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the old soul girl

the old soul girl

30
Jan20

declaro-me culpada

girl

Ando há alguns dias a pensar na forma como me inibo de falar de conquistas, projetos, ideias, sonhos!, com a minha família. Não foi algo de que me dei conta de repente, porque como já escrevi muitas vezes, a minha felicidade anda sempre de mãos dadas com a sensação de culpa e de inadequação, como se me sentir feliz fosse um ultraje e um ato pecaminoso. Às vezes esta sensação é criada por mim, outras vezes pela reação que os outros têm quando partilho algumas coisas boas da minha vida. É difícil falarmos de uma viagem que queremos muito fazer ou de um sonho profissional que queremos tornar realidade e recebermos como resposta uma expressão de desânimo, de semi entusiasmo misturada com o comentário "quem me dera" ou "oh, mas e eu?". Adensa-se a sensação de culpa e de condenação, como se a nossa felicidade fosse a evidência de tristeza e desilusão com a vida para outra pessoa.
Falar sobre este nó que carrego no peito é muito difícil. Primeiro, porque por mais que me esforce, nunca consigo encontrar as palavras certas e diretas que representam aquilo que penso e sinto em relação a isto. Porque, se por um lado, considero injusto e castrador não poder viver a minha vida em pleno sem causar desgosto aos que me são próximos, por outro, considero-me egoísta por traçar planos e dar aso a desejos quando esses, os mesmos que me são próximos, não estão bem. É a velha história da difusão de limites: onde começo eu e acaba o outro? Porque é que me sinto tão culpada e proibida de viver a vida que quero pelo facto das pessoas que amo ainda não estarem capazes de fazer o mesmo?
O segundo motivo que torna este assunto asfixiante é este conflito de sentimentos que não há forma de descrever. É sentir vontade de partilhar, mas engolir em seco essa vontade porque vai causar no outro uma sensação de estagnação, um sentimento de ver a vida passar e não a estar a aproveitar, uma confirmação de que a vida a uns pode dar tudo e a outros rigorosamente nada. Se estes "outros" fossem pessoas aleatórias, indiferentes, este era um não-assunto, não tinha existência. Mas estes outros são os meus outros, são a minha família.
Acabei de escrever isto e torno ao ponto inicial em que comecei: não consigo expressar-me em relação a este assunto. Não consigo arranjar uma forma de dizer que gostava que a minha família ficasse apenas feliz por mim e não me olhasse com uma expressão triste, miserável, de lamento. Gostava que, por uma vez, as minhas pequenas conquistas fossem apenas isso: conquistas. E que fossem minhas. Porque sempre que esta sensação se apodera de mim, sinto que as coisas boas deixam de me pertencer e transformam-se. Subitamente, já não são coisas boas que me acontecem, passam a ser evidência da inexistência de coisas boas na vida dos outros. É complicado falar, por exemplo, de uma viagem a dois, com a qual se anseia, se trabalha tanto diariamente para alcançar, e a resposta ser "não posso ir também?". Parte-me o coração e, ao mesmo tempo, tira-me o ar. Mergulho em compaixão e em desespero, num só segundo. E sei que, por mais que me tente explicar, nunca conseguirei fazer-me entender.
Por vezes, regresso ao dia em que a minha avó chorou nos meus braços, dizendo-me que apenas queria ficar connosco. E lembro-me de o partilhar com a minha mãe: vi nela o que vejo hoje em mim. O dilema, o conflito entre a necessidade de espaço e a necessidade de cuidado, a escolha difícil e até impossível entre fazermos o que nos faz bem e fazermos o que fará o outro sentir-se bem. Quase sempre optamos pela segunda hipótese, porque, embora difícil, ainda nos permite sentir o gosto da felicidade, por vermos bem aqueles que amamos. Fazemos esta escolha continuamente, priorizando os nossos, mas nunca deixando de sentir que uma parte de nós fica para trás, pendente, adiada. E, com isso, sentindo que nos vamos perdendo de quem somos e do que queremos, esquecendo-nos de viver a nossa vida.
Este texto não faz sentido nenhum. Mas eu estava a precisar tanto de tirar isto de dentro de mim. E, culpada por natureza como sou, ainda me consigo sentir (mais) culpada por sentir tudo isto. Andava com isto há dias na minha cabeça e escreve-lo não significa que deixe de sentir o que sinto, mas de alguma forma tudo se torna mais claro.

27
Jan20

todas as coisas maravilhosas #19

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Sorrisos. Abertos, tímidos, espontâneos, inesperados. Sorrir duplica a felicidade, divide a tristeza e transmite ao cérebro a mensagem de que está tudo bem. Porque está quase sempre tudo bem, nós é que não sabemos e teimamos em focar a nossa atenção no que nos falta e não no que já temos. Por isso e para isso, sorrisos. Que esteja escrito na minha lápide: a rapariga que, por onde passava, deixava um sorriso. Os sorrisos serão sempre uma das coisas mais maravilhosas da vida, devem ser usados e abusados. Por isso, sorriam! :)

23
Jan20

escrever

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I write because I don't know what I think until I read what I say. - Flannery O'Connor

Este não é o único, mas é, sem dúvida, o motivo mais forte pelo qual escrevo. Adoro escrever as minhas opiniões, ideias, até histórias, embora já não o faça há algum tempo e me sinta um pouco "destreinada" e "enferrujada". Mas o que mais gosto de escrever, pelo menos ultimamente, é tudo aquilo que carrego dentro de mim e não consigo expressar de outra forma. Tal como um pintor pinta uma figura abstrata que visualizou apenas e só na sua mente, eu escrevo tudo aquilo que "vejo" cá dentro, mas que não consigo fazer os outros ver e, muitas vezes, nem tenho a certeza se eu mesma vejo. Parece confuso, eu sei, mas para quem me acompanha há algum tempo, já não é novidade que onde estão os meus pensamentos, está sempre instalada uma enorme confusão, que eu vou tentando desconstruir da melhor forma que consigo.
A escrita devolve-me esta clareza, dá-me tempo e desacelera-me. Tira-me de um ritmo que me é muito característico: a pressa. Desde sempre que parece que não ando, corro, numa ânsia oculta de chegar, de não perder tempo, mas não sei bem a onde nem entendo o porquê de sentir com tanta intensidade que o tempo me foge por entre os dedos. Tudo em mim anda a mil, desde a minha passada rápida, curta e direta, à minha mente, com todos os pensamentos envolvidos numa corrida de alta velocidade, todos tentando chegar mais rápido, acabando por nenhum chegar longe. Quando escrevo, abrando. É como respirar fundo, obriga-me a pausar, a compreender qual é o meu ponto de partida e, mais importante, até onde quero chegar. A escrita é a fada do lar que arruma, religiosamente, tudo que deixo espalhado, colocando as devidas coisas no seu devido lugar.
É por isso que todos os textos deste blog são sempre tão densos e profundos. Quando criei este blog, estava determinada a escrever apenas sobre as coisas boas e maravilhosas da vida. Queria enterrar todo o conteúdo triste e pesado, focando-me apenas no lado brilhante e luminoso da vida. Só que esta pretensão rapidamente se desfez, porque escrever sobre as coisas chatas, aborrecidas e más da vida é tão (ou mais) importante como escrever sobre todas as coisas incríveis. Por isso, o que começou por ser um diário cor-de-rosa, rápido se transformou num registo muito cru e verdadeiro sobre a vida, tal e qual como ela é. Uns dias melhor, outros pior, mas sempre, sempre, sempre uma aventura incrível e pela qual nunca me cansarei de gritar "obrigada!".
Escrevo para me encontrar, às vezes para me perder, por vezes por necessidade, sempre por gosto.

22
Jan20

back on track

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Nestes últimos dias, tenho refletido tanto acerca do rumo da minha vida e da forma como me apresento ao mundo todos os dias. Faço parte do grupo de pessoas que se preocupa com o que os outros pensam e que gosta que os outros gostem de si. Sim, é verdade, eu gosto que gostem de mim. E acho que não há nada de errado nisso, até porque não acredito que haja alguém que goste de ser desgostado, apenas acho que existem pessoas para as quais a opinião que os outros têm acerca de si lhes é completamente indiferente. Confesso que gostaria de ser mais assim, mas também admito que já fui mais uma people pleaser do que sou atualmente, embora ainda haja um caminho longo a percorrer.

Gostar de ser gostada, gostar de ser vista como a pessoa agradável, simpática e prestável leva-me, muitas vezes, a cair no desejo de agradar os outros. O que tenho refletido nos últimos dias é onde começa o meu desejo de agradar e termina a minha verdadeira essência. Qual é o ponto em que deixo de ser eu, de fazer aquilo que realmente gosto e acho correto, para me transformar numa pessoa que não sou, mas que os outros esperam que eu seja? 

Este pensamento começou a surgir na minha mente na semana passada, de manhã, ao chegar ao escritório. Costumo encontrar sempre as mesmas pessoas quando chego, à porta, perdidas nos seus pensamentos enquanto fumam o seu cigarro pré-jornada de trabalho. E cumprimento sempre toda a gente com um sorriso aberto e um audível "bom dia!". Um dos meus colegas ri-se sempre e todos os dias me pergunta "como é que consegues estar sempre tão bem disposta logo de manhã?", seguindo-se por um "quem me dera ser assim". Eu sorrio de volta e fico a pensar no que ele me diz. 

Porque eu não estou sempre bem disposta, isso é garantido. Sabe Deus o terramoto que vai dentro de mim algumas manhãs, em que saio de casa furiosa e cansada, ainda mal o dia começou. Mas quando chego ao trabalho, tomo sempre a mesma decisão: ninguém tem de levar com os meus problemas e mau humor. Escolho sempre colocar um sorriso e apresentar-me como uma pessoa alegre, porque os outros não têm culpa e, também, porque não beneficio nada em continuar mergulhada em mau humor. Mas admito que também o faço porque gosto que as pessoas me vejam como uma pessoa sorridente e descontraída. Gosto que seja essa ideia que lhes trace a mente assim que pensam em mim: a rapariga simpática. 

E neste ponto, acho que não estou a representar uma pessoa que não sou, porque considero-me verdadeiramente simpática. E gosto tanto de oferecer sorrisos, porque sei como podem iluminar a escuridão de um dia mau. É como um pequeno presente diário, que escolho dar ao mundo, porque não escolho a quem o dou, está absolutamente disponível para toda a gente que se cruzar comigo, conhecido o não. 

Mas depois surgem situações em que sei, de antemão, que estou a representar uma persona. No trabalho acontece muitíssimas vezes, mas faço-o não só pelo desejo de ter uma boa reputação. Essencialmente, faço-o porque não quero que estas pessoas me conheçam a sério. Não quero que saibam mais acerca de mim do que precisam de saber, pois não tenho qualquer intenção de que façam parte da minha vida além do mísero papel que já têm. Só que, no trabalho que faço, se por um lado, tento manter inalcançável a minha verdadeira personalidade, por outro, falho redondamente neste exercício. Porque é-me exigido ser uma pessoa diferente da que sou, e até aqui tudo bem, mas é-me imposto ser alguém que não pretendo nunca ser, nem a fingir. E é aqui que a porca torce o rabo e acabo por ser mais transparente do que desejaria ser. Peçam-me tudo menos agir como uma pessoa que se está nas tintas para os outros. 

E volto ao início: ao rumo que quero para a minha vida e à forma como quero estar nela. Sei que não quero continuar a fazer um trabalho que me obriga a ser uma pessoa que não sou. Sei que quero seguir a minha vocação e o meu propósito. Sei, com tanta certeza, de que não nasci para fazer isto e que a culpa não é do trabalho em si, é minha. É como quando se termina um relacionamento: a culpa não é tua, é minha. Mas neste caso, é verdade: a culpa é minha. Este trabalho exige um perfil que não é, de todo, o meu. Não me consigo adaptar a esta forma de trabalhar, embora faça o meu  trabalho com a melhor qualidade que consigo e seja valorizada por isso. Simplesmente não consigo encaixar-me nestes moldes, neste formato. E é libertador chegar a esta conclusão. É libertador perceber, finalmente, que isto não é o caminho certo para mim, embora seja, sem dúvida, o mais seguro e menos arriscado. Eu gosto de segurança, prezo-a muito, mas gosto ainda mais de ser feliz e me sentir realizada. Sensação que só obtenho quando faço aquilo que gosto e que sinto, com certeza, que nasci para fazer. 

Hoje, o meu monitor do Chrome, que tem sempre uma frase inspiradora todos os dias, diz-me o seguinte: 

The secret to happiness is freedom. And the secret to freedom is courage. - Thucydides

Acho que não podia ser brindada com uma frase mais inspiradora e verdadeira do que esta, na fase em que me encontro. É como uma mensagem que entrou diretamente na caixa postal do meu coração e da minha cabeça. E sinto que preciso tanto desta liberdade. Estou a reunir a coragem, porque sei que tenho de começar o quanto antes. Não sinto que perdi tempo, porque esta experiência será sempre uma das mais enriquecedoras que já vivi. Mas já retirei a aprendizagem, a lição e, por isso, já não há quase nada aqui para mim. Chegou o momento de voltar à viagem, fazer-me à estrada e ir ao encontro do que me faz feliz. Esta paragem foi ótima para perceber que não passou disso mesmo, de uma paragem. Este ainda não é o destino final e eu estou de volta à estrada. 

21
Jan20

estrelinha

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Já tentei escrever alguma coisa n vezes e não consigo chegar onde quero. Tenho as ideias, sei o que quero transmitir, mas falta-me transpor o que vai dentro da minha cabeça para as palavras, físicas, reais. Este jogo de escreve-apaga deixa-me sempre frustrada e com a sensação de que me cortaram a voz e qualquer forma de expressão, porque me sinto presa e incapaz de comunicar de forma alguma. 

Por isso, venho apenas desejar um bom dia a toda a gente e relembrar que hoje uma das minhas estrelinhas brilha com mais força e intensidade. Quase consigo sentir a sua presença e proteção. Hoje estás comigo, ainda mais perto, ainda mais junto. 

15
Jan20

hora do banho

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Acredito que não sou apenas eu que tenho introspeções profundas e ideias geniais enquanto estou a tomar banho. Aqueles minutos lavam-me, muitas vezes, mais a mente do que o corpo. Não sei se é a água quente que, ao relaxar o corpo, deixa também a mente mais aberta e leve, mas quando tomo banho sinto-me sempre mais tranquila. Já para não falar que tenho incríveis debates comigo mesma e é, inúmeras vezes, o espaço onde tomo decisões, sobretudo as mais difíceis.
Ontem, enquanto tomava duche após o treino, dei comigo a sentir uma vontade muito forte de viajar. Para muitas pessoas, isto pode parecer banal e até algo ridículo de tão óbvio que é, porque a maioria das pessoas gosta de viajar e não é, de certeza, por falta de vontade que não o faz mais vezes. Mas, para mim, sentir esta vontade de ir, de me aventurar e, acima de tudo, de me afastar de casa é significativa. O ano que passou, quando chegou o momento de ir de férias, parecia que me estavam a empurrar para a forca. Uma parte de mim, bem escondida, estava entusiasmada, mas o bolo maior estava apavorado com a ideia de ir e deixar a minha família (ok, a minha mãe) sozinha. A ideia de estar longe, dela precisar de mim e, o pior de tudo, o sentimento de culpa por me estar a divertir e ela estar em casa, cercada pelos problemas.
Acho que sempre tive esta sensação de culpa presente na minha vida. A sensação de que não é justo me divertir, aproveitar a vida, enquanto os meus não o fazem. Sei que nada disto tem sentido lógico, mas tentem lá dizer ao meu lado emocional (que, já agora, é dominante) e vejam o que acontece. E o pior é que esta sensação de culpa, uma vez instalada, fustiga qualquer semente de entusiasmo e diversão. É como uma praga que se infiltra num terreno fértil, pronto a desabrochar.
Quando tento analisar-me e perceber o que está na origem deste sentimento, chego a duas hipóteses, que não são exclusivas, mas antes complementares. A primeira tem muito a ver comigo e com esta síndrome de impostor da qual padeço que, por sua vez, tem base numa autoestima débil. Desde que me lembro que penso sempre em mim a alcançar coisas, conquistas e, de seguida, vem um pensamento bomba que diz "impossível, tu jamais!". A sério, juro que é verdade. É como quando pensamos nas coisas boas e, imediatamente, ouvimos uma vozinha que nos diz "nunca vai acontecer". Eu sempre senti isto, esta sensação de que há coisas, sobretudo as boas, que não estão ao meu alcance e dificilmente me irão acontecer a mim. Porque, porquê a mim? Da mesma forma, quando as coisas boas acontecem ou quando faço algo bem, penso "será que isto está mesmo bem?", "será que isto está certo?". Ao não acreditar que mereço coisas boas, é inevitável não me sentir culpada quando essas me acontecem e não acontecem aos outros. É como se, lá está, fosse uma imposturice, como se não tivesse verdadeiro direito a isso.

Pausemos aqui para uma breve explicação: tudo isto é apenas sentido, é emocional. Racionalmente, sei que nada disto faz sentido, por isso, recorro muitas vezes à lógica, ao pensamento para analisar as minhas emoções e as minhas crenças irracionais. O problema é que usar apenas a razão é insuficiente. Quando se trata de algo tão profundo, a razão e a emoção têm de andar de mãos dadas. Isto significa que não basta pensar que mereço que as coisas boas me aconteçam, eu preciso, essencialmente, de sentir que as mereço. Entendem? É como num luto de alguém que amamos: não basta racionalmente sabermos que aquela pessoa morreu e não voltaremos a vê-la, temos de o aceitar também a nível emocional. Tem de existir um click, uma compreensão nos dois planos.
Posto isto, avanço para a minha segunda hipótese: a minha família. E não vos falo da amostra de família que tenho nos dias de hoje, mas sim da família que fomos e éramos até à pouco tempo. Nós éramos, aquilo que gostamos de chamar, uma família unida. Uma família em que cada um está disponível e presente para os outros, em que o problema de um é problema de todos. E eu sempre pensei que isto era ótimo, porque sempre me senti protegida e acreditei que, independentemente dos desafios que a vida nos apresentasse, seríamos capazes de os enfrentar e ultrapassar, juntos. Só que, com o divórcio dos meus pais e o desmoronamento da família, comecei a ganhar consciência de que talvez a nossa família não fosse unida, mas antes emaranhada. Estas são as famílias em que os limites não estão definidos e, como tal, os papéis que cada um ocupa também não são claros. Era frequente situações de casal serem resolvidas como se fossem situações familiares, que nos envolvessem a todos. Os aniversários de casamento não eram celebrados a dois, mas a quatro. Este emaranhamento (nem sei se esta palavra existe) fez com que os problemas de um fossem sentidos como responsabilidade de todos e isso é bom, mas só em determinada dose. Quando começamos a responsabilizar-nos pelos problemas que não são nossos e que, como tal, não temos forma de os resolver, as coisas complicam-se. O meu sentimento de culpa deriva também disto: de sentir que não tenho direito de aproveitar a MINHA vida porque a vida DA MINHA MÃE está em ruínas. Não me entendam mal, eu não consigo ser feliz em pleno se a minha mãe não estiver bem, não é isso que está em causa. O que está em causa é eu sentir a responsabilidade de resolver os problemas que são dela e não meus. Porque, quer queira quer não queira, há um caminho e todo um processo que lhe cabe a ela percorrer. De igual forma, eu, que também sou parte envolvida, tenho de percorrer o meu. Mas este sentimento de culpa nasce sempre que sinto que estou a avançar no meu percurso e olho para o lado e vejo que ela está estagnada no dela. Inevitavelmente, interrompo a minha jornada e vou para junto dela.
Por isso, quando dou por mim a sentir entusiasmo por viajar, aquela velha sensação de excitação e contentamento por ir numa aventura, não consigo evitar que estou a regressar ao meu caminho. Estou a voltar à pessoa que era, a voltar a sentir vontade de desfrutar da vida e não me focar só nos problemas. Não consigo evitar sentir uma enorme liberdade interior, ao mesmo tempo começo a sentir o sentimento de culpa a emergir. Quero avançar, mas não a quero deixar para trás. Isto faz algum sentido?
Quando comecei a escrever este texto, o meu objetivo era apenas falar de quão maravilhosos e inspiradores conseguem ser os banhos. Agora olho para tudo o que escrevi entretanto e não sei de onde é que isto veio, mas se veio, é porque era necessário. Ultimamente tenho escrito ainda mais para mim do que para qualquer tipo de público (se é que existe), o que pode tornar algum conteúdo chato e repetitivo, mas este blog funciona como o meu diário. Ou melhor, como a minha sessão de terapia. Tenho feito um trabalho intensivo a cada texto que escrevo, porque estas palavras são apenas a representação de milhares de pensamentos, de emoções turbulentas, de memórias, ora boas, ora aterrorizadoras. Por isso, a quem me lê e acompanha, peço desculpa se vos massacro com mais do mesmo a cada texto que publico. No entanto, não posso deixar de o fazer, até porque se apenas pensar nisto enquanto tomo banho, fico sem pele e zeros na conta bancária para pagar a despesa de água e luz!

14
Jan20

the thought train

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Como já referi algumas vezes, um dos meus hábitos diários, quase "religioso", é a meditação. Por norma, gosto de meditar de manhã, por um conjunto de razões: preparar-me mentalmente para o dia que se apresenta diante mim, é quando estou mais desperta e menos cansada (não correndo o risco de adormecer), há silêncio absoluto em casa porque sou sempre a primeira a acordar e levantar-me e, talvez o mais importante, coloca-me num estado de tranquilidade e, muitas vezes, bom humor, que são o melhor cartão de visita para dar ao mundo. Uma vez por outra, num dia mais stressante ou quando me sinto muito desperta, medito à noite, numa tentativa de relaxar progressivamente até que o sono acaba sempre por apanhar e não dou pelo fim da meditação. 

Uma das aplicações que utilizo para manter este hábito é a já tão conhecida aplicação Insight Timer. Descobri-a há cerca de 3 anos e desde aí a utilização tem sido quotidiana. Há pouco tempo cometi a "loucura" de me oferecer a mim mesma a subscrição premium, aproveitando o desconto de 50% da black friday. Embora a aplicação tenha a maioria dos conteúdos disponíveis gratuitamente, outros, muito aliciantes (como cursos ou outras ferramentas simples, como poder recuar e avançar na meditação), só estão disponíveis para usuários premium. Assim que passei para esta categoria, aventurei-me nos cursos disponibilizados por inúmeros professores de meditação, psicólogos, monges, enfim toda uma comunidade. 

Estou, neste momento, a acompanhar um curso dado por um psicoterapeuta, em que em cada sessão este recorre a uma metáfora para explorar o modo como nos relacionamos com os outros, com o mundo e, de certo modo, connosco mesmos. Cada meditação é uma maravilha para a alma, seja pela riqueza do conteúdo, seja pela beleza das metáforas utilizadas que, para mim, fazem a diferença na compreensão de muitos temas que, doutra forma, poderiam apenas ser confusos e de difícil apreensão. 

No domingo, fiz uma sessão cujo nome é "thought train", traduzindo, "o comboio do pensamento". Foi, talvez, um dos exercícios mais poderosos que já fiz a nível introspetivo. Basicamente, consiste em compreendermos a nossa mente como uma estação de comboios em que, a cada momento, estão a entrar novos comboios no cais, outros a partir em viagem, num ritmo frenético. Cada comboio representa um pensamento ou uma emoção ou uma sensação física. A nossa mente, no fundo, é este enorme conjunto de pensamentos a toda a velocidade, envolvidos em emoções. Neste exercício, somos convidados a sentar-nos na estação, a observar os comboios que chegam e que partem, isto é, quais os pensamentos em que entramos constantemente (como se fossem comboios dos quais somos passageiros), sem nos darmos conta. Assim que tomamos consciência destes comboios, podemos escolher se nos mantemos a bordo ou se voltamos ao terminal, à estação. Parece um exercício um tanto ou quanto disparatado, foi o que pensei quando comecei a minha visualização. Mas, muito rapidamente, consegui identificar os comboios em que embarco quase sempre, como se tivesse um bilhete vitalício. 

O primeiro que identifiquei foi o comboio "e se...?". As viagens alucinantes que eu faço a bordo deste comboio, os cenários e paisagens incríveis pelos quais passo ...! Se há coisa na qual a minha mente é mestre, é na arte de fantasiar e criar situações surreais. Escusado será dizer que a maioria destas são negativas e se fazem acompanhar por sentimentos de medo e preocupação, deixando a minha barriga num aperto ou às voltas.

O segundo foi o comboio "necessidade de controlo". Cada vez me tenho apercebido mais da minha necessidade, da urgência em saber como e quando é que as coisas vão acontecer. Da urgência em estar preparada, em saber como reagir, em não ser surpreendida. Penso que não é necessário afirmar que este comboio duplicou as suas rotas e viagens depois do que aconteceu cá em casa. As saudades que eu tenho de embarcar no comboio "surpresa" ou no comboio "deixar ir". Quando vivemos com esta necessidade de controlo, não sei, sequer, se estamos realmente a viver. A vida é precisamente o oposto, é incerteza, é descarrilamento. 

O terceiro comboio mais popular é o comboio "medo". Medo do que vai acontecer, medo de como vou reagir, medo do que os outros vão pensar e/ou dizer, medo disto, medo daquilo. Mais uma vez, apercebo-me que este comboio me leva para longe da vida, pelo menos, para longe da vida que pretendo viver e que desejo para mim. Ao longe, vejo o comboio "coragem" e o comboio "esperança" e faço sinal para que abrandem, para que eu ainda me possa juntar à viagem.

Como podem ver, um simples e até estranho exercício tem o poder de nos levar numa viagem pelas terras desconhecidas da nossa psique. Ter consciência e conhecimento de que estes comboios, sempre em movimento, são apenas a mente a funcionar como é suposto e saber que temos o poder de escolher em qual vamos entrar, em qual nos vamos manter, é libertador. Primeiro, significa que não somos o que pensamos, somos a consciência desses pensamentos. E, segundo, por sermos esse ser observador, com poder de escolha, somos nós os decisores dos pensamentos e das emoções que povoam a nossa cabeça e, em modo geral, a nossa vida. Para mim, é aqui que reside a verdadeira e talvez única forma de liberdade: dentro de nós mesmos. 

13
Jan20

love of my life

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Não sei sobre o que escrever. Se escrevo sobre estar a atingir os limites dos limites da paciência relativamente à minha família ou se escrevo sobre a vontade que sinto de estar em isolamento e desligada dos dramas que circulam à minha volta, como se fossem as tragédias mais drásticas deste mundo. Mas, depois, concluo que mais do que estar cansada desta situação, estou é mesmo cansada de viver em torno dela e me arrastar como se isto fosse a coisa mais importante da vida, o que não é. E, por isso mesmo, hoje vou escrever sobre ti, amor da minha vida, que tens sido a tábua a que me amarro, com unhas e dentes, nesta tempestade que assolou o oceano da minha vida e, por seres parte fundamental dela, te atingiu também a ti.

Houve uma fase, algures no tempo, em que eu, também fruto da minha veia romântica e dos inúmeros filmes que devorava, achava que o amor se expressava nas longas e delicadas cartas de amor, nos buquês de flores inesperados, nas surpresas imaginadas e preparadas ao milímetro, nas grandes manifestações que, por vezes, roçam o piroso. E eu cobrava-te todas essas coisas. Queria que provasses o quanto me amavas através desse conjunto de gestos, mesmo que ao exigir-te tudo isso, estivesse a desejar que fosses uma pessoa completamente diferente da que és. 

Mais tarde, felizmente, a vida encarregou-se de me mostrar que expressavas todo o teu amor todos os dias, nas mais pequenas e singelas coisas. Naquelas coisas que, por tomarmos por garantidas, achamos que são banais e comuns, quando, muitas vezes, são essas que tornam as relações especiais. O teu amor nunca chegou em gestos espalhafatosos, muitas vezes mais destinados aos olhares dos outros. Mas chegou sempre e, nos momentos mais difíceis, transbordou, chegando mais longe e mais fundo do que alguma vez tinha chegado. 

Sabes que eu acredito que todos os momentos da nossa vida, mas sobretudo os mais duros, têm sempre um lado positivo. Algumas pessoas acreditam que sou uma otimista incurável, outras julgam que sou só parva, mas, sendo uma ou sendo outra, continuo a acreditar piamente que na adversidade também existe riqueza. No seio das maiores adversidades da minha vida até à data, sendo esta última a mais arrebatadora, tu tens sido essa riqueza. Essa dádiva que mostra que nada nos é tirado, sem nos ser dado algo em troca. 

Desde o primeiro instante em que o meu telemóvel tocou e a minha vida antiga se desfez em cacos, tu estiveste comigo. Tu estás comigo todos os dias, em cada volta e reviravolta. Tu abraças-me para me confortar, abraças-me para me proteger e abraças-me quando não sabes o que me dizer mais. Abraças-me e todo o teu corpo me diz que me ama e que, se pudesses mudar alguma coisa, eu não estaria a passar por isto. E ficas genuinamente incomodado com este assunto, mas és o único que fica revoltado e zangado pela posição que ocupo. És o único que fica indignado com a carga diária de coisas que carrego às costas e és também o único que zela pelo meu bem-estar, sem qualquer condição. 

Mas mais do que toda esta preocupação e todas as vezes que cedes aos meus pedidos e ainda mais do que as vezes que limpas as minhas lágrimas (que, como sabes, só surgem na tua presença), o que me deixa perplexa no teu amor por mim é o modo incondicional como me amas quando eu deixo de ser eu. Quando eu me comporto como uma pessoa que certamente não é a pessoa pela qual te apaixonaste, quando eu me deixo cair num estado de total falta de vitalidade e me entrego ao meu modo de isolamento. Quando eu mudo de humor quatro vezes no espaço de meia hora. Quando tudo me parece um fardo, um esforço e mais uma exigência. O que me deixa abismada é que nesses momentos em que é verdadeiramente difícil amar-se uma pessoa, tu nunca deixas de me amar. 

Por isso, hoje, no lugar de me queixar ao mundo (pela centésima vez), desta situação que não escolhi, mas na qual estou envolvida, prefiro dizer obrigada à vida e, acima de tudo, obrigada a ti por seres a parte mais bonita dela. Ensinas-me todos os dias que existem mil e uma maneiras de amar. Tu, meu amor, não sabes nunca o que dizer, mas sabes sempre o que fazer. E a coisa que fazes melhor, no conjunto das inúmeras coisas que fazes bem, é, sem qualquer dúvida, amar-me. 

10
Jan20

5

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Avó,

Já foram inúmeras as vezes que olhei para a data de hoje no calendário e pensei em ti. Pensei que foi neste dia, há precisamente 5 anos, que nos disseste adeus (ou até já) num sábado frio e solarengo. Lembro-me como se fosse hoje daquela sensação estranha e premonitória que percorreu o meu corpo segundos antes de entrar em casa e me cair o mundo em cima. De algum modo, que desconheço por completo, era como se eu já soubesse que já não estavas connosco. E não estavas, pelo menos na forma, no corpo, na matéria como te conhecíamos. 

Torno a dizer-te que esbarrei tantas vezes na data de hoje e pensei em ti, avó. Mas tenho de te confessar que em nenhum momento me dediquei a pensar em ti só e exclusivamente, como tu mereces. Tenho dito e repetido a mim mesma, ao longo do dia, que esta data merece ser sentida e refletida como deve ser: com calma, tempo e amor. Quero dedicar-me a pensar em ti, em nós, na vida que partilhamos com toda a atenção do mundo, focando-me muito mais no que vivemos do que naquilo que deixamos por viver após a tua partida. 

Sabes, avó, quando tento encontrar recordações de momentos vividos contigo em que não fui feliz, falho sempre redondamente. E acho que deve ser a ocasião em que mais adoro ser uma falhada!  Talvez a única, para ser sincera. Porque não há uma única memória, nem sequer uma exceção que confirme a regra, em que eu não tenha sido feliz ao teu lado. Quer dizer, avó, haver, claro que há, mas são as memórias de quando estavas doente e essas não contam, porque não foste a culpada da minha infelicidade, tu estavas tão mais triste do que eu, tão mais desesperada. Essas memórias foram-nos impostas, não fomos nós que as criamos, por isso continuo a sentir que não houve um momento em que não me tenhas feito feliz. 

E tu sabias tão bem como me fazer feliz. Era uma fórmula simples e que resultava sempre. Com as coisas pequenas, como a minha comida preferida, a cama sempre quentinha, os longos e aventureiros banhos de espuma, os desenhos animados nas manhãs de domingo, as torradas e o leite com chocolate, as palmadinhas de orgulho à medida que o meu corpo ia crescendo e me transformava numa menina-mulher, as idas ao sótão da tua casa que hoje vejo como era pequeno, mas naquela altura parecia-me gigantesco. Porque em cada uma destas pequenas coisas imprimias sempre tanto amor, tanto carinho e doçura. Num só abraço seguravas o mundo e fazias sentir-me intocável e protegida por uma força oculta e invisível. 

E depois há outra coisa, avó. É que tu eras um terramoto, uma força incontrolável da natureza. Eu nunca conheci ninguém como tu, tão destemida, tão guerreira, tão senhora segura de si mesma. O orgulho que eu tenho em ti desde sempre. Se tu soubesses como eu falava de ti aos meus amigos, ficarias enternecida e perceberias que para mim sempre foste a super-mulher. 

Hoje recordo-te por todas as coisas boas que nasceram da sorte de sermos neta e avó uma da outra. Estou em paz com a tua ausência, porque compreendi, não só com a cabeça, mas também (e sobretudo) com o coração, que vives em mim. Nunca estarás ausente enquanto continuares tão viva dentro de mim. Quando te vi naquele caixão, não derramei uma lágrima, porque aquele corpo já não eras tu, era apenas isso, um corpo. O que tu eras já não estava ali e, por isso mesmo, não eras, continuas a ser. Para mim continuas a ser, sempre serás. Claro que nunca deixarei de sentir que te perdi cedo demais, mas não seria sempre cedo demais? Não me farias sempre uma imensa falta e deixarias sempre uma excruciante saudade? 

Avó, 5 anos longe de ti. Sabes do que sinto mais saudades? Dos teus abraços. Ainda não voltei a encontrar noutros braços o conforto e a inocência que encontrava sempre que me aprisionavas nos teus. Sinto que aquela menina pequena ficou para sempre amarrada num abraço teu. Um abraço casa, que em meros segundos transformava todo o restante dia. 

Avó, gosto tanto de ti. E todos os dias luto contra a minha racionalidade para me convencer que um dia voltarei a encontrar esse abraço apertado e me sentirei novamente em casa, contigo. Era tudo o que mais queria. 

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