gradual, as chamadas "dores de crescimento". No entanto, esta desorganização desmotiva, é exaustiva, as pessoas perdem-se naquelas que são as suas tarefas e no estabelecimento de prioridades. Quando as coisas não estão organizadas, tudo parece importante e urgente. Estou constantemente a sentir que me está a escapar alguma coisa, que me estou a esquecer de fazer algo. Tudo isto é oposto ao local de onde vim. Acho que foi na anterior empresa que aprendi a importância da organização, de ter as coisas bem estruturadas, saber sempre onde está determinado documento, determinada informação. 

Sinto falta do rigor. De trabalhar com cabeça, tronco e membros. De fazer as coisas com qualidade. De haver controlo de qualidade. Quando não existe rigor no que se faz, caímos no desmazelo. Tanto dá se fazemos assim ou assado; tudo serve. Tenho dificuldade em trabalhar nestes moldes. Tenho dificuldade em encontrar sempre tantos obstáculos para conseguir fazer um trabalho bem feito, um trabalho que cumpra com todos os requisitos e necessidades. 

Sinto que falta uma comunicação mais aberta e transparente. Não temos (nem devemos) de saber tudo, mas quando tudo parece um segredo de estado, começamos a sentir-nos desconfiados. Quando não existe transparência nos processos mais simples, mais inofensivos, é inevitável surgir uma sensação de desânimo e falta de pertença. Já para não falar dos constrangimentos que se criam, frequentemente, no trabalho por falta de comunicação. Coisas simples, de fácil resolução tornam-se complicadas, porque as pessoas não falam, porque escondem informação, porque estão constantemente a testar-se umas às outras. É cansativo. 

E, acima de tudo, sinto que esta já não é mais a área que me faz feliz. Mais do que todos os constrangimentos acima enumerados, este é o cerne, o ponto fulcral da questão: esta área não me preenche, não me realiza, não me faz sentir nada a não ser estagnação, frustração e desmotivação. Não vejo propósito no que faço. Não me encontro em nada deste trabalho, porque nas pequeninas coisas nas quais poderia fazer a diferença, sinto que não existe espaço para mim. Estou resignada a um trabalho para o qual não estudei, o qual nunca ambicionei nem desejei para mim. Sinto-me prestes a terminar uma relação, na qual o problema não é o outro lado, sou mesmo eu. 

Já existiu um momento, uma fase, em que este trabalho fazia sentido para mim. Talvez quando ainda estava a aprender como tudo funcionava, talvez quando o meu foco principal era ter um trabalho que me concedesse autonomia, independência financeira. Nessa fase da minha vida, fazia-me sentido. Hoje, depois de alguns anos nesta área, sinto que preciso de mais. Preciso de algo que prima os nervos certos em mim: algo que estimule a minha criatividade, a minha curiosidade, que me desafie. Gosto de aprender coisas novas, de estudar, de investigar. Gosto de trabalhar com pessoas e em equipa. Gosto de fazer, de fazer bem, de fazer o melhor. Não gosto de soluções rápidas, de tapar buracos e não resolver as questões na sua raiz, porque sinto que isso é contornar os problemas e dar-lhes mais profundidade. 

Portanto, quando tornar a mudar (porque não é uma questão de "se", é mesmo de "quando"), sei que será uma mudança radical. Será um afastamento desta área, que já me serviu muito e da qual estou muito grata, mas já não me serve mais. É como quando a nossa peça de roupa favorita deixa de nos servir e, de repente, já não olhamos para ela da mesma forma. Fomos nós que crescemos? Foi a peça que perdeu o seu encanto? Foram ambas as hipóteses? O que é certo é que já não há conexão, já não faz sentido.

Chegar a esta conclusão é, de certo modo, libertador. É obter, finalmente!, o diagnóstico do problema e poder avançar para a cura, porque o problema já está identificado. É altura de tornar a pensar no meu plano de vida, nos valores que me são essenciais, no que considero absolutamente imperativo e do qual não quero, nem posso abdicar. É uma reflexão profunda, à qual me ando a dedicar quase todos os dias, desde há algum tempo. E, por isso mesmo, será tema presente e frequente aqui, porque, como já tantas e tantas vezes referi, escrever permite-me lançar as questões e pescar as respostas. 

01
Ago23

one year later ...

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Há um ano preparava-me para entregar a minha carta de demissão e dizer adeus, finalmente, a um lugar que me marcou profundamente. Foi o meu primeiro trabalho, a entrada no mundo profissional, o abraço de uma área próxima da minha de origem, mas não igual. Aprendi imenso durante os quatro anos que estive naquela empresa, desde competências técnicas às chamadas soft skills, por me ter visto obrigada a lidar com pessoas tão diferentes de mim, com feitios e personalidades complexos e difíceis. Foi nesse emprego que vivi o melhor e o pior da minha carreira profissional, que conheci pessoas incríveis e que continuam na minha vida (e espero que permaneçam para sempre), bem como outras que me mostraram como o ser humano consegue transformar-se no seu pior para se manter à tona. Era este o ambiente que vivia naquela empresa: de selva, de constante luta pela sobrevivência. As pessoas trabalhavam com medo e, como se pode imaginar, num lugar onde se teme, não há espaço para aprender, para arriscar, porque os erros comportam graves consequências e a culpa nunca pode morrer solteira. Este clima de opressão, de constante vigilância e terror esticou a minha sanidade mental aos píncaros. 

Assim, quando surgiu uma oportunidade na área, com condições muito semelhantes em termos de salário, função e horário, não hesitei. Naquela altura, o meu namorado, excelente conhecedor do ambiente profissional em que eu trabalhava, apenas me disse: se recusares esta oportunidade, tens de estar consciente de que nunca mais te poderás queixar do sítio onde estás. Porque estaria a optar por ficar nesse mesmo sítio, do qual tanto e tanto me queixava. E se o fizesse por livre escolha, usufruindo da minha liberdade, então teria de assumir a responsabilidade inerente a essa liberdade. 

Aceitei o novo desafio, cheia de entusiasmo, mas também de receios e medo do futuro. Mudar é assustador, faz com que o péssimo se transfigure e se torne "menos mau", porque é um "mau" que nos é familiar, que conhecemos e sabemos como gerir e lidar. O desconhecido, por sua vez, ainda que possa inacreditavelmente maravilhoso, assusta-nos, porque não sabemos o que nos espera, não temos recursos, estratégias nem ferramentas para saber como lidar nem com o que lidar. No meu caso, o que mais me custou foi deixar as "minhas" pessoas. Aceitar a ideia de que aquelas pessoas deixariam de fazer parte do meu quotidiano, deixariam de ser presença diária na minha vida. Reconciliar-me com a realidade de que, perante as adversidades e os dias difíceis de trabalho, não teria aquela rede de segurança, conforto e apoio. 

Integrei-me muito bem no novo trabalho, mas nunca recuperei a sensação de "casa" e "família" que construí com as pessoas do meu primeiro trabalho. Nunca abandonei a sensação de ser uma forasteira, uma espécie de estrangeira neste ambiente, que com o passar do tempo já não é assim tão estranho e novo, mas que ainda não é meu. 

Entregar a minha demissão foi uma prova de fogo, algo que sempre temi fazer. Os dias anteriores à entrega da carta foram vividos num estado de ansiedade angustiante, pensando em todos os cenários possíveis. Quando o momento chegou, convenci-me de que estava a dar um salto de fé, de que apenas poderia controlar o que queria dizer e como dizer. Tudo o resto estava fora do meu alcance. Foi uma das coisas mais simples e, simultaneamente, mais exigentes que já fiz e das quais mais me orgulho. Eu sei, parece ridículo, mas para mim teve um significado colossal ter conseguido desvincular-me de um lugar tão tóxico. 

Associo, ainda hoje, a minha relação àquele lugar como uma relação abusiva, na qual existe um estado constante de medo, de tensão, onde não há espaço para se ser. Um lugar vazio de humanidade, onde as pequenas e raras provas de existência de vida humana pareciam autênticos milagres; onde o que deve ser ordinário se torna extraordinário pela sua condição rara. 

Passado quase um ano desse ato de coragem, de liberdade, de amor próprio, não posso dizer que estou no emprego que sempre sonhei, onde me sinto inteiramente realizada. Porque não estou e sobre isso escreverei num outro dia, num texto dedicado apenas ao tema. Mas estou num ambiente onde é permitido errar, ainda que não seja o desejado. Um sítio onde não venho trabalhar com dores de barriga, onde posso respirar tranquilamente e onde não sinto medo. Sei que tudo isto é básico, isto deveria ser o normal em todos os lugares, todas as empresas que empregam pessoas. Mas também sei que, tal como eu, muita gente trabalha em locais onde as pessoas não são respeitadas, onde nem sequer são vistas e aceites como seres humanos, falíveis, imperfeitos, onde é exigida a perfeição e devoção total. 

Por isso, um ano depois e sei que tomei a decisão certa. Este ainda não é o meu lugar de chegada, a minha meta, mas é o meu caminho até lá chegar. 

28
Jul23

Knock, Knock ...

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A melhor leitora dos meus textos sou eu mesma. É a conclusão a que chego depois de navegar pelos vários textos que aqui escrevi, sobre os mais variados temas, sobre as minhas angústias, os meus sonhos, as minhas opiniões. Ler-me, passados 3 anos, é delicioso. É curioso perceber como tanto mudou e como tanto se manteve inalterável.

Ao escrever este texto sinto-me como uma criança, chegada a casa após o primeiro dia de escola depois das férias grandes de verão, cheia de novidades e coisas para contar aos pais. O entusiasmo, a euforia, o atropelamento de ideias e não saber por onde começar, porque tudo parece importante, relevante e merecedor de atenção!

Por onde começar? É uma pergunta que me faço muitas vezes. Ao longo de quase três décadas de existência, já tive tantos blogs. Uns ainda guardo, de forma privada, e revisito de vez em quando, para matar as saudades da inocência daqueles tempos, em que todos os meus textos eram de amor e sobre o amor. Uma adolescente apaixonada e dona de um coração dedicado a amores intensos, os meus textos espelhavam as minhas fantasias, as minhas emoções no seu estado mais puro. 

Já pensei muitas vezes em criar um novo blog. Pensei num nome, no layout que gostaria de lhe dar, mas ... mas depois falta-me sempre qualquer coisa para avançar. A inércia toma conta de mim, a procrastinação fala mais alto e as ideias não deixam de ser isso mesmo: apenas ideias. 

Ao revisitar este espaço, encontrei-me com o seguinte pensamento: para quê criar uma casa nova, quando tenho uma, que me sabe a lar? Para quê investir num espaço branco, vazio, despido, quando tenho um espaço confortável, decorado com tudo aquilo que me caracteriza e grita "eu!"? 

Por isso, a old soul girl está de regresso. Não sei por quanto tempo, não sei com que regularidade, mas tenho uma certeza: preciso de escrever. Preciso de tornar a reencontrar-me nas palavras, preciso de tornar a reorganizar a minha confusão mental nas letras, frases e conjugações. Escrever sempre foi a minha forma de terapia e, mais do que isso, sempre foi a minha forma de expressão principal. 

É nas palavras que me encontro e que permito aos outros me conhecerem, a mim e ao meu mundo interno. É através da escrita que arrumo a minha desordem emocional, que ganho espaço e capacidade para respirar novamente. 

A vida corre, de forma veloz muitas vezes, o que nem sempre me deixa com muito tempo para me sentar e dedicar às palavras. Por esse motivo, não sei se serei a pessoa mais regular e assídua nesta tarefa, mas esse também não é o meu objetivo principal. Do mesmo modo que escrever não é, neste momento, algo que farei a pensar noutros leitores, a não ser em mim mesma. Claro que, se chegar até vós e vos entreter, vos levar a refletir, vos conquistar de alguma forma, ficarei feliz. Mas será apenas um bónus. O meu objetivo principal é apenas libertar tudo que carrego dentro de mim. É registar memórias, pensamentos, acontecimentos. Há quem goste de registar fotograficamente, eu prefiro registar em palavras. Escrever sobre o modo como me senti em determinado momento, o que vi, o que me chamou a atenção, o que me passou pela mente naquele preciso segundo. 

Posta a chave na porta, rodada a maçaneta, posso dizer: I'm home! 

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