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the old soul girl

the old soul girl

07
Ago23

my body is my home

girl

Uma das estratégias que me ajuda a reorganizar pensamentos e emoções é falar sozinha. Sei que parece estranho, mas há qualquer coisa de libertador em falar comigo mesma, em voz alta. Ajuda-me a desenrolar o novelo, a teia complicada e emaranhada de emoções que carrego, os pensamentos que se formam sobre as mais variadas coisas e situações. 

Hoje de manhã, enquanto esperava pelo meu namorado, no carro, dei comigo a pensar em voz alta sobre esta fase que estou a atravessar e sobre a necessidade de compreender a origem desta frustração e desmotivação. Se, por um lado, me parece óbvio que esta sensação de estagnação e "desrealização" pessoal advém, em grande parte, do trabalho, por outro lado, creio que essa é uma fatia do bolo, talvez a mais gordinha, mas não é o bolo inteiro. Existem outras variáveis, outros fatores, que contribuem para me sentir como me ando a sentir. Um deles tem sido a minha falta de consistência naquelas que são as 3 rotinas básicas e essenciais de qualquer ser humano: a alimentação, o exercício físico/movimento e o sono. Estes são os pilares do nosso bem-estar e não adianta tudo o resto na nossa vida estar alinhado, se estas três rotinas estão desreguladas, não vamos conseguir abraçar com total plenitude e intensidade tudo o resto que a vida tem para nos oferecer. 

Ultimamente, todas as minhas escolhas têm sido pobres e inconsistentes. A nível alimentar, andei uns tempos a comportar-me lindamente. Procurei aconselhamento de uma nutricionista, porque sentia que a informação existente é muita e, em grande parte, contraditória. Assim, decidi ir atrás de quem sabe do assunto e tentei compreender como poderia fazer escolhas mais saudáveis no meu quotidiano. Não fui à procura de dietas para emagrecer, não fui com um peso alvo que pretendo alcançar. O objetivo principal foi educar-me a nível alimentar, entender se as minhas escolhas eram corretas, descobrir alternativas mais saudáveis. Aprendi conceitos importantes e, acima de tudo, fáceis de incutir no quotidiano. No entanto, a alimentação é (quase) sempre um espelho da nossa vida emocional. A desmotivação, a sensação de cansaço, a frustração apelam a escolhas mais ricas em açúcar, que nos trazem aquela sensação imediata de conforto e prazer. No meu caso, não sou uma grande fã de doces, mas o que é certo é que tenho feito escolhas cada vez mais pobres a nível nutricional. Tal impacta os níveis de energia, de bem-estar geral. Sinto-me mais cansada, reativa, pesada, inchada. Falta-me a leveza e, acima de tudo, a sensação de que estou a nutrir aquele que é o meu maior aliado nesta jornada: o meu corpo. 

O mesmo se aplica ao exercício físico. Tenho um trabalho exclusivamente sedentário, onde passo o dia sentada, em frente ao computador. Começo a trabalhar muito cedo, pelo que não consigo encaixar o exercício físico na minha rotina matinal, algo que me custa muito, porque treinar de manhã sabe-me sempre melhor do que à tarde. Ao final do dia, é necessária uma dose extra de motivação e energia para me dedicar ao exercício. Conclusão: não tenho feito rigorosamente nada. Noto os efeitos desta falta de movimento, não apenas no corpo, mas também na mente. Exercitar o corpo traz mais energia, mais felicidade, uma sensação geral maior de bem-estar. E, no meu caso, que gosto tanto de caminhadas ao ar livre, ainda tinha esta vantagem acrescida: a oportunidade de contactar com a natureza, apanhar ar puro e fresco. 

Quanto ao sono, sei que todas as pessoas são diferentes na quantidade mínima que precisam de dormir para se sentirem eficientes e funcionais. Feliz ou infelizmente, faço parte do grupo das pessoas que precisa de dormir e precisa de uma noite de, pelo menos 7h de sono. Não consigo fazer noitadas, sou uma morning person e não uma notívaga. Como o meu dia começa muito cedo, é imperativo que termine cedo também, para conseguir ter uma dose razoável de descanso. Contudo, é tão fácil derrapar e atrasar, arrastar a hora de ir dormir. Sobretudo se estiver perdida num livro. Aliás, este é o meu maior problema: é convencer-me de que é apenas só mais um capítulo e, quando me apercebo das horas, já estou completamente distante da hora aceitável para apagar as luzes e dormir. 

Funciona como uma bola de neve, em que tudo contribui para me sentir cada vez mais distante de mim, da sensação de bem estar, de ter vontade e energia para fazer coisas, para investir em projetos. Por isso, esta semana pretendo trabalhar nestes três pilares, começar pela base, pela estrutura "mãe". Preciso de assegurar que as minhas necessidades básicas estão satisfeitas e cuidadas, para depois conseguir investir em necessidades de nível superior. 

É o meu desafio para esta semana. Nutrir-me bem, mexer-me e dormir. Na alimentação, tenho como objetivos beber água, hidratar-me e fazer uma alimentação rica em vegetais, frutas, proteína e desvincular-me dos açúcares. A nível físico, proponho-me a caminhar depois do trabalho, aproveitar que os dias ainda são grandes e está bom tempo, bem como pretendo fazer pelo menos um ou dois treinos em casa, com música e muito movimento. A nível de sono, o limite são as 22h30, a essa hora, custe o que custar, tenho de desligar as luzes e tentar dormir. Mesmo que não adormeça logo, o corpo relaxará seguramente. 

Eu sei, por experiência, que a consistência é a chave do sucesso. É fazermos alguma coisa, todos os dias, mesmo que pequena. É comparecer, é apresentarmo-nos ao serviço. Alguma coisa, por mais pequenina que seja, é sempre melhor que nada. Por isso, esta semana este será o meu mindset, a minha bússola orientadora. 

04
Ago23

Daisy Jones and The Six

girl

Todos temos paixões que nos acompanham desde sempre. A minha, a par dos livros, é a música. O cupido foi o meu pai, também ele um apaixonado, que me pedia para fazer compilações de músicas em CD's, dando-me listas das músicas que pretendia. Numa época onde ainda não existia Spotify nem as entradas USB nos rádios dos carros, os CD's eram a única opção para conseguirmos ouvir as nossas playlists. As viagens de carro, fossem curtas ou longas, eram sempre feitas com uma banda sonora a acompanhar-nos. Mais do que gostar de música, o meu pai é um entendido na história das bandas, dos músicos, das formações originais, dos sucessos e fracassos dos álbuns lançados. Enfim, uma verdadeira musicoenciclopédia ambulante, que me passou o "bichinho".

Fui uma adolescente que vivia com os phones colocados nos ouvidos, de manhã até à noite. Inclusive nos testes de avaliação, cheguei a pedir a professores para fazer as avaliações com música, porque me ajudava a concentrar e entrar no flow. Passei tardes de sábado a estudar na mesa da sala dos meus pais, com o agora extinto VH1 ligado, onde passavam programas das 50 melhores músicas de sempre, por exemplo. Lembro-me de descobrir tantas músicas e bandas através deste programa e de anotar no meu caderno os nomes, para depois ir pesquisar. Quando comecei a namorar, o nosso ponto de encontro era sempre na biblioteca municipal. Como chegava sempre mais cedo do que o meu namorado, ficava a ler livros sobre a história da música e biografias dos músicos que mais me fascinavam. Tirava apontamentos, fazia daqueles momentos uma verdadeira e autêntica sessão de estudo. 

Ainda hoje gosto de ler regularmente sobre o tema, ler entrevistas e reportagens de bandas e músicos, acho delicioso "perder-me" neste mundo musical. Curiosamente, nunca tive vontade de aprender música; o meu fascínio sobre recaiu sobre a história da música, das formações das bandas, como é que os elementos se conheceram, quais as suas maiores lutas e conquistas até conseguirem a sua grande oportunidade, os significados das letras das músicas, os dramas, o processo criativo, a influência do contexto social e histórico na criação da música, a música como "arma", como veículo de intervenção, muitas vezes, política e social. 

Por tudo isto, adorei ler o livro da Taylor Jenkins Reid, Daisy Jones and The Six. Não é um livro que recomende a toda a gente, não por não ser bom, porque é!, mas pela sua estrutura: todo o livro é em formato entrevista. Trata-se da história da banda fictícia Daisy Jones and The Six, a sua formação, ascensão e término. O livro consiste em dar a conhecer a história da banda, através de entrevistas aos vários elementos da mesma, que vão partilhando a sua visão dos acontecimentos. É um livro maravilhoso, que nos leva até aos anos 70, uma era musical e histórica muito rica e da qual saíram algumas das maiores bandas de todo o sempre, que ficaram eternizadas  na história, como é o caso de Queen, Fleetwood Mac, entre outras. São bandas, são músicas que ainda hoje ouvimos com a sensação de que estamos a ouvir algo inacreditavelmente bom e irrepetível. Não quero dar mais detalhes do livro, porque não quero estragar a experiência de leitura, de maravilha, de descoberta, que é ler este livro!

Depois de ler o livro e descobrir que o mesmo estava a ser adaptado para uma série da Amazon Prime, não descansei enquanto não devorei a série. É sempre difícil ver adaptações de livros a filmes e séries. Creio que é uma popular opinion que dificilmente os livros conseguem ser superados. No meu caso, já apanhei muitas desilusões nestas conversões de livros em filmes/séries, pelo que fui com medo para ver o primeiro episódio da série. Um medo que se revelou completamente infundável, porque a série está fantástica! Desde o casting, o respeito pelos acontecimentos e sequência do livro, o desenvolvimento e complexidade das personagens, a caracterização, os cenários, as músicas!!!! Não posso deixar de frisar aquele que, para mim, é o ponto mais incrível desta série: a banda! Se eu não soubesse, de antemão, que tudo isto é obra de ficção, eu acreditaria piamente que estava a ver um documentário de uma banda real. A qualidade das músicas, do álbum Aurora, que foi lançado, é espetacular. E ainda se torna mais incrível porque as personagens que dão vida e voz aos vocalistas da banda nunca tinham tido nenhuma experiência musical, como aconteceu com os outros atores da série e banda. Mesmo que não tenham interesse nenhum em ver a série, eu recomendo vivamente que ouçam o álbum (está disponível no spotify) do início ao fim e se deixem levar por uma viagem musical e temporal, que vos conduzirá aos sons, aos ritmos e à vibe tão característica dos anos 70. 

Assim, este livro é um tri-win: é um bom livro, é uma série muito bem conseguida e é um álbum espetacular. Através de uma "simples" história, foi possível criar três produtos, três obras de arte fantásticas.

Aproveito para incentivar a lerem esta autora, Taylor Jenkins Reid. Não há um único livro dela que seja mau! Todas as obras dela são incríveis, escritas de uma forma tão envolvente, que é difícil pousar o livro sem consumi-lo até à última página. O famoso The Seven Husbands of Evelyn Hugo, que está tão em voga graças ao BookTok, é famoso porque merece sê-lo: é fantástico e quero escrever sobre ele em maior detalhe no futuro. Mas não é apenas este livro da autora que é maravilhoso: é também o caso de Malibu Rising, Carrie Soto is back, Maybe in Another Life, Evidence of the Affair, Forever, Interrupted e, claro, Daisy Jones and the Six. De todas as características da escrita de Reid, a que me conquista sempre, em todos os seus livros, é o modo como constrói as personagens. Todas as personagens parecem reais, pessoas que acreditamos que existem ou existiram, cruas, complexas, falíveis, humanas. Essa proximidade e familiaridade com as personagens envolve-nos ainda mais na história, o grau de contacto é muito próximo. 

Por isso, deixo-vos aqui a minha recomendação para futuras leituras, uma série e um álbum de música. Deliciem-se :)  

I could've sworn this was the wayTell me again, why do we stayOn such a lonely, lonely, lonely road?You'd never guess, I'd never knowWe're on the same side and it's gonnaBe a lonely, lonely, lonely road

- The River, Daisy Jones and The Six 

 

02
Ago23

It's not you, it's me

girl

Ando a sentir uma desmotivação extraordinária no que diz respeito ao trabalho. Não é apenas uma falta de vontade em fazer as coisas das quais sou responsável, nem se cinge apenas à necessidade de férias que se começa a sentir nesta altura do ano. É algo mais profundo e denso. É falta de realização, é aborrecimento, é constatar que o locus do problema não se localiza fora, mas está bem dentro de mim, por mais que existam fatores externos que contribuam para me sentir assim. 

Mudar de emprego fez-me perceber algumas coisas que são essenciais para mim e na minha forma de estar profissionalmente. Até então, não valorizava estas "características", porque não sentia falta delas, eram um dado adquirido. Apenas sabia que um valor essencial para mim era ter um ambiente de trabalho saudável, sem medo, onde é possível crescer e, por isso mesmo, é possível falhar sem ser a pior coisa do mundo. Como escrevi ontem, nada disto existia onde trabalhava antes e, talvez por isso, quando procurei a saída, foquei-me neste aspeto quase exclusivamente. Não me interpretem mal, continua a ser um valor base para mim, do qual jamais abdicaria, mas hoje compreendo que não basta isso para termos um trabalho que nos realiza e satisfaz. É como numa relação amorosa: amar é importante, mas não é suficiente para fazer uma relação durar e prolongar-se no tempo. No meu caso, é exatamente isto: adoro o ambiente descontraído e respeitador que aqui se vive e no qual se trabalha, mas não me chega para sentir que trabalharei aqui até ao fim dos meus dias. 

Sinto falta de organização, por exemplo. Desculpem a redundância, mas a organização é organizadora. Dá coerência, sentido e sensação de controlo. Quando as coisas têm nome, lugar e espaço, é mais fácil trabalhar. Infelizmente, no sítio onde trabalho, vivemos numa desorganização que, muitas vezes, sinto como caótica. Entendo que é fruto de um crescimento rápido, que não foi planeado e gradual, as chamadas "dores de crescimento". No entanto, esta desorganização desmotiva, é exaustiva, as pessoas perdem-se naquelas que são as suas tarefas e no estabelecimento de prioridades. Quando as coisas não estão organizadas, tudo parece importante e urgente. Estou constantemente a sentir que me está a escapar alguma coisa, que me estou a esquecer de fazer algo. Tudo isto é oposto ao local de onde vim. Acho que foi na anterior empresa que aprendi a importância da organização, de ter as coisas bem estruturadas, saber sempre onde está determinado documento, determinada informação. 

Sinto falta do rigor. De trabalhar com cabeça, tronco e membros. De fazer as coisas com qualidade. De haver controlo de qualidade. Quando não existe rigor no que se faz, caímos no desmazelo. Tanto dá se fazemos assim ou assado; tudo serve. Tenho dificuldade em trabalhar nestes moldes. Tenho dificuldade em encontrar sempre tantos obstáculos para conseguir fazer um trabalho bem feito, um trabalho que cumpra com todos os requisitos e necessidades. 

Sinto que falta uma comunicação mais aberta e transparente. Não temos (nem devemos) de saber tudo, mas quando tudo parece um segredo de estado, começamos a sentir-nos desconfiados. Quando não existe transparência nos processos mais simples, mais inofensivos, é inevitável surgir uma sensação de desânimo e falta de pertença. Já para não falar dos constrangimentos que se criam, frequentemente, no trabalho por falta de comunicação. Coisas simples, de fácil resolução tornam-se complicadas, porque as pessoas não falam, porque escondem informação, porque estão constantemente a testar-se umas às outras. É cansativo. 

E, acima de tudo, sinto que esta já não é mais a área que me faz feliz. Mais do que todos os constrangimentos acima enumerados, este é o cerne, o ponto fulcral da questão: esta área não me preenche, não me realiza, não me faz sentir nada a não ser estagnação, frustração e desmotivação. Não vejo propósito no que faço. Não me encontro em nada deste trabalho, porque nas pequeninas coisas nas quais poderia fazer a diferença, sinto que não existe espaço para mim. Estou resignada a um trabalho para o qual não estudei, o qual nunca ambicionei nem desejei para mim. Sinto-me prestes a terminar uma relação, na qual o problema não é o outro lado, sou mesmo eu. 

Já existiu um momento, uma fase, em que este trabalho fazia sentido para mim. Talvez quando ainda estava a aprender como tudo funcionava, talvez quando o meu foco principal era ter um trabalho que me concedesse autonomia, independência financeira. Nessa fase da minha vida, fazia-me sentido. Hoje, depois de alguns anos nesta área, sinto que preciso de mais. Preciso de algo que prima os nervos certos em mim: algo que estimule a minha criatividade, a minha curiosidade, que me desafie. Gosto de aprender coisas novas, de estudar, de investigar. Gosto de trabalhar com pessoas e em equipa. Gosto de fazer, de fazer bem, de fazer o melhor. Não gosto de soluções rápidas, de tapar buracos e não resolver as questões na sua raiz, porque sinto que isso é contornar os problemas e dar-lhes mais profundidade. 

Portanto, quando tornar a mudar (porque não é uma questão de "se", é mesmo de "quando"), sei que será uma mudança radical. Será um afastamento desta área, que já me serviu muito e da qual estou muito grata, mas já não me serve mais. É como quando a nossa peça de roupa favorita deixa de nos servir e, de repente, já não olhamos para ela da mesma forma. Fomos nós que crescemos? Foi a peça que perdeu o seu encanto? Foram ambas as hipóteses? O que é certo é que já não há conexão, já não faz sentido.

Chegar a esta conclusão é, de certo modo, libertador. É obter, finalmente!, o diagnóstico do problema e poder avançar para a cura, porque o problema já está identificado. É altura de tornar a pensar no meu plano de vida, nos valores que me são essenciais, no que considero absolutamente imperativo e do qual não quero, nem posso abdicar. É uma reflexão profunda, à qual me ando a dedicar quase todos os dias, desde há algum tempo. E, por isso mesmo, será tema presente e frequente aqui, porque, como já tantas e tantas vezes referi, escrever permite-me lançar as questões e pescar as respostas. 

01
Ago23

one year later ...

girl

Há um ano preparava-me para entregar a minha carta de demissão e dizer adeus, finalmente, a um lugar que me marcou profundamente. Foi o meu primeiro trabalho, a entrada no mundo profissional, o abraço de uma área próxima da minha de origem, mas não igual. Aprendi imenso durante os quatro anos que estive naquela empresa, desde competências técnicas às chamadas soft skills, por me ter visto obrigada a lidar com pessoas tão diferentes de mim, com feitios e personalidades complexos e difíceis. Foi nesse emprego que vivi o melhor e o pior da minha carreira profissional, que conheci pessoas incríveis e que continuam na minha vida (e espero que permaneçam para sempre), bem como outras que me mostraram como o ser humano consegue transformar-se no seu pior para se manter à tona. Era este o ambiente que vivia naquela empresa: de selva, de constante luta pela sobrevivência. As pessoas trabalhavam com medo e, como se pode imaginar, num lugar onde se teme, não há espaço para aprender, para arriscar, porque os erros comportam graves consequências e a culpa nunca pode morrer solteira. Este clima de opressão, de constante vigilância e terror esticou a minha sanidade mental aos píncaros. 

Assim, quando surgiu uma oportunidade na área, com condições muito semelhantes em termos de salário, função e horário, não hesitei. Naquela altura, o meu namorado, excelente conhecedor do ambiente profissional em que eu trabalhava, apenas me disse: se recusares esta oportunidade, tens de estar consciente de que nunca mais te poderás queixar do sítio onde estás. Porque estaria a optar por ficar nesse mesmo sítio, do qual tanto e tanto me queixava. E se o fizesse por livre escolha, usufruindo da minha liberdade, então teria de assumir a responsabilidade inerente a essa liberdade. 

Aceitei o novo desafio, cheia de entusiasmo, mas também de receios e medo do futuro. Mudar é assustador, faz com que o péssimo se transfigure e se torne "menos mau", porque é um "mau" que nos é familiar, que conhecemos e sabemos como gerir e lidar. O desconhecido, por sua vez, ainda que possa inacreditavelmente maravilhoso, assusta-nos, porque não sabemos o que nos espera, não temos recursos, estratégias nem ferramentas para saber como lidar nem com o que lidar. No meu caso, o que mais me custou foi deixar as "minhas" pessoas. Aceitar a ideia de que aquelas pessoas deixariam de fazer parte do meu quotidiano, deixariam de ser presença diária na minha vida. Reconciliar-me com a realidade de que, perante as adversidades e os dias difíceis de trabalho, não teria aquela rede de segurança, conforto e apoio. 

Integrei-me muito bem no novo trabalho, mas nunca recuperei a sensação de "casa" e "família" que construí com as pessoas do meu primeiro trabalho. Nunca abandonei a sensação de ser uma forasteira, uma espécie de estrangeira neste ambiente, que com o passar do tempo já não é assim tão estranho e novo, mas que ainda não é meu. 

Entregar a minha demissão foi uma prova de fogo, algo que sempre temi fazer. Os dias anteriores à entrega da carta foram vividos num estado de ansiedade angustiante, pensando em todos os cenários possíveis. Quando o momento chegou, convenci-me de que estava a dar um salto de fé, de que apenas poderia controlar o que queria dizer e como dizer. Tudo o resto estava fora do meu alcance. Foi uma das coisas mais simples e, simultaneamente, mais exigentes que já fiz e das quais mais me orgulho. Eu sei, parece ridículo, mas para mim teve um significado colossal ter conseguido desvincular-me de um lugar tão tóxico. 

Associo, ainda hoje, a minha relação àquele lugar como uma relação abusiva, na qual existe um estado constante de medo, de tensão, onde não há espaço para se ser. Um lugar vazio de humanidade, onde as pequenas e raras provas de existência de vida humana pareciam autênticos milagres; onde o que deve ser ordinário se torna extraordinário pela sua condição rara. 

Passado quase um ano desse ato de coragem, de liberdade, de amor próprio, não posso dizer que estou no emprego que sempre sonhei, onde me sinto inteiramente realizada. Porque não estou e sobre isso escreverei num outro dia, num texto dedicado apenas ao tema. Mas estou num ambiente onde é permitido errar, ainda que não seja o desejado. Um sítio onde não venho trabalhar com dores de barriga, onde posso respirar tranquilamente e onde não sinto medo. Sei que tudo isto é básico, isto deveria ser o normal em todos os lugares, todas as empresas que empregam pessoas. Mas também sei que, tal como eu, muita gente trabalha em locais onde as pessoas não são respeitadas, onde nem sequer são vistas e aceites como seres humanos, falíveis, imperfeitos, onde é exigida a perfeição e devoção total. 

Por isso, um ano depois e sei que tomei a decisão certa. Este ainda não é o meu lugar de chegada, a minha meta, mas é o meu caminho até lá chegar. 

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